Ouro de tolo e a inalcançável busca pela felicidade

  • Danilo Souza

Você sabia que o brasileiro Raul Seixas e o alemão Schopenhauer têm uma coisa em comum? No texto de hoje no “Troca o Disco” eu te conto o que faz com que a letra da música Ouro de Tolo seja considerada tão profunda e que pode até ser comparada com uma das linhas de pensamento do filósofo. 

Ouro de Tolo é a última faixa do Krig-Ha, Bandolo!, o álbum de estreia do Raul Seixas, lançado em 1973. A música tem uma história bastante interessante desde a origem do seu nome até o seu contexto. A expressão “ouro de tolo” surgiu baseada em uma pedra chamada “Pirita”, que parece com ouro verdadeiro e por isso pode enganar trabalhadores sem tanta experiência na área, pensando que encontraram ouro quando na verdade não é. E é bem por aí que caminha a letra da música, que é uma baita crítica ao que consideramos como a verdadeira felicidade, ou nesta metáfora, o verdadeiro ouro.

Durante a letra, o personagem se lamenta pelo fato de que mesmo depois de conseguir as coisas as quais ele almejou durante a sua vida, ainda existe a sensação de faltar algo. O sucesso profissional, o carro do ano, morar em uma região bonita da cidade, coisas que supostamente deveriam causar a sensação da felicidade, porém, sentir que ainda falta algo mesmo depois de ter alcançado as metas que a sociedade coloca faz com que ele questione qual é o sentido de tudo isso.

“Eu devia estar contente por ter conseguido

Tudo o que eu quis mas confesso abestalhado 

Que eu estou decepcionado porque foi tão fácil conseguir

E agora eu me pergunto "E daí?"

Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar

E eu não posso ficar aí parado”

A crítica existencialista abordada na canção já tinha muito sentido nos anos 1970, mas e se eu te disser que já havia uma pessoa pensando sobre isso no século anterior ao do lançamento da música do Raul? E é aqui que o Schopenhauer entra na história. Para o filósofo, a felicidade é a satisfação sucessiva de todo o nosso querer, ou seja, o ser humano sempre está em busca de coisas novas para se manter feliz. Depois de conseguir a vaga na faculdade, você quer o emprego, depois do emprego quer uma casa, depois da casa quer um carro e assim a vida se torna uma lista de compras onde mentalizamos a felicidade como a sensação momentânea de ter conseguido o que queríamos, mas que em pouco tempo se transforma em tédio por não ter mais pelo que batalhar.

“A vida é uma constante oscilação entre a ânsia de ter e o tédio de possuir.” 

- Arthur Schopenhauer

Não adianta ter o ouro nas mãos se ele não tem valor. Essa é a mensagem de um dos principais sucessos do Raul, uma composição que depois que é compreendida mostra ainda mais a genialidade do artista baiano e nos faz pensar se realmente estamos sendo felizes ou se estamos cavando em busca de um ouro que na verdade é apenas um ouro de tolo.


Danilo Souza

Estudante de Jornalismo pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), músico e produtor audiovisual independente.

danilosouza.jornalismo@gmail.com (Email)

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