Estádio: patrimônio do futebol ou palco de desgaste? O caso Lomanto Júnior acende alerta em Vitória da Conquista

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 03/04/2026, 04:04h

Por décadas, o estádio de futebol foi mais do que concreto, arquibancadas e travessias. Ele representa identidade, memória coletiva e, sobretudo, oportunidade. Em cidades do interior, como Vitória da Conquista, esse papel ganha ainda mais relevância: o estádio é o principal palco de sonhos para jovens atletas, ponto de encontro da comunidade e motor de desenvolvimento esportivo e social.

O Estádio Lomanto Júnior — o tradicional Lomantão — é símbolo dessa história. Inaugurado em 1966, o equipamento esportivo tornou-se referência no interior baiano, recebendo partidas memoráveis ​​e sendo a casa de clubes que marcaram gerações. Ao longo dos anos, equipes como o ECPP Vitória da Conquista, Serrano, Conquista FC, Serranense, Humaitá e outras agremiações locais utilizaram o estádio em competições estaduais e nacionais.

Hoje, o cenário reforça ainda mais a importância desse espaço. O ECPP se prepara para disputar a Série B do Campeonato Baiano, enquanto três clubes movimentam a base no Sub-20: o próprio ECPP, o Serrano e o Unimed Conquista. Ou seja, o estádio não é apenas passado — é presente e futuro do futebol conquistense.

Mas é justamente nesse contexto que surge um debate urgente: até que ponto a utilização do estádio para eventos não esportivos compense os prejuízos causados?

Nas últimas semanas, a realização de um show no Lomantão deixou marcas profundas. O gramado — elemento central para a prática esportiva — foi seriamente danificado. Mais grave: mesmo após mais de duas semanas, toneladas de equipamentos ainda permaneciam no local, impedindo qualquer tentativa imediata de recuperação do campo.

A situação levanta questionamentos inevitáveis. Quem autorizou o uso? Qual foi o valor arrecadado com o evento? E mais importante: esses recursos serão suficientes para reparar os danos causados? E, ainda que sejam, vale a pena destruir para depois reconstruir?

A discussão vai além do aspecto financeiro. Trata-se de prioridade e respeito. Um estádio de futebol não é apenas um espaço físico disponível para locação — é um equipamento público (ou de interesse coletivo) com função social clara. Quando essa função é comprometida, toda uma cadeia é impactada: atletas, clubes, torcedores e projetos sociais.

Segundo a Organização das Nações Unidas, o esporte é uma das ferramentas mais eficazes na prevenção da violência e no combate às drogas entre jovens. Estudos apontam que, para cada dólar investido no esporte, até três deixam de ser gastos em saúde pública, segurança e programas de recuperação. Em outras palavras: investir no esporte é economizar no futuro — e salvar vidas no presente.

Diante disso, a negligência com um estádio ativo, que atende categorias de base e equipes profissionais, não pode ser tratado como algo trivial.

E há ainda um agravante que ultrapassa a esfera da gestão: uma tentativa de intimidação. Durante a apuração desta reportagem, no próprio estádio, houve gritos direcionados à equipe de imprensa: “não é para fotografar não f...”. A atitude, feita de forma anônima, reforça a necessidade de transparência e responsabilidade na condução do espaço público. Quem não deve, não teme.

O Lomantão pede mais do que manutenção — exige respeito. Respeito à sua história, aos clubes que ali lutam diariamente, aos jovens que enxergam no futebol uma saída e à população que vê no esporte um motivo de orgulho.

Afinal, a pergunta que fica é simples, mas incômoda: estamos cuidando do nosso patrimônio esportivo ou apenas explorando até o limite?

Reportagem: Júnior Patente

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