Bullying atinge quatro em cada dez adolescentes no Brasil e deixa marcas que podem durar a vida inteira
Pesquisa do IBGE revela a dimensão da violência entre estudantes. Especialista aponta falhas na prevenção, defende políticas públicas baseadas em evidências e destaca o papel das famílias, das escolas e das plataformas digitais.
O bullying está longe de ser uma simples brincadeira entre crianças e adolescentes. Para quem sofre, a violência pode comprometer a autoestima, dificultar a convivência social e deixar consequências que ultrapassam os muros da escola. No Brasil, a dimensão do problema é revelada por dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): cerca de quatro em cada dez estudantes de 13 a 17 anos relataram ter sofrido bullying na escola. As meninas aparecem entre as principais vítimas, e características físicas, como cabelo e corpo, estão entre os motivos mais citados.
O cenário foi tema do programa Papo de Futuro, apresentado por Ana, com a participação do consultor legislativo da Câmara dos Deputados Davi Carneiro. A entrevista, realizada no contexto do Dia Mundial de Combate ao Bullying, em 20 de outubro, discutiu os impactos dessa violência, os avanços da legislação brasileira e os desafios para transformar medidas legais em proteção efetiva para crianças e adolescentes.
Para Carneiro, os números representam muito mais do que um problema de convivência escolar. Eles revelam o sofrimento de jovens que deveriam encontrar na escola um ambiente de aprendizagem, desenvolvimento e acolhimento, mas que, em muitos casos, enfrentam humilhações, exclusão e dificuldades para estabelecer relações sociais.
O especialista chamou a atenção para as consequências de longo prazo. Estudos que acompanham pessoas ao longo dos anos associam a experiência de bullying a problemas como depressão e ansiedade, além de possíveis prejuízos à trajetória socioeconômica. A violência, portanto, não termina necessariamente quando acaba a aula ou quando a vítima deixa de conviver com os agressores.
Aparência, racismo e desigualdade
Quando o cabelo e as características físicas se tornam motivos de perseguição, o problema também expõe preconceitos presentes na sociedade brasileira. Carneiro destacou que as agressões relacionadas ao cabelo podem estar associadas ao racismo, sobretudo quando atingem características da população negra.
A discriminação estética não deve ser tratada como uma divergência inofensiva entre estudantes. Quando a aparência é utilizada para humilhar, isolar ou inferiorizar alguém, a violência atinge diretamente a identidade e a autoestima da vítima.
As meninas também enfrentam formas específicas de exposição e julgamento do corpo, o que pode intensificar os danos emocionais. O bullying, nesse contexto, não é um fenômeno isolado das relações sociais: ele pode reproduzir dentro das escolas desigualdades, preconceitos e padrões de discriminação que já existem fora delas.
O enfrentamento exige, por isso, mais do que advertências individuais. É necessário trabalhar o respeito às diferenças, combater o racismo e outras formas de discriminação e estabelecer procedimentos claros para identificar e interromper situações de violência.
O que diz a legislação brasileira
O Brasil avançou na criação de instrumentos legais para combater o bullying, mas a existência de leis não significa que o problema esteja resolvido.
Um dos marcos desse processo foi a Lei nº 13.185, de 2015, que instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática. A norma definiu o bullying como uma forma de violência física ou psicológica, intencional e repetitiva, praticada individualmente ou em grupo, com o objetivo de intimidar ou agredir, causando dor e angústia à vítima em uma relação de desequilíbrio de poder.
Posteriormente, a Lei nº 13.663, de 2018, incluiu entre as atribuições dos estabelecimentos de ensino a promoção de medidas de prevenção e combate à violência e à intimidação sistemática.
Em 2023, a Lei nº 14.643 autorizou a criação do Sistema Nacional de Acompanhamento e Combate à Violência nas Escolas. Já a Lei nº 14.811, de 2024, estabeleceu medidas de proteção contra a violência em estabelecimentos educacionais e incluiu o bullying e o cyberbullying entre as condutas criminalizadas, com previsão no Código Penal.
A legislação de 2024 também reforçou a necessidade de protocolos de proteção e enfrentamento da violência nas instituições de ensino.
Na avaliação apresentada por Carneiro, a construção desse conjunto de normas representa um avanço, mas ainda há dificuldades de integração entre as medidas legais e as políticas públicas. Também é necessário avaliar melhor os resultados das ações adotadas e verificar se elas conseguem reduzir os casos de violência.
Outro desafio está na forma como as escolas lidam com as situações identificadas. O receio de consequências jurídicas pode, em determinados casos, levar instituições a hesitar na classificação dos episódios. Isso reforça a importância de critérios claros, formação profissional e procedimentos que permitam investigar cada ocorrência sem minimizar o sofrimento da vítima nem fazer enquadramentos precipitados.
A responsabilização é importante, mas não substitui a prevenção, a identificação precoce e o acompanhamento dos envolvidos.
Cyberbullying: a violência que ultrapassa os muros da escola
Se o bullying presencial pode acompanhar a vítima durante o período escolar, a violência digital amplia o alcance e a duração das agressões.
Nas redes sociais, aplicativos de mensagens e outras plataformas, uma humilhação pode ser compartilhada com um número muito maior de pessoas. Fotografias, vídeos, comentários ofensivos e montagens podem circular rapidamente, dificultando a interrupção da exposição e aumentando o sofrimento de quem é atacado.
O ambiente digital também apresenta riscos relacionados à exposição indevida de crianças e adolescentes, à violência sexual e à produção de imagens falsas, inclusive por meio de ferramentas de inteligência artificial, como as chamadas deepfakes.
Carneiro destacou o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, conhecido como ECA Digital, como uma das respostas recentes para ampliar a proteção de crianças e adolescentes na internet. A Lei nº 15.211, de 2025, estabeleceu regras voltadas à proteção desse público no ambiente digital, incluindo obrigações para fornecedores de produtos e serviços digitais.
A regulamentação, contudo, não elimina a necessidade de educação digital. Crianças e adolescentes precisam aprender a reconhecer situações de risco, respeitar a privacidade alheia, compreender as consequências do compartilhamento de conteúdos e identificar quando uma suposta brincadeira se transforma em violência.
As plataformas também têm responsabilidade na construção de ambientes mais seguros. A prevenção não pode ficar restrita às famílias e às escolas enquanto os mecanismos de disseminação de conteúdos ofensivos permanecem fora da discussão.
Prevenir exige mais do que palestras e punições
Um dos pontos centrais da entrevista foi a necessidade de adotar estratégias de combate ao bullying fundamentadas em pesquisas e avaliações de resultados.
Segundo Carneiro, as evidências disponíveis apontam que programas bem estruturados podem produzir reduções modestas, mas consistentes, nos episódios de intimidação. Para isso, as ações precisam ser contínuas, envolver diferentes setores da comunidade escolar e desenvolver habilidades para a convivência.
Uma palestra isolada ou uma campanha realizada apenas em uma data comemorativa não substitui um programa permanente de prevenção. É necessário trabalhar o tema durante o ano letivo, capacitar profissionais, estabelecer canais de acolhimento e acompanhar os casos identificados.
Os professores têm papel importante nesse processo porque convivem diariamente com os estudantes e podem perceber mudanças de comportamento, isolamento, medo de frequentar as aulas ou conflitos recorrentes. Essa responsabilidade, entretanto, precisa ser acompanhada de formação, orientação e apoio institucional, sem transferir aos educadores, individualmente, todo o peso de um problema complexo.
Outro grupo que merece atenção é o dos estudantes que presenciam as agressões. A reação de quem assiste pode influenciar a continuidade da violência. Risadas, compartilhamentos e comentários de aprovação podem reforçar a humilhação. Por outro lado, o apoio à vítima e a comunicação responsável aos adultos podem contribuir para interromper o ciclo de agressões.
A prevenção também precisa incluir as famílias, os profissionais da educação e os serviços de saúde, com ações coordenadas e acompanhamento dos resultados.
