Ouça a Terapia do Som que Faz Bem

  • Maiana Pereira

Eu sei que você associa diferentes trilhas sonoras a diferentes fases da sua vida. Eu sei também que existem aquelas músicas que você sente que falam por você, aquelas que descrevem o que você sente e não conseguia expressar em palavras e outras que te levam a locais de conforto ou de dor. As reações à música em nosso corpo podem ser explicadas  pela ativação de áreas do nosso cérebro, principalmente do sistema límbico, que são responsáveis por nossas emoções, memórias, linguagem e aprendizagem. Mas, seria tolice resumir tantos efeitos a apenas ativações neurais.

A música faz parte da humanidade desde tempos remotos e está presente em várias ocasiões, seja para celebrar momentos de felicidade ou de tristeza, marcar episódios importantes da vida ou, ainda, expressar de maneira artística questões que atravessam o social. Muitos se dedicam à música de modo a viverem como músicos ou aprendem a tocar instrumentos como prática de lazer. Esse envolvimento com a música pode dar-se desde a primeira infância e ser desenvolvido ao longo de toda a vida.” (Gouveia, 2022)*

Musicalidade é linguagem, verbal e não verbal. Ela é o som construído para provocar sensações e é também as letras que acompanham e desenham questões diversas que permeiam a existência humana. Não é por acaso que você se identifica com melodias e letras e sente que elas falam por você. Aprendemos a nomear o que sentimos no contato com o outro e quanto mais vivemos mais sentimos necessidade de dar nome ao que nos move.

Por diversos motivos, dos quais problemas geracionais são apenas uma parte, nossa comunidade pode falhar em nos ensinar a identificar e nomear aquela sensação específica. Pode falhar em nos fazer sentir compreendidos. Ouvir algo que fala diretamente a você têm efeito acolhedor, de afirmação da nossa identidade e senso de pertencimento. Um sábio disse uma vez que nenhuma experiência humana é única e nisso ele estava certo. Isso não quer dizer que não existam experiências originais, não me entendam mal. Tudo foi feito em algum momento pela primeira vez. Mas muitas vezes repetimos ciclos. Quando vejo as ondas de nostalgia tomarem conta dos ouvintes não consigo deixar de pensar nas palavras de Belchior: “você diz que depois deles não apareceu mais ninguém” e boom, você se tornou em alguém como seus próprios pais.

Seria leviano eu dizer que toda nostalgia é ruim. Semana passada saiu o line-up do Lollapaloza e quem não ficou mexido com Blink-182 que atire a primeira pedra. Limp Bizkit talvez não seja o nome mais popular em 2023, mas para quem ouvia Behind Blue Eyes nos anos 00s tem um quê gostoso de saudade. Memórias são formas de reviver (ainda que em menor intensidade) emoções que nos marcaram. Quando misturadas a algo que mexe tanto com nossos sentidos, como músicas, essa nostalgia baseada em memórias afetivas se torna ainda mais atraente. Produzem um efeito lucrativo, cujo mercado já entendeu bastante como utilizar.

Como boa psicóloga já saco logo outro “depende” e me explico apontando que não precisamos demonizar tudo apenas porque foi capitalizado. Tenho certeza de que para muitos dos milhares de fãs do RBD que irão aos shows da turnê de reencontro o melhor de tudo será o efeito catártico. Poder cantar músicas que ouviam escondido para não serem julgados quando ainda não tinham assumido sua sexualidade, poder sentir como se sentiam em tempos mais simples, ou dar um grito de liberdade quando a sensação é que os tempos eram mais complicados e hoje eles podem mais. Catarse no sentido mais pleno da palavra. Para o ouvinte e para o artista.

2023 foi também o ano que saiu o livro autobiográfico de Britney Spears. Nele, a cantora fala como muitas vezes a música a salvou e como também foi utilizada como instrumento de coerção na sua vida. O alcance da publicação e do audiobook da artista mostra ainda mais um renascimento do interesse pelos anos 00s, fruto da geração dos 30+ que começa a usar a música para remorar como seus pais fizeram antes deles. Geração esta, da qual faço parte.

 Enquanto isso existe muita produção nova e outros jovens que se identificam e que vão repetir esse ciclo mais a frente. A geração que usa K-pop como fonte de prazer e de senso de comunidade não me deixa mentir. Tem muita coisa boa sendo produzida pela nova MPB (cuja definição eu nem sei se deve ser resumida ao gênero do qual deriva). Músicas continuam expressando luta, mudança e tantas outras questões de nosso tempo e vão continuar assim enquanto estivermos aqui. Corrigindo um pouco o Baiana System eu não diria que música é terapia, mas é sem dúvidas algo terapêutico. Música é um fruto nosso e de nosso tempo cujas gerações futuras vão olhar para entender como nos sentíamos e quem fomos.

Cenas da série “Doctor Who” (2005)

A música de hoje, seja ela pop ou sertanejo sofrência, será o clássico de amanhã. E será um registro perfeito para entender a história humana. Bom, talvez não tão perfeito, mas pelo menos um recorte fiel de quem somos hoje, tanto quanto uma fotografia pode ser fiel. Talvez o futuro interprete nossa canção como algo diferente do que queríamos passar. Olha o Caetano que dia desses ficou sem entender as repostas à música dele publicada na prova do Enem reforçando meu ponto. Mas essa é a beleza da arte: uma vez no mundo ela é livre e ganha novos significados à medida que é vista pelo observador em sua própria perspectiva.

*Gouveia, C. (2022). A influência da música no neurodesenvolvimento infantil: Apontamentos neuropsicológicos. Mosaico: Estudos Em Psicologia, 10(1), 67–84. Recuperado de https://periodicos.ufmg.br/index.php/mosaico/article/view/35680


Maiana Pereira

Psicóloga, baiana, feminista e palestrinha que ama dar um pitaco. Falo sobre os cotovelos sobre tudo que me move. Sou daquelas que a vida tem uma trilha sonora própria. Quero saber mais, ouvir mais, ver mais, ler mais, ver como cada contexto se relaciona. Vem comigo?

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