Jonathan Aguiar defende o brincar como direito fundamental da infância e ferramenta de inclusão

Brinquedista, pesquisador e educador destaca que as brincadeiras contribuem para o desenvolvimento infantil, fortalecem vínculos afetivos e ajudam a combater a exclusão. Para ele, garantir tempo e espaço para brincar é uma responsabilidade das famíli

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 21/10/2026, 02:30h

Brincar é muito mais do que uma forma de passar o tempo. É uma maneira de aprender, expressar sentimentos, desenvolver habilidades, construir vínculos e descobrir o mundo. Essa é uma das principais reflexões do professor Jonathan Aguiar, brinquedista, pós-doutor em Artes, doutor e mestre em Educação, que participou do programa Inclusão em Foco para discutir a importância do brincar na formação das crianças e na construção de uma sociedade mais inclusiva.

Integrante de um grupo de pesquisa em Arte e Visualidades da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Jonathan desenvolve trabalhos que aproximam educação, ludicidade, cultura e inclusão. É autor de livros como Educação Lúdica e Favela, Jogos e Brincadeiras Africanas e Os Excluídos Podem Sonhar, Brincar e Criar, obras que abordam o potencial educativo e social das experiências lúdicas.

Durante a entrevista, o pesquisador chamou a atenção para uma questão cada vez mais presente na rotina das famílias: o tempo que as crianças passam diante das telas e a redução das oportunidades de brincar, movimentar o corpo, explorar a natureza e conviver com outras pessoas.

Para Jonathan, a discussão não deve se limitar à quantidade de horas diante do celular ou do computador, mas precisa considerar quais experiências são oferecidas às crianças quando os dispositivos são desligados.

“A criança precisa viver uma infância múltipla”, defendeu o professor, ao destacar a importância de combinar o uso da tecnologia com atividades como brincar ao ar livre, desenhar, ouvir histórias, cantar, movimentar-se e experimentar diferentes materiais.

A tecnologia faz parte da realidade contemporânea e pode ser utilizada de maneira adequada à idade e às necessidades de cada criança. O problema, segundo a reflexão apresentada pelo educador, surge quando as telas passam a ocupar quase todo o espaço das experiências infantis, reduzindo as oportunidades de interação e descoberta.

Brincar é aprender e desenvolver habilidades

Correr, pular corda, participar de uma roda cantada ou inventar uma história são atividades que mobilizam diferentes capacidades. Enquanto brinca, a criança desenvolve a coordenação motora, o equilíbrio, a atenção, a memória, a linguagem, a criatividade e a autonomia.

As brincadeiras coletivas também ensinam a esperar a vez, respeitar combinados, negociar regras, lidar com frustrações e reconhecer a presença do outro. São experiências que contribuem para o desenvolvimento emocional e social, preparando a criança para participar de diferentes espaços de convivência.

Jonathan ressalta que o brincar deve ser compreendido como uma linguagem própria da infância. Ao brincar, a criança comunica o que sente, experimenta possibilidades, constrói conhecimentos e atribui significados ao mundo ao seu redor.

Por isso, a atividade lúdica não deve ser tratada apenas como intervalo entre tarefas consideradas mais importantes. Ela tem valor próprio e precisa fazer parte da rotina das crianças, dentro e fora da escola.

O professor também alerta para a necessidade de preservar a espontaneidade das brincadeiras. Embora jogos e atividades lúdicas possam ser utilizados com objetivos pedagógicos, o adulto não deve controlar cada etapa da experiência. É importante organizar ambientes seguros, disponibilizar materiais e acompanhar as descobertas, permitindo que a criança crie suas próprias possibilidades.

Inclusão começa quando todas as crianças podem participar

A defesa do brincar também está diretamente relacionada à inclusão. Garantir que todas as crianças tenham oportunidades de brincar significa reconhecer suas diferentes formas de comunicação, seus interesses, seus ritmos e suas maneiras de interagir com o ambiente.

Uma proposta inclusiva não deve exigir que todas as crianças participem exatamente da mesma maneira. O desafio é criar condições para que cada uma encontre possibilidades de expressão e participação, respeitando suas características e necessidades.

Nesse contexto, famílias e educadores precisam observar como cada criança se comunica e quais adaptações podem favorecer seu envolvimento. O objetivo não é enquadrar todas em um único padrão de comportamento, mas ampliar as oportunidades de convivência, aprendizagem e pertencimento.

Jonathan também chama a atenção para comportamentos que os adultos costumam classificar como difíceis. Agressividade, silêncio, apatia ou resistência em participar de determinadas atividades podem ter diferentes causas e precisam ser compreendidos com cuidado, sem rótulos precipitados.

