“Tempo de Intensa Crueldade” resgata memória da ditadura entre dor, fé e resistência
A professora, escritora e militante histórica Ana Isabel Rocha Macedo lançará, em Vitória da Conquista, seu quinto romance: Tempo de Intensa Crueldade – Resistência mantida pela luta e pelo amor. A obra mergulha nos anos da ditadura militar brasileira e propõe um reencontro entre memória, ficção e história, cruzando violência de Estado, silenciamento, fé e solidariedade.
Com quase três décadas de atuação na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e trajetória marcada pela militância em grêmios estudantis, na Associação de Docentes, na Comissão Justiça e Paz e nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), Ana Isabel transforma experiências vividas e testemunhadas em narrativa literária. “É uma ficção com toque de realidade – ou uma realidade com toque de ficção”, define.
O romance percorre o período entre 1964 e 1985, com epílogo que alcança 2002. Embora utilize cidades fictícias, como Várzea do Rio e Cascalheira, os fatos retratados dialogam diretamente com acontecimentos históricos, incluindo ecos da Guerrilha do Araguaia e episódios de repressão também registrados no interior da Bahia. “Sou escritora de literatura, não historiadora. Costuro retalhos da realidade com linhas de ficção”, explica.
A crueldade explícita — torturas, prisões arbitrárias, assassinatos e desaparecimentos — aparece na obra. Mas o livro também lança luz sobre a violência silenciosa da censura e do medo. A autora reconhece que, como muitos brasileiros, viveu sob o peso do silêncio. “Havia coisas que eu sabia e não contei aos meus alunos por medo”, admite, ao recordar o ambiente de repressão que atingia inclusive o cotidiano escolar.
Entre as passagens mais impactantes está o relato de um adolescente preso em uma cela marcada por vestígios de violência. Episódios como esse, segundo a escritora, não são fruto de exagero literário, mas inspirados em histórias reais vividas na região sudoeste baiana — muitas ainda pouco conhecidas.
Ao lado da brutalidade, a narrativa também apresenta redes de acolhimento e resistência. O livro destaca o papel das Comunidades Eclesiais de Base, espaços onde fé e engajamento social se entrelaçavam. Ali, a alfabetização de adultos era ferramenta de conscientização — ainda que métodos como o de Paulo Freire precisassem ser disfarçados para escapar da vigilância. Ana relembra o caso de um aluno de 73 anos que, ao juntar sílabas aprendidas em aula, viveu o momento decisivo da alfabetização. “Nunca esqueci”, diz.
A fé inspirada na Teologia da Libertação também ocupa lugar central na obra, retratando uma Igreja dividida: enquanto alguns setores apoiaram o regime, outros abriram conventos, mosteiros e panificadoras para proteger perseguidos políticos e socorrer famílias vulneráveis. A estrutura de cuidado e segredo, muitas vezes liderada por mulheres, é um dos eixos do romance.
As personagens femininas, aliás, têm protagonismo marcante. Embora este seja o primeiro livro da autora cujo título não traz nome de mulher, figuras como Laura, Zenaide e as irmãs religiosas sustentam a engrenagem da resistência. “As mulheres foram fundamentais na preservação da vida, da memória e da esperança”, afirma.
O jornalista e cantor Elton Becker, que participou da entrevista e colaborou nas discussões durante o processo de escrita, destaca o caráter coletivo da obra. Capítulos eram debatidos em reuniões com amigos e intelectuais locais antes da versão final. “O livro acaba sendo também uma construção nossa”, comenta. Para ele, a literatura amplia a compreensão da história ao transformar números frios em narrativas humanas. “Ela nos ajuda a não sermos indiferentes.”
A musicalidade também permeia o romance. Canções que marcaram a resistência, como Eu Só Peço a Deus, ecoam nas páginas, e o violão assume quase a condição de personagem. O lançamento contou com apresentação artística, reforçando a proposta de transformar o ato literário em gesto histórico e cultural.
Com prefácio de Rui Herman Medeiros, figura de referência na comunidade local, Tempo de Intensa Crueldade reafirma a defesa da memória como instrumento de cidadania. Para Ana Isabel, a literatura não necessariamente elimina a dor do passado, mas impede o esquecimento. “A luta continua”, resume.
O livro será lançado no Centro de Cultura de Vitória da Conquista e estará disponível em outros espaços culturais, reafirmando o papel da literatura como espaço de reflexão sobre um período que, para a autora, ainda precisa ser compreendido e debatido pelas novas gerações.
Ouça a entrevista na íntegra:









