Mais árvores, menos calor: arborização urbana pode reduzir impactos associados ao El Niño
O El Niño não acontece dentro das cidades. O fenômeno nasce no Oceano Pacífico, mas seus efeitos podem ser sentidos a milhares de quilômetros de distância, alterando padrões de temperatura e chuva em diferentes regiões do planeta. E, quando esses efeitos chegam a cidades dominadas por concreto, asfalto e pouca vegetação, o calor extremo e outros eventos climáticos podem encontrar um ambiente ainda mais vulnerável.
É nesse ponto que a arborização urbana ganha importância. Quanto maior a presença de árvores e áreas verdes, especialmente quando o plantio é planejado e utiliza espécies adequadas ao ambiente local, maior pode ser a capacidade da cidade de amenizar parte dos impactos do calor extremo.
A Organização Mundial de Meteorologia (OMM) explica que o El Niño está associado a alterações nos padrões de chuva e temperatura em diversas partes do mundo. Dependendo da região e da intensidade do fenômeno, podem ocorrer períodos de calor mais intenso, secas, chuvas excessivas, enchentes e outros eventos extremos.
O problema se torna ainda mais complexo porque o El Niño atua sobre um planeta que já está mais quente em razão das mudanças climáticas provocadas pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa. A OMM destaca que o aquecimento global pode ampliar os impactos associados aos eventos de El Niño, embora não haja evidência de que a mudança do clima esteja aumentando a frequência ou a intensidade do fenômeno em si.
O que uma árvore pode fazer dentro da cidade?
Uma das consequências mais visíveis é a redução do chamado efeito de ilha de calor urbana.
Asfalto, concreto e outras superfícies construídas absorvem e armazenam radiação solar. Com pouca vegetação, esse calor permanece por mais tempo no ambiente e contribui para temperaturas mais elevadas, principalmente nas áreas densamente urbanizadas.
As árvores atuam de duas maneiras importantes: fazem sombra e resfriam o ambiente por meio da evapotranspiração, processo pelo qual a água absorvida pelas raízes é liberada pelas folhas. Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), uma revisão de 308 estudos encontrou, em média, temperaturas cerca de 1,6°C menores em florestas urbanas do que em áreas urbanas sem vegetação.
No Brasil, estudo técnico publicado pelo Ministério do Meio Ambiente também destaca o papel da transpiração e do sombreamento das árvores no resfriamento das áreas urbanas.
Isso não significa que uma árvore seja capaz de alterar o El Niño. Ela ajuda a cidade a enfrentar melhor uma das consequências que podem acompanhar o fenômeno: o calor extremo.
O risco não é apenas desconforto
O calor excessivo é um problema de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde aponta que áreas verdes urbanas contribuem para o resfriamento das cidades e ajudam a reduzir a exposição da população ao calor excessivo. A entidade também relaciona ilhas de calor e temperaturas extremas a problemas como doenças cardiovasculares e pulmonares, internações e doenças relacionadas ao calor.
O risco aumenta para grupos mais vulneráveis, principalmente durante ondas de calor prolongadas. Em uma cidade pouco arborizada, uma pessoa que precisa caminhar por uma avenida sem sombra, esperar o transporte público ou trabalhar ao ar livre fica diretamente exposta à radiação e às temperaturas elevadas.
Por isso, arborização não deve ser tratada apenas como questão estética. É também uma estratégia de adaptação urbana às mudanças climáticas e aos extremos meteorológicos.
Árvores também ajudam quando a chuva chega
O El Niño não significa apenas calor e seca. Seus efeitos variam conforme a região. Em determinadas áreas, o fenômeno está associado ao aumento das chuvas e ao risco de enchentes.
Nesse cenário, árvores também podem contribuir para reduzir o impacto da água da chuva. As copas interceptam parte da precipitação e raízes e solo vegetado favorecem a infiltração. A EPA aponta que árvores urbanas ajudam a controlar o escoamento superficial porque folhas, troncos e raízes retardam a chegada da água ao solo e podem armazená-la temporariamente.
Isso não substitui sistemas de drenagem, galerias, reservatórios ou obras de infraestrutura. Mas pode fazer parte de uma estratégia integrada para tornar as cidades mais resilientes.
E por que priorizar árvores nativas?
A escolha das espécies é fundamental.
Uma política de arborização não deveria simplesmente significar plantar qualquer árvore disponível. É necessário considerar características como porte, raízes, disponibilidade de água, compatibilidade com calçadas e redes elétricas, capacidade de formação de copa, condições climáticas e biodiversidade local.
O Museu Paraense Emílio Goeldi destaca que o planejamento da arborização deve considerar cuidadosamente a escolha das espécies e aponta a importância das espécies nativas diante da grande biodiversidade brasileira.
Espécies nativas também podem contribuir para a manutenção da fauna local e para a formação de uma vegetação mais conectada às características ecológicas de cada região.
Mas existe outro ponto importante: não basta plantar. É preciso manter.
Uma muda recém-plantada não oferece a mesma sombra de uma árvore adulta. O benefício térmico depende do crescimento, da copa, da saúde da planta e da distribuição da arborização pela cidade.
Um planeta sob pressão
Os efeitos associados ao El Niño podem ser severos. Durante o episódio de 2023-2024, considerado pela OMM um dos cinco mais fortes já registrados, diferentes regiões enfrentaram ondas de calor, secas, incêndios, chuvas intensas e inundações. Na América Latina, o fenômeno contribuiu para condições extremas que afetaram a agricultura, os recursos hídricos, a saúde e a segurança alimentar.
No Brasil, a OMM registrou impactos importantes durante aquele período, incluindo seca intensa na Amazônia e temperaturas superiores a 41°C em algumas áreas do país em 2023.
Em 2026, a própria OMM voltou a alertar para a possibilidade de um El Niño potencialmente forte, associado a maior risco de ondas de calor, secas e chuvas intensas em diferentes regiões. A organização também chama atenção para os impactos sobre saúde, segurança hídrica, alimentação, incêndios e doenças transmitidas por vetores.
A cidade pode se preparar antes do próximo extremo
A arborização, portanto, não impede o El Niño e não controla o clima do planeta. Mas pode ajudar uma cidade a enfrentar melhor seus efeitos locais.
O raciocínio é simples: se o planeta fica mais quente e determinados fenômenos climáticos aumentam a probabilidade de extremos em algumas regiões, cidades com mais árvores, áreas verdes, solo permeável e planejamento ambiental podem reduzir parte da exposição da população ao calor e melhorar a capacidade de lidar com a água da chuva.
Essa é uma das razões pelas quais o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima lançou, em 2026, a iniciativa ArborizaCidades, com R$ 19 milhões destinados a projetos municipais de arborização urbana e redução do calor urbano extremo. O edital recebeu 402 propostas de 388 municípios.
A discussão, portanto, vai muito além de deixar ruas mais bonitas.
Plantar e preservar árvores é também construir sombra para o futuro.
E, diante de um planeta sujeito a ondas de calor cada vez mais perigosas, preparar as cidades para os extremos climáticos começa, muitas vezes, por uma decisão aparentemente simples: deixar de tratar a árvore como elemento decorativo e reconhecê-la como parte da infraestrutura urbana.







