Luciano Ambrósio transforma memória, sons e sensações em fotografia e poesia
Fotógrafo e poeta perdeu a visão aos 25 anos, mas desenvolveu uma forma própria de produzir imagens com o apoio da memória, de outros sentidos e da tecnologia.
Fotógrafo e poeta perdeu a visão aos 25 anos, mas desenvolveu uma forma própria de produzir imagens com o apoio da memória, de outros sentidos e da tecnologia.
Perder a visão não significou abandonar a fotografia. Aos 57 anos, o fotógrafo e poeta Luciano Ambrósio mantém sua produção artística explorando a memória afetiva, os sons, o tato, os cheiros e a percepção do ambiente. Cego desde os 25 anos, em consequência da retinose pigmentar, uma doença hereditária que compromete a visão, ele encontrou novas maneiras de construir imagens e compartilhar sua forma de perceber o mundo.
Em entrevista ao programa Inclusão em Foco, Luciano explicou que o processo de fotografar começa antes mesmo do clique. A orientação pelo calor do sol, pelo perfume das flores, pela inclinação do terreno e pelos sons ao redor ajuda a compor mentalmente a cena que deseja registrar. A imaginação e as lembranças pessoais completam esse processo.
Ao fotografar uma montanha, por exemplo, ele recorre à imagem afetiva da montanha que via da janela da casa onde nasceu. Embora o cenário atual seja diferente, essa lembrança funciona como referência para a construção da fotografia.
“Eu evoco as minhas lembranças, minha memória afetiva, junto tudo isso e faço a foto”, explicou.
Para Luciano, a fotografia também é uma oportunidade de despertar recordações em quem observa suas imagens. A intenção não é apenas registrar objetos ou paisagens, mas estimular o público a associar as fotografias às próprias experiências.
Tecnologia e autonomia no processo criativo
A tecnologia tornou-se uma aliada importante na produção do fotógrafo. Luciano utiliza um aplicativo que descreve em voz alta as imagens captadas pela câmera, oferecendo informações sobre o cenário e ajudando na avaliação do enquadramento.
Ele considera a ferramenta um recurso que amplia sua autonomia e enriquece o trabalho, embora continue valorizando a colaboração de outras pessoas na descrição dos ambientes. A esposa também participa desse processo, identificando elementos da cena e contribuindo para que ele registre aquilo que deseja.
Luciano ressalta que sua maneira de fotografar não segue necessariamente os padrões convencionais da fotografia. Para ele, a deficiência visual nunca foi um impedimento para produzir imagens, mas uma condição que o levou a desenvolver outros caminhos de criação.
Essa perspectiva também aparece na forma como lida com as imperfeições técnicas. Pequenos tremores, enquadramentos incomuns e alterações na luz podem surgir durante o processo. Quando isso acontece, ele prefere preservar essas características, em vez de descartá-las automaticamente.
“A vida também é imperfeita. Por que a minha fotografia tem que ser perfeita?”, questionou.
O fotógrafo entende que essas marcas podem acrescentar autenticidade à obra e revelar aspectos de sua experiência como artista.
Fotografia e poesia para despertar memórias
A união entre as duas linguagens artísticas está presente no livro Meu Olhar, que reúne fotografias e poesias. Na obra, Luciano utiliza palavras e imagens para expressar sentimentos, lembranças e percepções que não se limitam à descrição objetiva de lugares e objetos.
Ao falar sobre um banho de rio, por exemplo, sua poesia não se concentra em características físicas da paisagem, como a profundidade da água ou a distância entre as margens. O tema o conduz às lembranças da infância, quando caminhava por estradas de chão em companhia do irmão mais velho, dos primos e dos amigos para chegar ao rio.
É essa experiência afetiva que ele procura compartilhar com os leitores, permitindo que pessoas com histórias semelhantes se reconheçam nos versos e que outras descubram novas formas de interpretar essas vivências.
Para Luciano, fotografia e poesia se complementam. A palavra permite expressar pensamentos e sentimentos, enquanto a imagem acrescenta outra dimensão à narrativa artística.
Fotografar sons e sentimentos
Uma das particularidades do trabalho de Luciano é a maneira como interpreta aquilo que registra. Ao fotografar um trem, ele afirma que não está interessado apenas no veículo, mas também no barulho que ele produz. Diante de uma cachoeira, sua atenção se volta para o som da água batendo nas pedras.
Embora esses sons não estejam literalmente presentes na fotografia, fazem parte da experiência que orienta sua criação.
O artista deseja que o público perceba essa dimensão sensorial e compreenda que uma imagem pode despertar sensações e memórias que vão além daquilo que está visível.
A fé, a espiritualidade e o otimismo também atravessam sua produção. Luciano procura compartilhar seus valores e experiências, incluindo momentos de dor e inquietação, mas espera que suas obras ofereçam ao público oportunidades de pausa, reflexão e serenidade diante da rotina.
Ao falar sobre a perda da visão, ele destacou o processo de adaptação e a decisão de continuar vivendo da melhor maneira possível. Essa postura não significa negar as dificuldades, mas reconhecer a deficiência como parte de sua trajetória, sem permitir que ela defina todos os aspectos de sua vida.
Inclusão também passa pela arte
Durante a entrevista, Luciano chamou a atenção para a necessidade de reconhecer pessoas com deficiência para além de suas condições físicas ou sensoriais. Para ele, a inclusão envolve direitos e políticas públicas, mas também o acesso à cultura e a possibilidade de produzir e compartilhar arte.
O fotógrafo defende que sua obra seja apreciada pela sensibilidade e pela capacidade artística, sem que a deficiência visual seja o único aspecto considerado pelo público.
“Não é o fato de ter uma deficiência que me torna menos capaz de produzir beleza, de produzir arte”, afirmou.
Luciano também vê a própria produção artística como uma forma de posicionamento político, ao questionar os preconceitos e demonstrar que a deficiência não impede a expressão da criatividade, da humanidade e dos sentimentos.
A mensagem que deseja deixar aos leitores é a de que, por trás de cada fotografia e de cada poema, existe uma pessoa com desejos, valores, sensibilidade e vontade de ser feliz.
A trajetória do fotógrafo reforça uma discussão importante sobre inclusão: reconhecer as barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência sem reduzir suas identidades às limitações sensoriais. No trabalho de Luciano Ambrósio, a fotografia e a poesia são caminhos para ampliar essa percepção e convidar o público a olhar o mundo por outras perspectivas.











