Assembleia de Especialistas do Irã elege Mojtaba Khamenei como novo líder supremo após morte do pai

Escolha do clérigo de 56 anos, conhecido por atuar nos bastidores e por sua proximidade com a Guarda Revolucionária, indica a continuidade da linha dura no regime iraniano
Foto: Morteza Nikoubazl | Nurphoto
  • Ane Xavier
  • Atualizado: 09/03/2026, 11:18h

A Assembleia de Especialistas do Irã anunciou neste domingo (8) a nomeação do clérigo Mojtaba Khamenei, de 56 anos, como o novo líder supremo do país. Ele assume o posto que pertencia ao seu pai, o aiatolá Ali Khamenei, que governava desde 1989 e foi morto há mais de uma semana em um ataque aéreo promovido por Estados Unidos e Israel.

A Assembleia, composta por 88 clérigos islâmicos responsáveis por escolher o líder máximo que concentra o poder em Teerã, não precisava deliberar sobre a sucessão presidencial há mais de 36 anos.

Mojtaba sobreviveu aos bombardeios ocorridos no dia 28, mas os ataques vitimaram não apenas o seu pai, como também a sua mãe, a sua esposa e um filho pequeno. Sua esposa era filha do ex-presidente do Parlamento Gholamali Haddadadel, uma figura proeminente da linha dura iraniana.

Poder de bastidores e influência militar

Apesar de ostentar o título de aiatolá na mídia estatal, Mojtaba é considerado por críticos como um clérigo de nível intermediário (Hojjatoleslam), um degrau abaixo do posto exigido historicamente para os líderes supremos da República Islâmica, como seu pai e o fundador Ruhollah Khomeini.

Ainda que nunca tenha ocupado um cargo formal no governo e seja raramente visto em público, Mojtaba é uma das figuras mais influentes do establishment. Ele construiu seu poder atuando como o "guardião" do gabinete do pai, participando da coordenação de operações de inteligência e militares.

Com laços estreitos com a elite da Guarda Revolucionária (IRGC), ele conta com apoio sólido entre as gerações militares mais radicais. Historicamente, Mojtaba foi apontado como um dos articuladores da ascensão do ex-presidente de linha dura Mahmoud Ahmadinejad em 2005 e também é associado à forte repressão de protestos no país. Ele teria atuação indireta no sufocamento das manifestações do Movimento Verde (2009) e dos distúrbios de 2022, iniciados após a morte de uma jovem presa por violar os códigos de vestimenta do regime.

Oposição interna e sucessão controversa

A escolha de Mojtaba deve enfrentar resistências. A passagem de poder de pai para filho gera desconforto dentro da própria corrente xiita do Islã e atrai críticas sobre uma possível política dinástica. A Revolução Islâmica de 1979 derrubou uma monarquia apoiada pelos EUA com a promessa de evitar justamente a transmissão hereditária de poder.

Apesar das críticas, ele já era considerado há anos um dos principais candidatos, posição que se fortaleceu após a morte do ex-presidente Ebrahim Raisi em um acidente de helicóptero no início de 2024.

Reações de Israel e EUA

No cenário internacional, a nomeação acontece sob forte tensão. Israel já declarou que "qualquer novo líder nomeado no Irã será alvo para eliminação". Nos Estados Unidos — que impuseram sanções a Mojtaba em 2019 —, o presidente Donald Trump declarou que a escolha é "inaceitável".

Para a liderança iraniana, entretanto, as críticas externas validam a nomeação. O aiatolá Mohsen Heidari Alekasir, membro do conselho que elegeu o novo líder, afirmou em vídeo que a seleção seguiu uma antiga orientação de Ali Khamenei: a de que o líder máximo do Irã deveria ser "odiado pelo inimigo". Celebrando a reação de Trump, Alekasir declarou: "Até mesmo o Grande Satã mencionou seu nome". Como líder supremo, Mojtaba terá a palavra final sobre a política externa e o polêmico programa nuclear do Irã.

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