Dados do IBGE expõem desigualdades no trabalho e na educação para pessoas com deficiência

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 23/09/2026, 08:43h

Os obstáculos enfrentados pelas pessoas com deficiência no Brasil não terminam no acesso a serviços de saúde ou na adaptação de espaços físicos. Eles também aparecem de forma expressiva na escola, no mercado de trabalho e na renda. É o que mostra a segunda edição do estudo “Pessoas com deficiência e as desigualdades sociais no Brasil”, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em setembro de 2026.

A publicação reúne informações principalmente do Censo Demográfico 2022, além de dados do Censo da Educação Básica e do Censo da Educação Superior, entre outras bases oficiais. O levantamento analisa diferentes dimensões das condições de vida da população com deficiência, incluindo educação, trabalho, renda, moradia, transporte e participação social.

No mercado de trabalho, a diferença é significativa. Em 2022, 29% das pessoas com deficiência com 14 anos ou mais estavam ocupadas, enquanto o percentual entre as pessoas sem deficiência chegava a 55,8%. São 26,8 pontos percentuais de diferença.

O rendimento também revela uma desigualdade. A renda média mensal do trabalho das pessoas com deficiência era de R$ 2.053, contra R$ 2.890 entre os trabalhadores sem deficiência, uma diferença de aproximadamente 29%. A presença em cargos de gestão também era reduzida: apenas 2,5% dos cargos gerenciais eram ocupados por pessoas com deficiência.

Os dados mostram ainda que a desigualdade não se distribui da mesma maneira entre todos os grupos. Pessoas com deficiência enfrentam diferentes níveis de dificuldade de acordo com o tipo de deficiência, além de diferenças relacionadas a sexo, idade e cor ou raça.

Na educação, o cenário também chama atenção. Entre as pessoas de 15 a 29 anos com deficiência, a taxa de analfabetismo era de 12,2% em 2022, contra 1% entre aquelas sem deficiência na mesma faixa etária. O resultado significa que o analfabetismo entre jovens com deficiência era cerca de 12 vezes maior.

Quando o levantamento considera os diferentes tipos de dificuldade, as diferenças se tornam ainda mais acentuadas. Entre jovens com deficiência relacionada às funções mentais, o analfabetismo chegava a 40,4%. O índice era de 34% entre aqueles com mais de uma deficiência, 31,3% entre os que tinham dificuldade para pegar pequenos objetos e 23,3% entre aqueles com dificuldade para caminhar ou subir degraus.

A desigualdade também aparece na trajetória escolar. Dados do IBGE já haviam mostrado, com base em levantamentos anteriores, uma diferença importante na frequência escolar adequada entre estudantes com e sem deficiência. No grupo de 15 a 17 anos, por exemplo, a taxa ajustada de frequência no ensino médio era de 37% entre pessoas com deficiência, diante de 65,5% entre aquelas sem deficiência.

No ensino superior, houve expansão da presença de estudantes com deficiência, mas a participação ainda permanece proporcionalmente baixa. Dados do Censo da Educação Superior mostram que as matrículas de pessoas com deficiência na graduação passaram de 33.377, em 2014, para 95.572, em 2024. Mesmo com esse crescimento, elas representavam 0,93% do total de matrículas naquele ano.

A desigualdade educacional tem consequências que ultrapassam os muros da escola. O próprio IBGE relaciona as barreiras de acesso e permanência na educação a dificuldades futuras de inserção no trabalho e de participação social. A escolarização, portanto, não pode ser analisada apenas como um indicador educacional: ela também interfere nas oportunidades de autonomia, renda e participação cidadã.

A dimensão econômica ajuda a completar esse quadro. Em 2022, 60,9% das crianças de 2 a 14 anos com deficiência viviam abaixo da linha de pobreza, percentual superior aos 52,5% registrados entre crianças sem deficiência. O dado evidencia que a deficiência pode se combinar com a vulnerabilidade econômica e ampliar as barreiras enfrentadas desde a infância.

Os números apresentados pelo IBGE não descrevem apenas uma diferença estatística entre pessoas com e sem deficiência. Eles mostram como desigualdades podem se acumular ao longo da vida: dificuldades de acesso e permanência na escola podem limitar oportunidades profissionais; a menor inserção no trabalho pode reduzir a renda; e a vulnerabilidade econômica pode, por sua vez, dificultar o acesso a recursos necessários para educação, mobilidade e autonomia.

O desafio da inclusão, portanto, vai além de colocar o estudante com deficiência na sala de aula ou contratar um trabalhador para cumprir uma determinada exigência legal. Os dados do IBGE colocam em evidência questões como permanência escolar, acessibilidade, aprendizagem, qualificação profissional, remuneração, oportunidades de carreira e participação social.

A segunda edição do estudo do IBGE oferece justamente esse panorama mais amplo. Ao reunir dados sobre educação, trabalho, renda, moradia, transporte e participação, o levantamento permite observar que a inclusão da pessoa com deficiência precisa ser analisada como uma questão de direitos e de igualdade de oportunidades em diferentes etapas da vida.

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