O símbolo dos objetos de museus
Fonte: Instagram / @daniel.reboucas.historia
Existe um grande debate na área da cultura, sobretudo nos estudos de cultura material, que identifica os objetos, na maioria das vezes àqueles que fazem parte de algum acervo de museu ou coleção de arte e/ou científica, como dissociados de seus usos culturalmente designados. Por exemplo, é comum encontrar utensílios do cotidiano em acervos museológicos. Dito isso, acredito que existe um tópico interessante para construir uma reflexão: se existe um espelho em perfeitas condições em reserva técnica ou espaço expositivo, seu uso como objeto de reflexão de imagem deixa de existir? Mesmo enquanto peça de museu, usada para um contexto específico para fins preservacionistas, educativos e científicos, ao passar na frente do espelho, você deixaria de ver a sua autoimagem refletida nele?
A resposta é: não. Você certamente ainda poderia usar o objeto com a intenção de visualizar sua própria imagem. O que acontece é que, adicionado ao uso que o espelho foi intencionalmente produzido, ele também passa a ser reconhecido enquanto objeto científico e de valor simbólico reconhecido.
É verdade que, se você for em um museu e puder sentar em uma cadeira que é classificada como acervo, você certamente estaria quebrando uma regra indiscutível de qualquer museu e refuta o meu argumento anterior… Você não poderia sentar na cadeira, proibido exatamente de usar aquele objeto da forma para qual foi intencionalmente produzida. Mas é claro, isso ocorre por motivos de garantia da integridade do objeto. Porém, o objeto deixa de poder ser utilizado como foi intencionalmente concebido? Não! Ele ainda é um objeto que serve de assento, agora com uma nova camada de significados adicionadas à sua condição de existência.
O professor Bruno Brulon explica que a musealização, ou o ato de integração e interpretação de acervos, não relega o contexto social do objeto, mesmo que dentro de um contexto específico (exposição, pesquisa, etc), o objeto não deixa de possuir suas funções e significados anteriormente produzidos à sua musealização.
A instituição museal não pode, e nem deve, restringir o valor simbólico ou de uso de um objeto musealizado, pois para que aconteça a sua escolha enquanto algo relevante cultural e socialmente, a sua função e significados foram considerados importantes o suficiente para ser preservados.
É importante também estabelecer que museus são ambientes políticos e de escolhas políticas. É selecionado, dentro de alguns critérios, por vezes arbitrários, o que pode ser preservado e pesquisado. Isso acontece com intuito de enaltecer alguma classe específica e seus produtos culturais específicos. Portanto, se há escolha de quem entra em acervo, há também escolha de quem não entra em acervo. Seria equivocado dizer, levando em conta esse fato, de que museus são ambientes neutros e que prestam serviço a todos os grupos sociais. Na verdade, os museus, desde a sua origem colonial, possuem objetivos de celebração ideológica, como afirma o prof. Mário Chagas. Ou seja, são legitimados a partir de uma comunidade em específico, não representantes de uma totalidade, e estabelecem que seus produtos culturais merecem legitimação e são culturalmente importantes.
E não que não seja o caso, mas seria falho o pensamento de que museus são isentos de ideologia e estão à serviço de toda uma comunidade social. Trago mais um exemplo, explorado de forma poética e potente pelas pesquisadoras Joseania Miranda Freitas e Lysie dos Reis Oliveira no artigo de 2020.
Na ocasião, as autoras escrevem, na perspectiva de um tamborete de baiana, como seria a experiência de um objeto musealizado que não é escutado, ou mesmo que seja, é silenciado em plena vista. O caso aconteceu no Museu de Arte da Bahia (MAB), em Salvador, e o referido objeto foi exposto ao lado de uma espreguiçadeira em 2019. Avaliando o contexto, entenderia-se que o tamborete faria parte de algum tipo de conjunto de móveis decorativos ou de uso para o repouso dos pés de alguém que deita-se à espreguiçadeira.
Na realidade, o tamborete de baiana é um utensílio de trabalho das baianas do acarajé do séc. XIX. Enquanto cozinheiras e vendedoras da comida típica da Bahia, elas utilizavam o tamborete como assento nos intervalos entre uma venda e outra. Freitas e Oliveira revelam no artigo que, segundo a documentação realizada pelo diretor do MAB em 1948, o objeto foi descrito por sua exata função: instrumento de trabalho de vendedoras em tabuleiros. O mesmo aconteceu em exposições anteriores, o tamborete foi retratado a partir da sua função social verídica. Porém, na exposição de 2019, faria mais sentido retratá-lo enquanto um objeto decorativo em conjunto com a espreguiçadeira.
Quem é da museologia sabe, e agora eu compartilho com vocês, que para existir a lembrança, existe a escolha sempre consciente de esquecer alguma coisa. Lembramo-nos de acontecimentos e sentimentos se assim nos é preferível, porém, até aí, a consequência dos esquecimentos também se materializam em atitudes e palavras. Por mais que a memória possa ser esquecida, suas manifestações tão aí para quem consegue e intenciona enxergá-las.
O mesmo acontece com os objetos de museus. Nem sempre estão veridicamente conceitualizados ou atuando a partir de uma função que lhe foi anteriormente designada. O objeto musealizado é múltiplo em sentidos e símbolos.








