Dia das Crianças: da criação histórica à força do comércio, uma data que vai além dos presentes
Celebrado em 12 de outubro, o Dia das Crianças nasceu de uma iniciativa oficial na década de 1920, ganhou popularidade com campanhas publicitárias e hoje convida a sociedade a refletir sobre os direitos e as condições de vida da infância.
O sorriso de uma criança ao receber um brinquedo, ganhar um presente ou participar de um passeio costuma marcar as comemorações do Dia das Crianças no Brasil. Celebrada em 12 de outubro, a data movimenta lojas, famílias e escolas. Mas, por trás dos presentes e das campanhas comerciais, existe uma história que começou há mais de um século e um propósito que não deveria ficar restrito ao consumo.
A data foi oficializada em 1924, durante o governo do presidente Artur Bernardes, por meio do Decreto nº 4.867, de 5 de novembro daquele ano. A iniciativa teve origem em debates sobre a infância que ganharam espaço no país após a realização de um congresso dedicado ao tema, no Rio de Janeiro, em 1923. O deputado federal Galdino do Valle Filho apresentou a proposta de estabelecer um dia nacional para homenagear as crianças.
O decreto instituiu o dia 12 de outubro como a data destinada à chamada Festa da Criança, em todo o território nacional. Apesar do reconhecimento oficial, a comemoração não conquistou adesão popular imediata. Durante décadas, o dia passou praticamente despercebido por grande parte da população.
Como o Dia das Crianças se tornou uma data comercial
A transformação ocorreu a partir da década de 1950, quando empresas perceberam o potencial comercial da comemoração. Em 1955, uma campanha promocional da fabricante de brinquedos Estrela, conhecida como “Semana do Bebê Robusto”, ajudou a impulsionar a venda de produtos infantis. A estratégia foi desenvolvida para promover brinquedos e conquistar consumidores.
Posteriormente, a iniciativa ganhou força com a participação de outras empresas, entre elas a Johnson & Johnson. Campanhas publicitárias passaram a explorar a proximidade da data, incentivando pais e familiares a presentear as crianças. A comemoração começou a ocupar espaço nas vitrines, nos anúncios e, gradualmente, no cotidiano das famílias brasileiras.
A partir dos anos 1960, o Dia das Crianças consolidou-se como uma das principais datas comerciais do segundo semestre para o segmento de brinquedos e produtos infantis.
O processo mostra que a data não foi criada originalmente pelo comércio. Ela já existia oficialmente desde 1924, mas foram as estratégias de marketing que contribuíram decisivamente para transformá-la em uma comemoração popular associada à compra de presentes.
Com o passar dos anos, o mercado ampliou as opções de consumo. Bonecas, carrinhos e jogos passaram a dividir espaço com videogames, celulares, roupas, equipamentos eletrônicos e experiências de lazer. A publicidade também passou a explorar personagens, desenhos animados e tendências do universo infantil para estimular o desejo de consumo.
Quando o presente ganha mais importância do que a infância
O caráter comercial da data não significa que presentear uma criança seja algo negativo. Os brinquedos podem estimular a imaginação, a criatividade, a coordenação motora e a convivência social, dependendo de suas características e da maneira como são utilizados.
A questão surge quando a comemoração passa a ser medida exclusivamente pelo valor financeiro do presente ou pela capacidade de consumo da família. A publicidade pode criar a impressão de que demonstrar amor depende de comprar determinado produto, aumentando a pressão sobre pais e responsáveis.
Famílias com diferentes condições econômicas também vivem a data de maneiras distintas. Enquanto algumas conseguem comprar presentes caros, outras encontram alternativas em brincadeiras, atividades gratuitas, passeios e momentos de convivência.
Uma infância saudável não depende da quantidade de brinquedos acumulados. Afeto, segurança, alimentação adequada, acesso à saúde, educação de qualidade, lazer e proteção contra todas as formas de violência são elementos fundamentais para o desenvolvimento infantil.
Nesse contexto, o Dia das Crianças também pode ser uma oportunidade para discutir o consumismo e a influência da publicidade sobre o público infantil. A criança precisa de espaço para brincar, descobrir o mundo, fazer perguntas e desenvolver sua autonomia, sem que suas experiências sejam reduzidas à lógica do mercado.
Muito além de um dia de festa
O calendário brasileiro reserva o dia 12 de outubro para o Dia das Crianças, mas a data também coincide com o feriado nacional de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. As duas celebrações têm origens distintas, embora compartilhem o mesmo dia no calendário.
Em âmbito internacional, a Organização das Nações Unidas reconhece o dia 20 de novembro como o Dia Mundial da Criança, data relacionada à adoção da Declaração dos Direitos da Criança, em 1959, e à Convenção sobre os Direitos da Criança, em 1989.
No Brasil, a proteção à infância também está prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), instituído pela Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. O estatuto estabelece direitos fundamentais e atribui à família, à sociedade e ao poder público o dever de assegurar, com prioridade absoluta, condições para o desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Isso significa que a celebração não deve se limitar à entrega de presentes. É necessário olhar para a realidade de milhares de crianças que enfrentam pobreza, insegurança alimentar, dificuldades de acesso à educação, violência, exploração do trabalho infantil e falta de oportunidades.
Garantir os direitos da infância exige ações permanentes, e não apenas homenagens em datas comemorativas. Significa assegurar que todas as crianças, independentemente da condição social, da deficiência, da origem ou do lugar onde vivem, tenham oportunidades de aprender, brincar, participar da sociedade e desenvolver suas potencialidades.
O melhor presente não cabe em uma embalagem
O Dia das Crianças pode, sim, ser uma ocasião de alegria, brincadeiras e presentes. O comércio faz parte da dinâmica da data, e muitas famílias encontram nessa oportunidade uma forma de demonstrar carinho.
Entretanto, a história da comemoração revela como uma iniciativa voltada à infância acabou incorporada à lógica do consumo. Reconhecer esse processo permite aproveitar a data sem perder de vista aquilo que realmente importa.
Mais do que perguntar qual brinquedo comprar, vale refletir sobre o tempo dedicado às crianças, a qualidade das relações familiares, a segurança dos ambientes em que vivem e as oportunidades que encontram para aprender e brincar.
Neste 12 de outubro, a celebração pode servir também como um chamado à responsabilidade coletiva. Afinal, a infância não dura para sempre, mas as condições oferecidas às crianças hoje influenciam toda a sociedade de amanhã.