Dados atualizados são fundamentais
Apesar dos avanços legislativos e da existência de políticas públicas, Carneiro apontou a dificuldade de reunir informações consistentes e avaliar a eficácia das iniciativas como um dos obstáculos ao enfrentamento do problema.
A produção de dados mais frequentes e detalhados é fundamental para identificar onde os casos se concentram, quais grupos estão mais expostos e quais medidas apresentam melhores resultados.
Sem esse acompanhamento, o poder público corre o risco de manter programas sem saber com clareza se eles estão funcionando, se precisam ser reformulados ou se determinados grupos continuam desprotegidos.
A avaliação também deve considerar as diferentes manifestações da violência, incluindo discriminação racial, agressões relacionadas à aparência, exclusão social e ataques virtuais. Políticas eficazes precisam responder às características de cada situação, sem tratar todos os episódios como se fossem iguais.
A conversa em casa pode fazer diferença
Para além das leis e das políticas públicas, Carneiro deixou uma recomendação direta às famílias: conversar com crianças e adolescentes, ouvir suas experiências e manter contato com a comunidade escolar.
Durante o programa, a apresentadora relatou um episódio em que uma mãe comunicou a outros responsáveis que a filha estava sofrendo zombarias por causa da aparência. A mobilização das famílias para conversar com os filhos ajudou as próprias crianças a reconhecer que aquele comportamento ultrapassava os limites de uma brincadeira.
O relato ilustra como o diálogo pode contribuir para interromper agressões e construir uma cultura de respeito. Também mostra a importância de os responsáveis não esperarem que a situação se agrave para procurar a escola.
Mudanças de comportamento, tristeza persistente, isolamento, resistência em frequentar as aulas e medo de determinados colegas podem exigir atenção. Esses sinais, isoladamente, não comprovam a ocorrência de bullying, mas justificam uma conversa cuidadosa e, quando necessário, uma investigação pela escola.
A vítima precisa ser ouvida sem julgamentos. Não cabe responsabilizá-la pela agressão nem exigir que enfrente sozinha os autores das humilhações. O acolhimento deve ser acompanhado de medidas concretas para interromper a violência e evitar novas ocorrências.
Onde buscar ajuda
Em situações de violência contra crianças e adolescentes, é possível procurar a direção da escola, os órgãos de proteção e os canais oficiais de denúncia.
O Disque 100, serviço de atendimento do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, recebe denúncias de violações de direitos humanos, inclusive contra crianças e adolescentes.
Em situações de sofrimento emocional intenso, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende pelo número 188, gratuitamente, para apoio emocional e prevenção do suicídio. O serviço não substitui atendimento de emergência quando há risco imediato à vida.
Quando houver ameaça, agressão ou risco à integridade de uma criança ou adolescente, a busca por ajuda deve ser compatível com a gravidade da situação, envolvendo os serviços de proteção e emergência quando necessário.
Combater o bullying é uma responsabilidade coletiva
A entrevista do Papo de Futuro reforçou uma questão essencial: o combate ao bullying não pode depender exclusivamente da vítima, da iniciativa individual de um professor ou de uma lei aprovada pelo Congresso Nacional.
O enfrentamento exige legislação, políticas públicas, formação de educadores, participação das famílias, responsabilidade das plataformas digitais e produção de dados capazes de orientar decisões.
Os números apresentados pelo IBGE mostram a dimensão do desafio. Por trás de cada relato de humilhação existe uma pessoa que tem direito à educação, à dignidade, à segurança e ao desenvolvimento sem violência.
Transformar esse direito em realidade exige mais do que reconhecer a gravidade do problema em 20 de outubro. Exige atenção permanente, intervenção diante das agressões e compromisso coletivo com uma sociedade em que diferenças físicas, raciais, sociais ou de qualquer outra natureza não sejam usadas como instrumentos de exclusão.
Bullying não é brincadeira quando humilha, intimida e machuca. Prevenir essa violência é proteger a infância, a adolescência e o futuro de quem tem o direito de crescer com respeito.











