Mulheres como Eva em tempos como os nossos

Em 2021, diante de um governo autoritário, o Brasil enfrenta novamente os prejuízos da censura cultural

Foto: Reprodução


Por Nicole Prado

Dos tantos personagens de uma dama do teatro e das telas, talvez o mais contundente seja o que Eva Wilma, uma das maiores atrizes brasileiras, representou nos palcos da rua. O ano era 1968, o regime militar tanto estagnava quem vivia de arte, quanto fazia a função de locomotriz dos projetos culturais de quem lutava por ela. Atrizes como Eva Wilma, Tônia Carrero, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell escolheram a luta. Na linha da frente da histórica "Passeata dos cem mil", no Rio de Janeiro, as atrizes saíram de mãos dadas para o protesto. O ato ocorreu em consequência do assassinato do estudante Edson Luis Lima Souto, executado por militares, enquanto se manifestava contra a repressão do governo. As artistas, enquanto usavam a influência para defender a cultura, faziam a voz de Edson ecoar.   

No ano de 1997, na novela "A Indomada", Eva deu vida à vilã Maria Altiva. A cena de sua morte é uma das mais emblemáticas da TV brasileira. A vilã, do céu, deu adeus a todos os moradores da cidade de Greenville, que a observavam amedrontados, dizendo a frase marcante: "Eu voltarei!". Com uma carreira marcada pelo seu posicionamento contra a censura, a artista nos dá o adeus definitivo em 2021, vivendo e atuando ao passo em que outro governo autoritário exerce o seu poder. O que observamos agora também é marcante, diante de nós está o "Eu voltei!" da censura.

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Em fevereiro deste ano, a ONG Freemuse, responsável por analisar a liberdade artística no mundo, destacou o Brasil em seus estudos. Segundo informes da ONG, medidas como o desmonte de órgãos públicos e corte de verbas para produções culturais contrárias à ideologia do governo colocam a arte à mercê da censura e do conservadorismo, assim como ocorreu na ditadura.

Medidas desfavoráveis à arte já eram previstas na campanha de Jair Bolsonaro, quando o mesmo alegou que artistas com grande destaque midiático levantavam bandeiras de questões sociais para "agradar o PT". Segundo ele, os artistas dependiam da Lei Rouanett para sobreviver. Assim, o então candidato se mostrava contrário à verdade e ao bom senso. Após o início de seu mandato, acompanhamos o corte de 98% da verba total destinada à Lei Federal de Incentivo à Cultura, a famigerada Lei Rouanett, criada para alavancar a produção artística no país, concedendo isenção fiscal para empresas que patrocinam projetos culturais.

Durante a ditadura militar, artistas que usavam seu trabalho como forma de protesto eram mandados para o exílio. Hoje o exílio é a inviabilidade. A realidade é distante do que a grande maioria dos asseclas de Jair Bolsonaro afirma, a lei não se trata de uma "mamata" dos artistas da Globo. Quem mais sofre com os impactos da falta de incentivo à cultura é quem menos tem capital para investir em suas produções.

O país segue enfraquecido culturalmente, e com o apoio de entidades federais. O atual secretário especial da Cultura, Mário Frias, avalia suas decisões como o jeito correto de governar diante de projetos que julga serem de esquerda. De especial, o secretário nada possui. Observamos, após dez anos, o plano anual de 2021 do Instituto Vladimir Herzog, que trabalha pelos valores da Democracia, Direitos Humanos e Liberdade de Expressão, ser rejeitado pelo governo Bolsonaro. Perseguição ideológica. O caminho é para o desastre.

Eva Wilma e tantos outros artistas de sua época usavam metáforas e eufemismos para enganar os olhos macabros da ditadura. Hoje, esses mesmos olhos estão bem abertos. Conservadorismo e censura ameaçam o pensamento crítico, silenciando a arte. Não é por acaso. Uma população sem conhecimento e contato com a cultura está suscetível a acreditar nas falácias de seus governantes. Os tempos de Eva são os nossos. Regredimos, e não é possível ver o fim do que teve seu início anunciado.

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