MP denuncia ginecologista de Anápolis por estupro de vulnerável contra pacientes

Nicodemos Júnior é suspeito de crimes sexuais em mais de 50 casos. Ele sempre negou as denúncias e disse que comentários eram brincadeiras

Foto: Divulgação/Polícia Civil


O Ministério Público de Goiás (MP-GO) fez a primeira denúncia por estupro de vulnerável contra o ginecologista Nicodemos Júnior Estanislau Morais, de 41 anos, que atendia pacientes em Anápolis, a 55km de Goiânia. A denúncia com mais de 700 páginas foi enviada à Vara de Anápolis na sexta-feira (22), segundo a promotora de Justiça Camila Fernandes.

O médico sempre negou as denúncias e disse que jamais tocou as pacientes de forma indevida. Ele alegou em entrevista que os comentários feitos em redes sociais eram "brincadeiras".

O advogado Carlos Eduardo, que defende o médico no processo, disse nesta segunda-feira (25) que não vai se manifestar sobre a denúncia. O Tribunal de Justiça não informou se a denúncia foi aceita porque o processo corre em segredo.

Segundo a promotora Camila Fernandes, essa denúncia se refere aos relatos das três primeiras mulheres que registraram ocorrência na Polícia Civil. Em Goiás, mais de 50 pacientes registraram ocorrência na Delegacia de Atendimento a Mulher (Deam) de Anápolis.

A promotora explicou ainda que fez a denúncia por estupro de vulnerável porque as vítimas não tinham condições de oferecer resistência no momento da consulta. A pena para este crime varia de 8 a 15 anos de prisão.

"Pedimos também na denúncia a manutenção da prisão do médico. Com relação às outras vítimas, o Ministério Público iniciou a análise dos inquéritos e, tão logo seja concluída, as denúncias serão encaminhadas ao Poder Judiciário", esclareceu Camila Fernandes.
 
Portanto, o médico Nicodemos Júnior continua preso no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia. Ele se tornou alvo de investigação depois que mulheres procuraram a Delegacia de Atendimento a Mulher (Deam) de Anápolis para denunciar que foram vítimas de crimes sexuais dentro do consultório.

No início foram três mulheres, mas o caso ganhou repercussão e outras vítimas apareceram para fazer denúncias.

Nicodemos já foi indiciado por violação sexual mediante fraude contra quatro pacientes em Abadiânia, no Entorno do Distrito Federal.

Investigação

As primeiras denúncias contra o médico que levaram à primeira prisão dele em Goiás surgiram em Anápolis. A delegada Isabela Joy, responsável pelas investigações, deteve Nicodemos em 29 de setembro. Depois da divulgação dos casos, mais de 50 mulheres registraram ocorrência.

No processo contra ele pela Polícia Civil de Anápolis, o médico foi indiciado por:

22 casos de estupro de vulnerável
22 casos de violação sexual mediante fraude
9 casos de assédio sexual

Apesar do número de denúncias, o médico foi solto em 4 de outubro por decisão da Justiça, passou a ser monitorado por tornozeleira eletrônica. No entanto, mais vítimas de Abadiânia registraram ocorrência e ele foi preso novamente quatro dias depois.

O Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego) interditou o registro dele por seis meses, podendo ser prorrogado por igual período. Desta forma, ele fica impedido de exercer a medicina no país.

 

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Relatos de pacientes

As pacientes relatam diversos tipos de comportamentos e comentários com conotações sexuais por parte do ginecologista.

Uma das vítimas disse que, durante uma consulta no ano passado, o médico elogiou seus olhos e também o órgão sexual. Em seguida, perguntou sobre sua relação sexual com o marido.

“Eu fiquei congelada e ele fazendo manipulações, isso tudo com os dois dedos introduzidos na minha vagina. Eu não consegui nem respirar no momento. É uma situação que a gente nunca espera que vai acontecer”, contou.
Outra paciente relata que foi abusada pelo ginecologista durante o atendimento. Ela decidiu falar sobre o caso após a prisão do suspeito.

“Ele teve conversas inadequadas, me mostrou sites obscenos, brinquedos eróticos e tocou em mim não da forma que um ginecologista deveria tocar. Quando ele colocou minha mão na parte íntima dele, sabe?”, disse a paciente, que não quis se identificar.

Entre as denúncias, também está a da aromaterapeuta Kethlen Carneiro, de 20 anos, que procurou a Polícia Civil para relatar que foi abusada por ele quando ainda tinha 12 anos. Durante o atendimento, segunda ela, o médico sugeriu a leitura de material pornográfico.

“Ele veio me falar que eu podia começar a me masturbar. Me mostrou histórias em quadrinho pornô e vídeos. Me mandando os links e quais eu podia assistir. Depois levantou, pegou minha mão e colocou nele, na parte íntima dele", disse.

Em conversa por uma rede social, outra paciente pede informações ao ginecologista sobre o uso do anel vaginal, um método contraceptivo. Em um momento, ela pergunta se ele não atrapalha a relação sexual e se o parceiro não o sentiria. O médico, então, responde:

“Bom, minha namorada já usou e eu não percebi diferença alguma. Posso testar kkk. Brincadeira”.

'Brincadeira'

Nicodemos Júnior nega os assédios. Ele disse que comentários em aplicativos de mensagens eram “brincadeira” e admitiu que isso foi um erro.

"É muito complexo. Eu brinco com algumas coisas. Às vezes, nisso, eu pequei, realmente. (...) Mas, nunca, em nenhum momento, eu toquei em uma paciente com objetivo de ter prazer sexual ou de fazê-la ter um prazer sexual, porque o objetivo ali é o exame físico", disse.

Nos relatos das pacientes consta que o médico fazia muitas insinuações de cunho sexual, entre elas: "transar fortalece amizade" ou "faz o bronzeamento e me mostra".

"Muitas vezes, elas falam, 'olha, doutor, eu fiz alguma coisa assim, será que vai acontecer alguma coisa?'. Um erro meu, concordo, brinco no WhatsApp, comento alguma coisa de uma forma inadequada. Concordo que eu fiz isso, nisso eu estou errado", admitiu.

G1

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