Crise bancária derruba presidente do Paraguai; Santiago Peña sofre impeachment e vai para prisão domiciliar
O Paraguai atravessa uma das mais graves crises políticas de sua história recente. O Senado aprovou, nesta sexta-feira (6), o impeachment do presidente Santiago Peña, em meio a um escândalo financeiro envolvendo o Ueno Bank.
Horas depois da destituição, o ex-chefe de Estado foi colocado em prisão domiciliária por determinação da Justiça, após denúncia formal de apresentação pelo Ministério Público.
A votação no Senado terminou com 44 votos elaborados à destituição e uma ausência, entre os 45 membros da Casa. Com a decisão, Peña perdeu imediatamente a carga, e o então vice-presidente Pedro Alliana assumiu a Presidência da República, com a missão de concluir o mandato previsto até agosto de 2028.
A queda de Peña foi resultado de uma sequência de acontecimentos iniciados com a intervenção do Banco Central paraguaio no Ueno Bank, instituição financeira que enfrentava problemas de solvência. O banco administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, e a crise atingiu cerca de três milhões de clientes, que tiveram dificuldades para acessar seus depósitos.
Da crise financeira ao impeachment
O escândalo ganhou dimensão política depois que veio à tona informações sobre os vínculos empresariais de Santiago Peña com a Ueno Holding, empresa que controlava o banco. O presidente havia sido acionista da holding e deixou a sociedade em março de 2025.
Parlamentares da oposição passaram a questionar possíveis conflitos de interesse, decisões regulatórias desenvolvidas à instituição e à concentração de recursos públicos e previdenciários no banco.
As denúncias também levantaram suspeitas sobre operações de crédito e a evolução do patrimônio do então presidente. Uma crise gerou protestos nas ruas, filas de correntistas nas agências e uma onda de desconfiança no sistema financeiro paraguaio.
O Ministério Público abriu investigação criminal, que descobriu na prisão de oito dirigentes e ex-dirigentes ligados à instituição financeira.
Renúncia não impede a destituição
Na quinta-feira (5), antes do avanço do processo de impeachment, Peña anunciou sua renúncia ao cargo. A estratégia, entretanto, não prosperou.
A sessão do Congresso que deveria analisar o pedido foi suspensa por falta de quórum. Foram necessários pelo menos 41 parlamentares presentes, mas apenas 40 convidados no plenário.
A renúncia poderia permitir que Peña assumisse a condição de senador vitalício, prerrogativa constitucional concedida a ex-presidentes paraguaios, acompanhada de imunidade parlamentar.
Com a interrupção da votação, o processo de impeachment continua. Na sexta-feira, os senadores rejeitaram os argumentos apresentados pela defesa e concluíram o julgamento político, determinando a destituição.
Os advogados do presidente questionaram o prazo de concessão para preparar a defesa e alegaram irregularidades na condução do procedimento. Também ameaçaram recorrer à Comissão Interamericana de Direitos Humanos caso a destituição fosse considerada ilegal.
Ministério Público determina prisão domiciliar
A situação de Peña se agravou minutos depois da votação. O Ministério Público formalizou acusações contra o ex-presidente, e a Justiça determinou sua prisão domiciliar em Assunção, capital do Paraguai.
A denúncia envolve suspeitas de lesão de confiança e tentativa de estelionato, além de possíveis crimes de enriquecimento ilícito relacionados às investigações sobre o Banco Ueno.
Quatro membros do Ministério Público discutiram a acusação. A medida foi cumprida na residência do ex-presidente, que permitiu a entrada dos agentes e se colocou à disposição das autoridades.
A polícia estava nas proximidades do imóvel para evitar tumultos diante da presença de manifestantes e de pessoas que acompanhavam o desdobramento do caso.
Peña deverá comparecer ao Ministério Público para prestar esclarecimentos sobre as acusações.
A crise ainda pode ter novos desdobramentos
A destituição e a prisão domiciliar de Santiago Peña representam um novo capítulo na instabilidade política paraguaia. À medida que as investigações sobre o Banco Ueno continuam, enquanto as autoridades trabalham para restabelecer os pagamentos aos correntistas prejudicados.
O Banco Central iniciou a devolução de parte dos depósitos, priorizando clientes que atendessem aos critérios estabelecidos pelo fundo de garantia.
O episódio também reacende a memória política do Paraguai sobre o impeachment de Fernando Lugo, em 2012, quando o então presidente foi afastado da carga em um processo que provocou forte repercussão internacional.
Agora, além da mudança no comando do Executivo, o país enfrenta o desafio de recuperar a confiança nas instituições financeiras e esclarece as responsabilidades pela crise que atingiu milhões de paraguaios.









