Inclusão que respeite a Libras – a luta por acessibilidade em uma sociedade que ainda não escuta

Vivemos na era da informação, mas quantos brasileiros estão verdadeiramente incluídos nela? Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem cerca de 10,7 milhões de pessoas com deficiência auditiva, sendo que mais de 2,3 milhões possuem surdez severa ou total. No entanto, apesar de representarem uma parcela significativa da população, os surdos ainda enfrentam barreiras diárias que vão desde a falta de acessibilidade nas ruas até a exclusão digital.

Pensar em cidades adaptadas não se resume a rampas e elevadores. Para a comunidade surda, a acessibilidade significa intérpretes de Libras em hospitais, legenda em transportes públicos, semáforos sonoros com alertas visuais e atendimento especializado em serviços essenciais. Quantos municípios brasileiros podem afirmar que oferecem isso? Pouquíssimos.

Em muitas cidades, um simples atendimento na farmácia ou no banco vira um desafio. A Lei Brasileira de Inclusão (LBI – Lei nº 13.146/2015) garante o direito à acessibilidade, mas a realidade ainda é de descaso. Enquanto isso, países como os Estados Unidos e membros da União Europeia já avançaram em tecnologias como chatbots visuais e atendimento por vídeo-chamada com intérpretes – soluções que poderiam ser adotadas aqui.

A educação é um direito fundamental, mas para os surdos, ela ainda é um privilégio distante. Dados do Censo Escolar mostram que apenas 27% das escolas públicas brasileiras têm recursos para atender alunos com deficiência auditiva. Isso significa que milhares de crianças e jovens são obrigados a se adaptar a um sistema que não os inclui, em vez de terem acesso a uma educação bilíngue (Libras-Português) de qualidade.

A Lei nº 10.436/2002 reconhece a Libras como língua oficial, mas sua implementação nas escolas ainda é precária. Muitos professores não são capacitados, e a falta de intérpretes em sala de aula faz com que alunos surdos sejam deixados para trás. Enquanto isso, países como a Suécia e a Finlândia já adotam modelos de ensino inclusivo desde a primeira infância, provando que a mudança é possível.

Imagine precisar de um médico em uma emergência e não conseguir se comunicar. No Brasil, menos de 5% dos hospitais públicos têm intérpretes de Libras, segundo levantamento do Ministério da Saúde. Isso coloca vidas em risco. Muitos surdos dependem de acompanhantes ou anotam frases no celular para explicar sintomas – um absurdo em pleno século XXI.

A internet poderia ser uma ferramenta de inclusão, mas ainda é um ambiente cheio de obstáculos. Vídeos sem legendas, plataformas sem suporte a Libras e serviços online que ignoram a acessibilidade tornam a navegação difícil. Segundo a World Federation of the Deaf (WFD), apenas 30% do conteúdo audiovisual global é legendado ou interpretado em língua de sinais. No Brasil, apesar de avanços como a obrigatoriedade de legendas em programas de TV, muitas plataformas digitais ainda não se adaptaram.

Diante da negligência do poder público, a comunidade surda se organiza. O Brasil tem mais de 200 associações de surdos, como a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS), que lutam por políticas públicas e conscientização. Essas entidades são fundamentais para pressionar por mudanças, mas não podem – e não devem – carregar sozinhas a responsabilidade pela inclusão.

O Que Precisa Mudar?

Mais intérpretes de Libras em serviços públicos e privados.

Obrigatoriedade de acessibilidade digital, com legendas e tradução em Libras em plataformas online.

Investimento em educação bilíngue, com formação de professores e material didático adaptado.

Fiscalização da LBI, para que empresas e governos cumpram a lei.

Inclusão não é caridade, é direito. Enquanto negarmos acessibilidade, estaremos reforçando uma sociedade excludente. É hora de escutar – mesmo sem ouvir – e agir.

Por um Brasil onde a Libras não seja apenas uma língua, mas um compromisso de todos.


Júnior Patente

Júnior Patente, profissional de comunicação desde 1984 em Rádio, Jornal, TV, Assessoria de Comunicação e Internet. Pai atípico, tem como meta hoje trabalhar pela inclusão de Pessoas com Deficiência.
Instagram: @junior_patente

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