Na experiência do pesquisador com crianças em contextos de vulnerabilidade social, o brincar contribuiu para a construção de vínculos com a escola e para o envolvimento com a aprendizagem.

A brincadeira pode abrir caminhos para que a criança expresse sentimentos e experiências que ainda não consegue comunicar por meio das palavras. Isso não significa que todo comportamento tenha uma única explicação, mas reforça a importância da escuta, do acolhimento e da observação atenta por parte dos adultos.

Jogos e brincadeiras africanas valorizam a diversidade

Outro eixo do trabalho de Jonathan Aguiar é a valorização dos jogos e das brincadeiras de matrizes africanas e afro-brasileiras. Para o educador, essas práticas carregam histórias, conhecimentos, formas de convivência e referências culturais que precisam estar presentes no cotidiano escolar.

Ao incorporar essas brincadeiras às atividades educativas, a escola amplia o repertório cultural das crianças e contribui para a educação das relações étnico-raciais. A proposta também permite que crianças negras encontrem referências relacionadas à própria história e identidade, enquanto as demais aprendem a reconhecer e respeitar a diversidade cultural brasileira.

Na avaliação do pesquisador, essa abordagem não deve ficar restrita a datas comemorativas. A valorização das culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas precisa integrar as experiências educativas ao longo de todo o ano.

Essa perspectiva fortalece uma educação comprometida com o enfrentamento do racismo e com o reconhecimento das diferentes contribuições que formam a sociedade brasileira.

Brincar também é uma forma de resistência

A dimensão social do brincar ganha ainda mais importância quando se consideram as crianças que vivem em situações de pobreza, preconceito, violência ou exclusão.

Jonathan defende que brincar, imaginar e criar são formas de afirmar a própria existência e de ocupar espaços dos quais determinados grupos foram historicamente afastados.

“Brincar pode ser o modo de dizer: eu estou aqui. Eu posso criar, eu posso sonhar, eu posso imaginar outros mundos”, afirmou durante a entrevista.

A reflexão amplia o entendimento sobre a infância. O direito de brincar não depende da condição econômica da família, da origem social ou das características individuais da criança. Todas precisam ter oportunidades de imaginar, experimentar, conviver e participar da vida em comunidade.

Por isso, assegurar esse direito também exige espaços públicos acessíveis, ambientes escolares acolhedores e iniciativas que permitam às crianças brincar com segurança, sem discriminação.

Não é preciso comprar brinquedos caros

A falta de dinheiro ou de brinquedos sofisticados não precisa impedir as experiências lúdicas. Jonathan questiona a ideia de que brincar depende do consumo e propõe que as famílias valorizem os recursos disponíveis no cotidiano.

Uma caixa de papelão pode virar uma casa ou um carro. Um lençol pode se transformar em cabana. Tampinhas, folhas secas, papel e objetos simples podem estimular a imaginação, desde que sejam utilizados de maneira segura e adequada à idade da criança.

Brincadeiras de roda, jogos de imitação, histórias inventadas, caça ao tesouro dentro de casa e atividades com música são outras possibilidades que não exigem grandes investimentos.

O educador ressalta, entretanto, que a disponibilidade dos adultos é fundamental. Reservar um período do dia para brincar junto, conversar, ouvir histórias ou simplesmente acompanhar as descobertas dos filhos pode fortalecer vínculos e criar memórias afetivas.

Mesmo quando não é possível participar ativamente de toda a brincadeira, a presença atenta e o incentivo dos adultos ajudam a criança a perceber que suas experiências têm valor.

Uma responsabilidade compartilhada

A entrevista no Inclusão em Foco reforçou que o brincar não deve ser tratado como luxo, recompensa ou atividade secundária. Trata-se de uma dimensão essencial da infância, com implicações para a aprendizagem, a saúde das relações, a construção da identidade e o desenvolvimento da autonomia.

Famílias, escolas, gestores públicos e sociedade têm responsabilidades complementares na garantia de oportunidades para brincar. Isso envolve organizar rotinas que conciliem tecnologia e experiências concretas, preservar espaços para a brincadeira espontânea e assegurar que crianças com diferentes características e condições sociais possam participar.

A mensagem de Jonathan Aguiar é um convite para que os adultos revejam a maneira como organizam o cotidiano infantil. Em vez de preencher todos os momentos com tarefas, conteúdos e dispositivos eletrônicos, é necessário permitir que a infância também seja feita de movimento, imaginação, descobertas e convivência.

Ao defender o brincar, o professor defende o direito de cada criança de sonhar, criar e construir sentidos para a própria vida. Uma sociedade que valoriza essas experiências reconhece a infância em sua plenitude e abre mais espaço para a inclusão, o respeito às diferenças e a participação de todos.

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