Campanha fevereiro letivo trouxe um alerta para crise de saúde mental nas escolas brasileiras

Imagem: Site jornaldobras
  • Júnior Patente
  • Atualizado: 09/04/2026, 10:05h

O programa Fator de Risco, da Rádio Câmara, trouxe um importante debate sobre um tema cada vez mais urgente: a saúde mental no ambiente escolar. Em entrevista o psicólogo Cristiano Molo que fez um balanço da campanha “Fevereiro Letivo”, que teve como objetivo ampliar a conscientização sobre os impactos emocionais no processo educacional.

A iniciativa é uma extensão da campanha Janeiro Branco, levando a discussão para dentro das escolas. Segundo Molo, a proposta é clara: colocar a saúde mental no centro da educação e do desenvolvimento humano. “A escola não é apenas um espaço de conteúdo, mas um ambiente emocional, onde vínculos e pressões influenciam diretamente o aprendizado”, destacou.

Professores também adoecem

Um dos pontos mais preocupantes levantados durante a entrevista são os dados relacionados à saúde mental dos educadores. De acordo com a OCDE, cerca de 16% dos professores brasileiros afirmam que a profissão impacta negativamente sua saúde mental — índice superior à média internacional, que gira em torno de 10%.

A situação se agrava com números nacionais: apenas no estado de São Paulo, há uma média de 95 afastamentos diários de professores por problemas psicológicos. Para o especialista, isso revela uma realidade silenciosa. “Não existe escola saudável quando quem educa adoece”, afirmou.

Alerta começa na infância

Outro dado alarmante diz respeito ao aumento de internações por transtornos mentais entre crianças e adolescentes. Informações da Secretaria de Saúde de São Paulo apontam crescimento de quase 100% nos casos entre crianças de 5 a 9 anos, e de 78% entre jovens de 10 a 14 anos, entre 2020 e 2025.

Para Molo, esses números evidenciam uma falha estrutural: “Estamos formando alunos com conhecimento técnico, mas sem preparo emocional. Saímos das escolas como analfabetos emocionais”.

Escola, família e sociedade: responsabilidade compartilhada

A campanha também reforça a importância da integração entre escola e família. Segundo o psicólogo, a educação não pode ser responsabilidade isolada. “É preciso uma rede de apoio. Quando escola e família trabalham juntas, o ambiente se torna mais seguro e saudável”, explicou.

Ele ainda destaca que professores desempenham papel essencial na identificação de sinais de violência e sofrimento emocional entre alunos, sendo muitas vezes os primeiros a perceber mudanças de comportamento.

Bullying e políticas públicas entram no debate

O combate ao bullying foi outro tema abordado. Para o especialista, o problema não envolve apenas quem pratica, mas também quem presencia. “Não existe bullying sem plateia. É preciso responsabilizar todos os envolvidos”, afirmou.

Além disso, Molo destacou a importância de políticas públicas e medidas institucionais, como o avanço do chamado “ECA Digital” e normas voltadas à saúde mental no ambiente de trabalho. Segundo ele, a promoção do bem-estar depende de três pilares: ações individuais, ambientes institucionais saudáveis e políticas públicas eficazes.

Um debate que precisa continuar

A campanha Fevereiro Letivo, embora concentrada no início do ano escolar, propõe uma reflexão permanente. “Saúde mental não tem data. É um cuidado diário”, reforçou o psicólogo.

O debate evidencia que o desafio vai além da sala de aula. Envolve toda a sociedade e exige mudanças estruturais para garantir que o ambiente escolar seja, de fato, um espaço de desenvolvimento integral — acadêmico e emocional.

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