Orgulho LGBTQIAPN+ em 2026

Como o clima político desfavorece o mês do orgulho e porque ele ainda deve ser celebrado, apesar do contexto

Fonte: Arquivo Histórico Parada do Orgulho 1997, São Paulo / Instagram (@localdefalaoficial)

 

O mês de junho é o mês do orgulho LGBTQIAPN+. É o mês de celebrar a identidade cultural da comunidade e as históricas lutas por direitos civis. Porém, em 2026, falar sobre o mês do orgulho parece mais arriscado em termos de clima político do que nos anos anteriores. 

A extrema-direita vem se consolidando cada vez mais no Congresso Nacional. Como eu acredito que as lutas de classes são interseccionais, o exemplo mais claro que eu consigo destacar é a recente aprovação da proibição da escala 6 x 1. A parlamentar Erika Hilton (Partido dos Trabalhadores - PT) e o parlamentar Reginaldo Lopes (PT) propõem uma emenda à Constituição Nacional que prevê uma jornada semanal máxima de 5 dias, totalizando 40 horas por trabalhador. Mesmo com a aprovação, em maio de 2026, o texto foi discutido em diversas sessões parlamentares e tentativas à não aprovação do projeto quase o impediram de seguir tramitando.

Eu trago esse exemplo para afirmar que a luta de classes, e seus respectivos recortes, estão sofrendo tentativa de silenciamento. Em 2023, foram 16 marcas patrocinadoras da principal Parada LGBT do mundo, em São Paulo. Esse ano o número foi reduzido para 10. Se antes as marcas adotavam estéticas coloridas e o diálogo sobre a inclusão de diversos corpos trabalhadores das suas empresas, hoje, o que resta é silêncio sobre a comunidade e o mês que deveria celebrar a sua existência.

O que acontece é que esse clima de segregação ideológica é mundial, e infelizmente, atinge movimentos sociais de dentro da comunidade, gerando radicalização e conflitos de interesses. 2025 foi marcado, dentro das pautas de diversidade de gênero e sexualidade, com a propagação de uma ideia de comunidade LGB sem a inserção da letra T, omitindo a presença de pessoas transgênero e travesti das disputas políticas sobre identidade.

Eu acho a questão toda patética porque não existe comunidade LGBTQIAPN+, muito menos a história das conquistas por direitos civis, se não fosse a comunidade trans à frente dessa luta. A revolução de Stonewall, ocorrida em junho de 1969 em Nova York, aconteceu somente por conta das pessoas queer presentes no bar localizado na área central da cidade.

Para motivos de contexto, o local era conhecido por sediar eventos da comunidade e era majoritariamente frequentado por gays, lésbicas e travestis. A violência policial era tão grande em locais como esse que, em 28 de junho, as pessoas frequentadoras do bar não se submeteram às censuras exigidas e entraram em conflito direto com a força de guarda civil. A ação durou aproximadamente 6 dias e possuiu dois nomes de destaque como porta-vozes da resistência: Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, duas mulheres transgênero.

É importante destacar também que o termo queer foi um termo usado como ofensa para pessoas de gênero e sexualidades dissidentes. Hoje é usado para designar essas mesmas pessoas, mas agora o significado do seu uso é de resistência. Na comunidade acadêmica brasileira, o termo é muitas vezes mal-visto, mas não por conta da sua trajetória e novos significados embutidos, mas sim porque é uma expressão norte-americana e que caracteriza as particularidades da comunidade estadunidense. No Brasil, o termo cuir foi designado para se referir a essas pessoas localizadas em território brasileiro.

Mas enfim, no Brasil, a época da ditadura civil-militar foi um momento também de ascensão de grupos contrários às normas higienistas de normatização de expressões de gênero e sexualidades. Contudo, esses mesmos grupos recusaram a participação e envolvimentos de pessoas transgênero e travestis. O Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas, liderado por integrantes do Movimento Homossexual Brasileiro, não contou com quaisquer lideranças de movimentos trans, segundo relata Jovanna Baby Cardoso da Silva, fundadora da Associação Damas da Noite e, mais tarde, da Associação de Travestis e Liberados (ASTRAL).

