Endometriose: doença silenciosa que pode levar anos para ser diagnosticada e afeta milhões de brasileiras
Imagem: Adobe Stock
A cólica menstrual intensa, muitas vezes tratada como algo “normal”, pode esconder um problema de saúde sério que afeta milhões de mulheres. A Endometriose ainda é pouco compreendida pela população e frequentemente demora anos para ser diagnosticada. O alerta é do ginecologista e obstetra Rubens Paulo Gonçalves Filho, autor do livro Dores Femininas: Jornada Humana de um Médico Contra a Endometriose.
Segundo o especialista, o principal motivo para o atraso no diagnóstico está justamente na forma como a sociedade encara a dor menstrual.
“O principal sintoma provocado pela endometriose é a cólica menstrual, e a cólica menstrual é tida como algo normal pelas sociedades”, explica o médico. “Muitas mulheres passam anos acreditando que aquele sofrimento mensal faz parte da vida.”
Quando a dor deixa de ser normal
Embora alguma cólica seja comum durante o ciclo menstrual, há casos em que a dor se torna incapacitante. Mulheres com endometriose podem sentir dores tão intensas que chegam a prejudicar atividades do dia a dia, como trabalhar, estudar ou cumprir compromissos.
Mesmo quando procuram ajuda médica, muitas pacientes encontram dificuldade em descrever a intensidade da dor.
“Dor é algo muito particular. Nem sempre o profissional de saúde consegue captar o tamanho do sofrimento daquela mulher”, destaca o médico.
Essa combinação entre a normalização da dor e a dificuldade de diagnóstico contribui para que a doença permaneça oculta por muitos anos.
O que é a endometriose
A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio — camada que reveste o interior do útero — cresce fora da cavidade uterina.
A primeira descrição da doença remonta ao século XIX, quando o anatomista austríaco Carl von Rokitansky identificou esse tecido em locais onde ele não deveria existir.
Esse material pode provocar inflamações e dores intensas no organismo.
“Esse tecido fora do lugar é reconhecido pelo corpo como um elemento estranho e provoca inflamação, que é responsável pelas dores”, explica o especialista.
Uma doença que pode afetar vários órgãos
Durante muito tempo, a endometriose foi vista apenas como uma doença do sistema reprodutivo. No entanto, pesquisas recentes mostram que ela pode afetar várias partes do corpo.
Um estudo publicado na revista científica The Lancet classificou a endometriose como uma doença sistêmica, ou seja, que pode impactar diversos órgãos.
Entre os locais que podem ser atingidos estão:
-
intestino
-
bexiga
-
apêndice
-
diafragma
-
sistema digestivo
-
sistema nervoso
A inflamação provocada pela doença também pode afetar o cérebro, contribuindo para sintomas como ansiedade, depressão e insônia.
Fatores de risco
A endometriose é considerada uma doença multifatorial, ou seja, diversos fatores podem contribuir para o seu desenvolvimento.
Entre os principais estão:
-
predisposição genética
-
ciclos menstruais mais curtos
-
menstruações prolongadas
-
sedentarismo
-
sobrepeso
-
consumo excessivo de álcool
-
alimentação rica em gorduras
Mulheres que têm mãe ou irmã com a doença também apresentam risco maior.
“Quem tem uma parente de primeiro grau com endometriose pode ter de sete a dez vezes mais chance de desenvolver a doença”, afirma o médico.
Impacto na fertilidade
Além das dores, a endometriose também pode comprometer a fertilidade feminina. Estima-se que cerca de 50% das mulheres com a doença apresentem dificuldade para engravidar.
Isso ocorre porque os implantes do tecido podem atingir órgãos importantes para a reprodução, como:
-
ovários
-
trompas de falópio
-
útero
A inflamação causada pela doença pode provocar aderências e alterações anatômicas que dificultam a fecundação.
Há formas de proteção
Apesar de não existir uma causa única, alguns fatores podem ajudar a reduzir o risco ou controlar a progressão da doença. Entre eles estão:
-
manter peso saudável
-
praticar atividade física regularmente
-
alimentação equilibrada
-
redução do consumo de álcool
Segundo o médico, tratamentos hormonais que reduzem ou suspendem a menstruação também podem ajudar no controle da doença em alguns casos.
A amamentação também pode ter efeito protetor, pois reduz temporariamente os níveis do hormônio estrogênio, que está relacionado ao desenvolvimento da endometriose.
Um problema de saúde pública
A endometriose afeta cerca de 10% das mulheres brasileiras, o que representa aproximadamente 10 milhões de pessoas no país.
Por isso, especialistas defendem políticas públicas voltadas à saúde feminina, como projetos que garantam licença menstrual para mulheres que sofrem com dores incapacitantes.
“São milhões de mulheres que sofrem mensalmente. Ter tempo para procurar ajuda e receber diagnóstico precoce pode evitar danos mais graves no futuro”, afirma o médico.
O alerta
O principal recado dos especialistas é claro: cólica muito forte não deve ser ignorada.
Dores intensas, incapacitantes ou que pioram com o tempo precisam ser avaliadas por um profissional de saúde.
Reconhecer os sinais da endometriose é o primeiro passo para reduzir o sofrimento de milhões de mulheres e garantir diagnóstico e tratamento mais precoces.









