Sagrado e Profano

  • Maiana Pereira

Tem alguém por aqui? Fiquei sabendo que já é carnaval e que o leitor pediu para avisar que não existe mais nada importante até depois que o último trio passar. Para quem tiver um minutinho para me dar atenção, que tal falar sobre autocuidados em saúde mental neste período?

Imagem: Reprodução. Disponível no site Mentirinhas por Fábio Coala

Carnaval é uma das poucas quase unanimidades no nosso país. Seja um folião, um adepto do bloco do eu sozinho no sofá ou uma pessoa religiosa que não participa das festas mundanas, o período em si é bastante proveitoso para todos. Quase uma semana do saco cheio coletiva, ainda que muitos trabalhem em alguns dos dias (ou todos eles). É um período “entre”. Entre o fim do ano e o “verdadeiro início” do ano, período no qual a catarse é permitida e incentivada. Será que é bom para nossa saúde mental esquecer de tudo assim?

A resposta é: depende de como você cuida de você nesse período. É possível sim ter cuidados e fazer boas escolhas e ainda sim se esquivar de problemas e preocupações nesta época. Existem responsabilidades que não podem ser deixadas de lado. Algumas outras atividades conseguimos flexibilizar. E flexibilização é a palavra-chave para fazer tudo funcionar. 

Tenho a impressão de que nos últimos tempos quando se fala em autocuidado as pessoas pensam somente na famosa skincare ou algum cuidado estético. É bem verdade que cuidados com aparência podem servir para impulsionar sensações de prazer, mas este tipo de cuidado vai muito além. Temos em geral quatro tipos de atividades de autocuidado individual: físicos, sociais, emocionais e atividades estimulantes. Os físicos dizem respeito a saúde do corpo e incluem exercícios físicos, alimentação e cuidados com a aparência no geral. Os sociais dizem respeito a manutenção de vínculos importantes e outras interações interpessoais que atuem no bem-estar dos indivíduos. O emocional diz respeito a regulação de emoções, ao desenvolvimento de práticas de autoconhecimento e auto-observação, autoestima e outros. Por fim, as atividades estimulantes referem-se aquelas interações com o ambiente que produzem sensações de alegria e bem-estar, tais como leituras e utilização de espaços de lazer. Há quem pare agora e diga que o bloquinho é sua atividade estimulante, e quem sou eu para contradizer?

Como baiana não fujo da regra de ter memórias afetivas ligadas a data: viagens à praia, as saudosas micaretas, descanso, momentos de prazer e euforia no meio da multidão, choro ao ver o Ilê Aiyê passando na avenida. É um evento cultural permitido a todos, embora nem todos o vivam da mesma forma e com o mesmo acesso. Vai me dizer que os cordões que separam os blocos ou os camarotes são acessíveis? Mas a rua é livre para todo poeta. E para quem chegou até aqui, preste atenção nas dicas de cuidado:

Beba bastante água. Eu sei que você já ouviu bastante isso, ouviu porque é realmente importante. Intercale bebidas alcoólicas com água para evitar desidratação.

Use protetor solar e cuidado com exposição excessiva ao sol e ao calor. No meio da folia não esqueça de repor o filtro solar. Repelente de insetos também é uma boa pedida, afinal estamos no meio do aumento de casos de dengue. Tentem criar estratégias entre o grupo para que isso não aconteça, principalmente se estiver consumindo álcool. Não pegue uma insolação porque estava distraído e ébrio.

Preste atenção aos sinais do seu corpo. Não é à toa que muitos frequentadores assíduos de academias fazem projetos “verão” ou “carnaval”, o corpo enfrenta uma sobrecarga nessa época. Isso não significa que sedentários não possam se divertir. O que quero dizer aqui é: saiba os limites do seu corpo e até onde pode ir. Mesmo que você tenha preparo físico não está isento de lesões. Cuidado com quedas, torções, distensões musculares, até mesmo o uso de álcool além do que aguenta e não evite procurar cuidados médicos quando observar algo anormal. Não perca sua festa porque queimou a largada.

A sua segurança e a dos seus amigos é prioridade máxima. Façam combinados sobre locais para se encontrar caso alguém se perca, andem em duplas, usem doleiras, observem os espaços em que estão e preste atenção nos amigos que te acompanham caso eles pareçam alterados demais para cuidar de si próprios. Tome estes cuidados especialmente se tiverem mulheres no grupo, pessoas LGBTQIA+, PCDs ou outros grupos vulneráveis. Não deixem ninguém esperando, não deixe a amiga bêbada sair desacompanhada e se observar alguém em alguma situação de vulnerabilidade tente localizar algum amigo da pessoa ou aguardar com ela até receber ajuda. 

Sexo é com camisinha. E não digo isso para evitar mais nascimentos em novembro como muitos brincam. ISTs não tem cara, podem estragar a sua festa e pior: a sua vida.

Caso use drogas, seja adepto da redução de danos. Algumas drogas podem acelerar o processo de desidratação e aumentar a temperatura do seu corpo, o que as tornam excepcionalmente perigosas. Não vou ser tola de falar apenas “não use essas drogas”, eu sei que os efeitos delas são mais atrativos do que o puritanismo e quem já usou provavelmente se sente seguro. O que peço aqui é que você use com o máximo de segurança possível. Não combine as substâncias com álcool, muitas dessas combinações produzem efeitos que podem levar até a morte. Lembra da dica da água? A quantidade deve ser adaptada ao tipo de droga que você consome, talvez exista um limite seguro para você beber ou vai perder muitos minerais e prejudicar o corpo. Não compre drogas de fontes desconhecidas, use as suas próprias e não a de estranhos na rua. Leia e pratique redução de danos.

No fim o mais importante é a redução de danos em todos os aspectos: flexibilizar, entender limites, enfiar o pé na jaca, mas com segurança para não perder os pés. Algumas dicas podem parecer óbvias, mas precisam ser ditas, lembradas e principalmente: praticadas.

Sei que existem críticas ao carnaval. Muitos podem dizer que “no meu tempo não era assim”, mas o carnaval como produto e parte da nossa cultura é uma entidade viva. Se transforma. E vai continuar mudando. Eu só sei que é carnaval. Viva a cultura de rua. Viva a manifestação dos nossos desejos. Viva o lado sagrado, viva o lado profano! Viva a catarse. Feliz ano novo de novo, nos vemos na quaresma.


Maiana Pereira

Psicóloga, baiana, feminista e palestrinha que ama dar um pitaco. Falo sobre os cotovelos sobre tudo que me move. Sou daquelas que a vida tem uma trilha sonora própria. Quero saber mais, ouvir mais, ver mais, ler mais, ver como cada contexto se relaciona. Vem comigo?

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