Brasil bate recorde de feminicídios em 2025 com média de quatro mulheres assassinadas por dia

Dados do Ministério da Justiça apontam 1.470 mortes no ano, mas estudo universitário alerta para subnotificação e estima que o número real ultrapasse 2.100 vítimas
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
  • Ane Xavier
  • Atualizado: 04/03/2026, 03:32h

O Brasil registrou em 2025 o maior número de feminicídios de sua série histórica. De acordo com os dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), vinculado ao Ministério da Justiça, o país contabilizou 1.470 mulheres assassinadas no ano passado por questões de gênero, superando a triste marca de 1.464 vítimas registrada em 2024. O índice representa uma média oficial de quatro mortes diárias.

A taxa nacional se manteve estável em 0,69 mortes a cada 100 mil habitantes, a mesma verificada desde 2022. Em números absolutos, os estados mais populosos lideram o ranking de violência letal contra a mulher: São Paulo registrou 233 casos em 2025, seguido por Minas Gerais, com 139.

Desde que o Sinesp começou a contabilizar os dados, em 2015, o Brasil já somou 13.448 vítimas de feminicídio. Historicamente, São Paulo (1.774), Minas Gerais (1.641) e Bahia (892) concentram os maiores números absolutos da última década.

Subnotificação e o cenário real

Apesar da gravidade dos números oficiais, especialistas apontam que a realidade é ainda mais alarmante. O Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL), indica que a subnotificação mascara o verdadeiro cenário do país.

Por meio do Monitor de Feminicídios no Brasil (MFB), que cruza dados oficiais com fontes não estatais (como notícias e boletins locais), as pesquisadoras do Lesfem identificaram 6.904 vítimas de feminicídio em 2025 — somando casos consumados e tentativas. Deste total, 2.149 foram assassinatos de fato, elevando a média real para quase seis (5,89) mulheres mortas por dia.

O perfil das vítimas e dos agressores

O estudo acadêmico também traçou o perfil das ocorrências de 2025, evidenciando que o perigo, na grande maioria das vezes, está dentro de casa:

  • Vínculo e Local: 75% dos crimes ocorreram no âmbito íntimo (cometidos por companheiros, ex-companheiros ou pais dos filhos da vítima). A maioria das agressões letais aconteceu na própria casa da mulher (38%) ou na residência do casal (21%).

  • As vítimas: A maior parcela (30%) tinha entre 25 e 34 anos. Pelo menos 22% delas já haviam denunciado seus agressores anteriormente.

  • Órfãos: 69% das vítimas tinham filhos ou dependentes, o que resultou em 1.653 crianças deixadas órfãs. Além disso, 101 vítimas estavam grávidas no momento do crime.

  • Os agressores: Com idade média de 36 anos, 94% dos agressores agiram sozinhos. A arma branca (faca, foice ou canivete) foi o meio utilizado em quase metade (48%) dos crimes.

Em 67% das ocorrências analisadas, a prisão do suspeito foi confirmada. Em cerca de 7,9% dos casos, o agressor morreu após cometer o feminicídio, sendo o suicídio a causa mais frequente.

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