Racismo no futebol: uma ferida histórica que o jogo ainda não conseguiu curar
Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP
O racismo no futebol não é um fenômeno recente, tampouco episódico. Ele atravessa décadas, gerações e fronteiras, resistindo a campanhas institucionais, protocolos e manifestações públicas de repúdio. O cenário atual, marcado para maior visibilidade e denúncias mais frequentes, não significa que o problema tenha surgido agora — ele apenas deixou de ser silenciado com a mesma facilidade de antes.
Desde o início do século XX, quando o futebol começou a se popularizar e deixar de ser restrito às elites, os jogadores negros enfrentam barreiras explícitas e implícitas para atuar. No Brasil, os clubes resistiram à presença de atletas negros; na Europa, torcidas organizadas por vezes transformaram estádios em ambientes hostis. O esporte que se tornou símbolo de integração social também reproduziu, ao longo do tempo, desigualdades profundas.
Casos históricos se acumularam: bananas lançadas em campo, imitações de macacos nas arquibancadas, cânticos racistas direcionados a jogadores. O que muda hoje tem repercussão. Redes sociais, internacionais e posicionamentos públicos tornaram-se mais difíceis de ignorar o que antes era relativizado como “provocação de torcida”.
Nos últimos anos, episódios esportivos de destaque reacenderam o debate internacional. O atacante Vinícius Júnior tornou-se um dos rostos mais visíveis dessa discussão após sofrer repetidos ataques racistas em estádios espanhóis. O francês Kylian Mbappé também já teve situações semelhantes. A recorrência desses casos mostra que o problema não está restrito a divisões inferiores ou contextos isolados: ele atinge o mais alto nível do futebol mundial.
O debate ganhou novos contornos quando o ex-zagueiro francês Lilian Thuram, conhecido por sua atuação firme contra o racismo, concedeu entrevista ao jornal L'Équipe e fez duras críticas a declarações atribuídas ao técnico José Mourinho.
Thuram afirmou:
“Estamos em 2026 e, em 2026, pessoas negras ainda podem ser humilhadas em campo. Porque racismo é humilhação. Vinícius relatou os eventos, Kylian Mbappé os relatou. Mas não, isso não basta, a dúvida persiste, não temos certeza. Mas por que não acreditamos nesses dois jogadores? Porque as palavras de homens negros não são confiáveis.”
O ex-defensor foi além:
“Quem é você, Sr. Mourinho, para decidir o que Vini tem o direito de fazer? Essa declaração exala superioridade branca e narcisismo. O ato racista que Vinícius Júnior sofreu não teve nada a ver com o comportamento dele, mas sim com a cor da sua pele. Quando Mourinho tenta nos fazer acreditar que Vinícius é responsável pelo racismo que sofre, é patético. Essa análise o reduz a uma pessoa insignificante, um homem insignificante.”
As declarações de Thuram evidenciam um ponto central do debate contemporâneo: a tendência histórica de deslocar a responsabilidade do agressor para a vítima. Ao sugerir que o comportamento do jogador provoca reações, parte do discurso público acaba relativizando o racismo, transformando-o em consequência e não em causa. Especialistas em relações raciais apontam que essa lógica reforça estruturas discriminatórias, pois questiona a legitimidade do relato da vítima.
Jornalistas esportivos e estudiosos do tema frequentemente destacam que o futebol funciona como espelho da sociedade. Se o racismo persiste nas arquibancadas, ele também está presente nas estruturas administrativas, na formação de base, na ocupação de cargos de liderança e na maneira como narrativas são construídas pela mídia.
Embora federações e confederações tenham adotado protocolos — como paralisação de partidas, campanhas institucionais e multas — a eficácia das punições ainda é alvo de debate. Muitos atletas defendem medidas mais severas, incluindo perda de pontos, exclusão de competições e responsabilização criminal efetiva de torcedores identificados.
Outro ponto recorrente nas análises é a diferença entre gesto simbólico e transformação estrutural. Ajoelhar-se antes das partidas ou exibir faixas antirracistas tem peso simbólico, mas não substitui políticas educativas contínuas nas categorias de base, programas de conscientização para torcedores e diversidade real nos cargos de comando.
Ao longo da história, jogadores que denunciaram o racismo muitas vezes foram tratados como exagerados ou conflituosos. Hoje, há maior solidariedade entre atletas, mas ainda existe resistência institucional em admitir a profundidade do problema. A fala de Thuram sintetiza essa tensão: mesmo em 2026, ainda se questiona a palavra de quem denuncia.
A discussão, portanto, ultrapassa o futebol. Ela envolve memória histórica, estrutura social e responsabilidade coletiva. O esporte, por sua visibilidade global, tem potencial para ser agente de mudança — mas, para isso, precisa de consideração de que o racismo não é um incidente isolado, e sim uma ferida antiga que nunca foi completamente tratada.
Enquanto os episódios continuam a ocorrer nos principais campeonatos do mundo, a pergunta que permanece é se o futebol seguirá reagindo apenas quando o escândalo explodir ou se assumirá, de forma consistente e estrutural, o compromisso de transformar o jogo em um espaço verdadeiramente inclusivo.









