Robótica na escola amplia interesse pela Matemática, mas exige acompanhamento dos professores
Pesquisa desenvolvida na Uesb aponta que atividades práticas podem estimular o raciocínio e reduzir o medo de errar, mas alerta que o uso da tecnologia, sem orientação pedagógica, pode limitar a aprendizagem.
A robótica educacional pode tornar o ensino da Matemática mais atrativo para crianças, estimular a investigação e ajudar a enfrentar dificuldades de aprendizagem. Entretanto, a presença de equipamentos tecnológicos nas escolas não significa, necessariamente, que os estudantes estejam compreendendo os conceitos trabalhados em sala de aula.
Essa é uma das conclusões de um estudo desenvolvido por João Paulo Moreno, estudante do curso de Matemática da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), sob orientação do professor Jonson Ney. A pesquisa investigou como atividades de robótica influenciam a aprendizagem de conteúdos matemáticos entre alunos do Ensino Fundamental I, com idades entre 8 e 10 anos.
O trabalho analisou experiências que envolviam conceitos de proporcionalidade e mapeamento de valores, utilizando situações práticas para aproximar os estudantes dos conteúdos matemáticos.
Atividades práticas despertam o interesse dos estudantes
Os resultados indicaram maior participação e entusiasmo dos alunos durante as atividades com robótica, em comparação com as aulas tradicionais de Matemática. A possibilidade de construir, manipular objetos e testar soluções ofereceu uma experiência de aprendizagem mais interativa.
Segundo o pesquisador, as aulas de robótica eram aguardadas com expectativa pelas crianças, que encontravam nessas atividades uma oportunidade de explorar a criatividade e experimentar outras formas de aprender.
A pesquisa também identificou mudanças na maneira como os estudantes lidavam com os erros. Nas atividades convencionais, errar pode provocar insegurança ou constrangimento. Já nos experimentos com robótica, falhas no funcionamento dos dispositivos passaram a ser encaradas como problemas a investigar e solucionar.
Essa mudança favoreceu a análise das situações, a persistência diante das dificuldades e a busca por respostas. O erro, nesse contexto, deixou de representar apenas um resultado negativo e passou a integrar o processo de construção do conhecimento.
Tecnologia não substitui a compreensão dos conteúdos
Apesar dos aspectos positivos, o estudo identificou uma limitação importante: os estudantes conseguiam encontrar caminhos para resolver determinados desafios sem necessariamente compreender os conceitos matemáticos envolvidos.
Esse comportamento, descrito pelo pesquisador como uma forma de “economia cognitiva”, ocorre quando o aluno recorre a estratégias simplificadas para alcançar um resultado, mas não desenvolve plenamente o raciocínio necessário para explicar por que aquela solução funciona.
O achado evidencia um desafio para as escolas. Fazer um equipamento funcionar ou concluir uma tarefa não significa, por si só, que houve aprendizagem consistente.
Sem uma orientação adequada, o interesse despertado pela tecnologia pode desviar a atenção dos fundamentos matemáticos e levar os estudantes a aceitar respostas sem examinar os princípios que as sustentam.
Papel do professor é decisivo
A pesquisa destaca a importância da mediação docente para transformar as atividades tecnológicas em experiências efetivas de aprendizagem. Cabe ao professor relacionar a prática aos conceitos teóricos, propor questionamentos e incentivar os estudantes a explicar as estratégias utilizadas.
O objetivo não deve ser apenas concluir os experimentos, mas compreender os processos que permitem chegar aos resultados. Essa abordagem exige planejamento pedagógico e equilíbrio entre a dimensão lúdica das atividades e o aprofundamento dos conteúdos.
O estudo desenvolvido na Uesb reforça, assim, que a inovação tecnológica precisa estar associada a objetivos educacionais claros. A robótica pode contribuir para o ensino da Matemática, mas seus resultados dependem de como as atividades são organizadas e conduzidas.
Mais do que incorporar equipamentos às salas de aula, o desafio das escolas é utilizar esses recursos para desenvolver o raciocínio lógico, a autonomia intelectual e a capacidade de resolver problemas com compreensão dos conceitos envolvidos.
Fonte: Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), em publicação de 1º de outubro de 2026.