Nomes como o de Jovanna Baby, Elza Lobão, Josy Silva, Beatriz Senegal, Monique do Bavieur e Claudia Pierry France, de maioria negras, analfabetas e prostitutas são ativistas essenciais para o reconhecimento da legitimidade da comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil enquanto recorte de cidadãos que também usufruem de direitos civis e respeito. Seus nomes nos lembram que as pautas jamais podem estar separadas porque somos todos designados por marcadores sociais distintos, por vezes em comum, por vezes diferentes.

A parada LGBTQIAPN+ deveria ser o momento de celebração da identidade dissidente e contínua luta por direitos e igualdade, mas se mostra, a cada ano mais, palanque para tentativa de benefício político por parte das empresas que uma vez quiseram se associar à comunidade. O deputado estadual de São Paulo, Guilherme Cortez, fez uma postagem nas suas redes sociais no dia 05 de junho citando o dado que eu trouxe anteriormente sobre a redução de empresas patrocinadoras do evento. Burguer King, Avon e Sephora são alguns dos nomes interessados em pink money (quando a empresa alia-se à causa LGBT apenas visando lucro, sem qualquer ação política em prol da comunidade realizada), relata o parlamentar.

Como se não bastasse a diminuição de incentivo financeiro, o projeto do parlamentar Rubinho Nunes (União Brasil) foi aprovado, já na sua primeira votação, e proíbe a participação de crianças e menores de idade na parada. A mensagem é clara. Construir uma imagem de que a comunidade e suas celebrações são impróprias e indecentes. É a partir desse tipo de ação que se constrói no imaginário coletivo a ideia de que pessoas LGBTQIAPN+ são, de fato, diferentes. Marginalizadas (!) da sociedade tradicional e de costumes (colonialmente) estabelecidos.

É apesar desses atos de boicote e injustiça social que o orgulho LGBT permanece existindo. Não é em 2026 que ficaremos chocados em saber que o Estado, e até mesmo membros da comunidade, querem ver nossa cultura e nossas identidades cerceadas. Aconteceu em 1969 e acontece em 2026. A estrutura colonial continua impregnada nas nossas relações sociais. O que também não é recente é a contínua luta por permanência, em discurso e em ações políticas.

Poderia ser o caso de que estivéssemos avançando nas discussões sobre a pauta e, nos últimos dois anos, uma saturação sobre o assunto se instaurou. Mesmo Caetano Veloso, reconhecidamente defensor da visibilidade de comunidades marginalizadas afirma, em pleno 2026, que  “há um excesso de racialização, sexualização e ênfase nas questões de gênero”. Bom, querendo Caetano ou não, proibindo a participação de crianças na parada ou não, ocorrendo o boicote de marcas patrocinadoras ou não, o orgulho continuará sendo força motriz pela luta por direitos.

Quem sabe o clima esteja diferente daqui a dois anos. Talvez a parada de 2028 quebre o recorde de número de patrocínios e Caetano talvez reveja que, para opinar sobre o que é discussão excessiva, ele precisa entender como esse discurso chega no ouvido das pessoas em plena época de extrema polarização política. E o discurso chega como combustível para retórica LGBTfóbica do que qualquer outra coisa.

Dito tudo isso, me orgulho da luta de Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera, Jovanna Baby, Elza Lobão, Josy Silva, Beatriz Senegal, Monique do Bavieur e Claudia Pierry France. Orgulho-me de fazer parte da comunidade LGB sempre com o T incluso. Orgulho-me de construir um futuro esperançoso e vivo o presente relembrando sempre do passado que veio antes de mim e que me possibilita publicar um texto como esse.


Lucas Eduardo

Graduado em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lucas tem experiências acadêmicas em pesquisa em arquivos de museus, especialmente em Museus de Arte, participando como bolsista de iniciação científica. Atuou na área de Documentação Museológica como estagiário do Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_BA) e Museu de Arte Sacra da UFBA (MAS) e também como Educador Museal na exposição itinerante Armorial 50, ocorrida entre julho e outubro de 2024 no Museu de Arte da Bahia (MAB). Durante o período de graduação, participou de cursos e grupos de pesquisa sobre o campo das Artes Visuais, Memória LGBTQIAPN+ e Gênero.

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