O Morro dos Ventos Uivantes e a minha defesa pelas interpretações
Foto de Divulgação “O Morro dos Ventos Uivantes”
O Morro dos Ventos Uivantes é um clássico da literatura do século XIX. Não somente é um incontestável marco cultural britânico, como se tornou, ao longo das décadas seguintes, um livro mundialmente reconhecido e comumente revisitado em outras mídias.
A narrativa acompanha a vida de Catherine Earnshaw, a filha do dono da propriedade localizada no morro dos ventos uivantes. O sr. Earnshaw, dado momento, acolhe um menino em situação de vulnerabilidade social e o coloca em uma posição de serviçal em sua casa. Assim, Catherine e Heathcliff, nome que a própria menina batiza o recém-chegado, criam afeição um pelo outro e começam a passar cada vez mais tempo juntos.
A história de Emily Brontë, autora original da obra, perpassa desde a infância de Cathy, nome encurtado da protagonista, até a fase da sua vida adulta. O livro causou um grande impacto, principalmente se nos atentarmos ao fato de que foi publicado na primeira metade do século XIX, em 1847. Abordando temas como solidão, melancolia, adultério, vingança, violência e relações sociais, a autora relata a complexidade das relações humanas e destaca a vaidade e o ego como pontos centrais da história.
Porém, eu queria comentar sobre a adaptação recentemente feita para as telas dos cinemas, mesmo porque eu não li o livro, saindo da sessão do filme com uma grande vontade de experienciar a versão original. A nova versão do romance é dirigida por Emerald Fennell, também diretora de dois grandes e repercussivos filmes da década até então: Bela Vingança (2020) e Saltburn (2023). Aliás, recomendo muito o primeiro filme.
Enfim, O Morro dos Ventos Uivantes de Fennell recebe uma nova roupagem, diferente de outras versões já adaptadas para a tela. Porém, não é somente a estética que é diferente; a história também é. A diretora, que também é a roteirista aqui, se apropria da base da história descrita no livro e transporta para o cinema uma versão diferente dos acontecimentos originais da trama.
Aliado a este fato, o filme é basicamente descrito pelos telespectadores e críticos como um soft porn. Sim, essa adaptação cria cenas que só poderiam ser caracterizadas como inimagináveis de serem pensadas por uma mulher de 29 anos de idade do século XIX. Para contextualizar, soft porn é uma denominação dada para descrever uma narrativa que utiliza de situações e contextos eróticos, mas sem ser demasiadamente explícita. E que fique avisado que o filme não contém (muitas) cenas de nudez… Mas existem muitas referências e alusões ao sexo.
Para a criação das cenas e contextualização da narrativa, é preciso parabenizar o incrível trabalho realizado pelo departamento de arte. O filme é vivo e vibrante, cores saturadas, roupas espalhafatosas e chiques, cenários deslumbrantes, fotografia linda… Todos esses fatores, em conjunto, criam uma atmosfera, propositadamente desenhada pela diretora, em representar aspectos da narrativa que não são verbalmente ditos. Isso se encaixa exatamente com o que eu disse em relação às referências e alusões ao sexo.
Apesar de existirem cenas de sexo, o que chama a atenção do telespectador para o ato sexual é a falta de dois corpos humanos propriamente cumprindo seus papéis enquanto dois indivíduos que culminam o ato. É um close em uma rosa que lembra o órgão genital do sexo feminino, é o uso de gemas e claras de ovos crus escorrendo nas mãos, é o ato de preparar a massa de pão de maneira intrigante, é o som de gemidos enquanto a tela está escura… Basicamente, nada no filme é gráfico, por mais que seja sugestivamente pornográfico.
Essa maneira de interpretar a obra de Brontë foi demais para os fãs e entusiastas do livro. Pelo que eu pude entender, a partir de resenhas e discussões do livro, a narrativa é melancólica e se debruça sobre aspectos da realidade humana utilizando como pano de fundo uma paixão que não poderia se tornar realidade. A adaptação em filme não somente deturpa os fatos, como se aprofunda em aspectos que não acrescentam à trama principal.
Esses são os fatos que circundam o novo filme de O Morro dos Ventos Uivantes. E a partir deles eu digo, você está no seu direito, Emerald Fennell. Assim como os fãs estão no seu direito de não gostar.
Arte não nasce por acaso. Existe uma série de fatores contribuintes para que uma obra possa se tornar aquilo que é intencionado pela pessoa artista que a concebe. Tanto é que, para a realização de um filme, os diretores e roteiristas precisam criar uma lista de obras que as influenciam para a construção desse novo universo. Os diretores de arte precisam organizar uma série de influências que justifiquem as escolhas de usos de certos tipos de materiais, cores, designs, objetos, etc.
Emerald Fennell escolhe adaptar um dos seus livros favoritos, segundo palavras da própria diretora em entrevistas de divulgação do filme, mas não seguindo à risca os acontecimentos da narrativa original. Ela escolhe, a partir de uma intencionalidade, criar um novo cenário de acontecimentos para aqueles personagens. E é assim que uma nova história pode ser contada, uma nova interpretação é possibilitada…
Particularmente, eu não acho que a diretora sabia muito bem qual o desfecho apropriado para a narrativa que ela própria deturpa. O final é anticlimático e sem uma mensagem clara, porém, eu não digo que esse filme não deveria jamais ter existido. Eu acredito que um passo fundamental na carreira de qualquer artista é a oportunidade de errar e tentar novamente.
Arte é identidade e expressão. Eu acredito que muitos colocam essa forma de comunicação em um pedestal, quase como sagrada, e que por mais que seja definitivamente essencial para a cultura e a produção de saberes, arte nada mais é que um produto das inquietações de seus respectivos autores. Pôr uma obra em uma posição de tão alto prestígio desloca a sua função (se é que existe uma função objetiva) de suscitar reflexão e emoção e passamos a enxergá-la apenas como produto de contemplação.
Veredito final: O Morro dos Ventos Uivantes de 2026 é um bom filme. Certamente não possui uma narrativa bem alinhada e a motivação das ações de alguns personagens podem ser questionáveis. E caso essa fosse a intenção de Fennell, a justificativa das ações nunca é exposta. Portanto, a construção das personagens se enfraquece dessa maneira. Porém, o aspecto pelo qual eu mais recomendo a ida ao cinema para assistir esse filme são os visuais. Como dito anteriormente, as cenas são lindamente construídas e fotografadas.
Em relação a deturpação da obra original, a diretora possuía uma visão para a sua versão da obra de Brontë, e por mais que, para o meu gosto pessoal, não tenha ficado exatamente claro qual visão foi essa, eu defendo a ideia de que arte pode ser subvertida. E, pela coragem de deturpar uma obra tão sacralizada quanto O Morro dos Ventos Uivantes, eu admiro a visão criativa, e sobretudo artística, de Emerald Fennell.









