Dificuldades de linguagem podem ser confundidas com desatenção e prejudicar aprendizagem
Fonoaudióloga e pesquisadora Luciana Cordeiro Felipetto alerta para a importância de identificar precocemente barreiras linguísticas que podem interferir na trajetória escolar
Quando uma criança demora a responder, não compreende um comando, escreve pouco ou evita atividades de leitura, a primeira explicação nem sempre corresponde ao que está acontecendo. Para a fonoaudióloga, doutora e mestre em Ciências da Educação Luciana Cordeiro Felipetto, dificuldades dessa natureza podem estar relacionadas a barreiras linguísticas que interferem diretamente no processo de aprendizagem.
“Antes de cobrar mais esforço, é preciso se perguntar: essa criança compreendeu o que ouviu, conseguiu organizar a informação e encontrou palavras para responder?”, questiona a especialista.
Segundo Luciana, comportamentos que muitas vezes são interpretados como falta de atenção, desinteresse ou preguiça podem esconder dificuldades que precisam ser observadas com mais cuidado. A identificação precoce é importante justamente para evitar que a criança seja responsabilizada por uma dificuldade que ainda não foi compreendida.
Linguagem oral é parte fundamental da aprendizagem
A linguagem oral ocupa um papel central na vida escolar. É por meio dela que a criança acompanha explicações, aprende conceitos, formula hipóteses, interpreta problemas e constrói significados durante a leitura.
De acordo com Luciana Felipetto, dificuldades relacionadas ao vocabulário, à elaboração de narrativas, à compreensão de informações implícitas e ao acompanhamento de instruções mais extensas podem aparecer posteriormente em outras atividades escolares.
Essas barreiras podem se manifestar, por exemplo, em dificuldades de compreensão leitora, respostas incompletas e produção escrita pouco desenvolvida.
“Nem sempre o problema está em reconhecer as letras; muitas vezes, está em compreender e organizar o que elas comunicam”, explica.
A observação é especialmente relevante porque a alfabetização não depende exclusivamente da capacidade de relacionar letras e sons. A criança também precisa compreender a linguagem, organizar informações e atribuir significado ao que está lendo.
Dados mostram dimensão do problema
Uma pesquisa populacional realizada no Reino Unido estimou em 7,58% a prevalência de transtorno de linguagem de origem desconhecida entre crianças no início da escolarização.
O estudo, publicado em 2016 por Courtenay Frazier Norbury e colaboradores, envolveu o rastreamento de 7.267 crianças de 4 e 5 anos em escolas de Surrey, na Inglaterra. Segundo os autores, a proporção corresponde aproximadamente a duas crianças em uma turma de 30 alunos.
No Brasil, os dados recentes sobre alfabetização também mostram que ainda existe um desafio significativo a ser enfrentado. De acordo com o Indicador Criança Alfabetizada, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o percentual de estudantes da rede pública alfabetizados ao final do 2º ano do ensino fundamental passou de 59,2% em 2024 para 66% em 2025.
O resultado superou a meta nacional estabelecida para 2025, de 64%. Mesmo assim, aproximadamente 34% dos estudantes avaliados não atingiram o padrão nacional de alfabetização.
Os números, isoladamente, não permitem atribuir o desempenho a uma única causa. Para Luciana, entretanto, eles reforçam a necessidade de olhar para os diferentes componentes envolvidos no processo de alfabetização.
Entre eles estão o desenvolvimento da linguagem oral, a ampliação do vocabulário, a consciência fonológica, a compreensão e a capacidade de realizar inferências, além do ensino sistemático das relações entre os sons da fala e sua representação escrita.
Escola pode atuar antes do fracasso escolar
A identificação de uma possível dificuldade de linguagem não significa que a escola precise esperar por um diagnóstico para começar a desenvolver estratégias de apoio.
Uma síntese de 188 estudos realizada pela Education Endowment Foundation associou intervenções de linguagem oral a um ganho médio equivalente a seis meses adicionais de progresso, especialmente na compreensão leitora.
Entre as estratégias estão conversas planejadas, leitura compartilhada, ensino de novas palavras, reconto de histórias e explicitação dos comandos utilizados nas atividades escolares.
Para Luciana, essas práticas precisam fazer parte do cotidiano pedagógico, e não aparecer apenas quando o aluno já apresenta um histórico de dificuldades.
A proposta é transformar o desenvolvimento da linguagem em uma dimensão permanente do trabalho educacional, permitindo que a escola identifique obstáculos e ofereça diferentes caminhos para que a criança compreenda os conteúdos.
Sinais que merecem atenção
Alguns comportamentos podem indicar a necessidade de uma investigação mais detalhada quando aparecem de maneira persistente.
Entre eles estão dificuldades para compreender perguntas e instruções, aprender e recuperar palavras, organizar acontecimentos em sequência, compreender linguagem figurada e expressar ideias de maneira clara e organizada.
Luciana ressalta, entretanto, que esses sinais não são suficientes para estabelecer um diagnóstico.
A presença deles pode indicar a necessidade de diálogo entre escola e família e, dependendo da situação, de uma avaliação especializada. Essa investigação deve considerar o desenvolvimento da linguagem e outros fatores que podem interferir no desempenho da criança, incluindo aspectos auditivos, cognitivos, emocionais e educacionais.
Evitar rótulos é parte do processo de inclusão
Quando uma dificuldade de linguagem não é identificada, existe o risco de o comportamento da criança ser interpretado de maneira equivocada. Um estudante que não responde porque não compreendeu uma pergunta pode ser considerado desatento. Aquele que evita escrever pode ser visto como desinteressado. Quem apresenta dificuldade para acompanhar uma explicação pode acabar rotulado como alguém que “não se esforça”.
Para Luciana Felipetto, compreender a origem da dificuldade permite substituir julgamentos por estratégias de aprendizagem mais adequadas.
Nesse sentido, a atuação conjunta entre educação, família e profissionais da saúde pode contribuir para identificar necessidades e construir formas de acompanhamento individualizadas.
“Alfabetizar não é apenas ensinar a decodificar. É garantir que a criança tenha linguagem para pensar, compreender e participar”, afirma a especialista.
A identificação precoce das barreiras linguísticas, portanto, não significa antecipar diagnósticos ou colocar rótulos nos estudantes. Significa observar como cada criança aprende, reconhecer obstáculos e criar condições para que ela tenha acesso ao conhecimento.
Luciana Cordeiro Felipetto é fonoaudióloga, doutora e mestre em Ciências da Educação, especialista em Linguagem e Fonoaudiologia Educacional pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia. Atua nas áreas clínica e educacional e é autora dos livros A descoberta do mundo das letras, Os desafios da Linguagem, O girassol Azul e Beto: A história de um menino que conquistou seus sonhos e conheceu sua gagueira.







