Nem tudo que é legal é moral
Você aceitaria ser representado por alguém que praticamente nunca morou no seu estado? Com essa pergunta, o delegado da Polícia Civil de Roraima, Bruno Gabriel Bezerra, começou mais um dos seus vídeos publicados no Instagram. O que motivou o post foi o fato de o deputado federal pelo Rio de Janeiro, Hélio Lopes, mais conhecido como Hélio Negão (PL) ter transferido o seu título de eleitor para Roraima e ter anunciado que disputará uma vaga ao Senado pelo estado.
O delegado, detentor do saber jurídico que o cargo lhe exige, esclareceu que não há ilegalidade na manobra, mas apesar disso, junto aos muitos comentários positivos, houve também vários negativos. E assim, uma análise técnica e crítica foi vista por algumas pessoas como um ataque pessoal ao deputado, evidenciando, mais uma vez, a incapacidade de interpretação de parte da população, quando o assunto é a política de representação. Teve até um seguidor questionando a naturalidade do delegado, que é cearense e atua em Roraima. Esse é um daqueles casos em que nos perguntamos se quem escreve é ignorante ou intelectualmente desonesto, já que o delegado é um servidor público concursado, enquanto um deputado ou um senador exerce uma função pública de uma maneira totalmente diferente.
No campo progressista, as candidaturas de Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) ao Senado, por São Paulo, também geraram certa polêmica.
As duas ex-ministras do governo Lula são favoritas, de acordo com a pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 29 de julho.
Enquanto Simone Tebet construiu sua vida pública no Mato Grosso do Sul, onde nasceu e foi deputada, prefeita da cidade de Três Lagoas, vice- governadora e senadora, Marina Silva construiu a maior parte da sua carreira no Acre, onde foi vereadora de Rio Branco, deputada estadual e senadora. Há, no entanto, no caso das duas candidatas, como muitos apoiadores defendem, conhecimento da realidade do estado mais importante do país. Marina Silva foi, inclusive, eleita deputada federal por São Paulo em 2022.
E o que dizer do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos)? Ele iniciou sua trajetória pública como analista de finanças e controle, na CGU (Controladoria-Geral da União), foi diretor executivo e depois diretor-geral do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte), no governo Dilma Rousseff, em 2019 foi nomeado ministro da infraestrutura no governo Bolsonaro e em 2022, mesmo debaixo de muitas críticas por ser carioca, ter vivido parte da vida em Brasília, e, às vésperas da eleição, durante uma entrevista, ter se atrapalhado para responder onde seria o seu local de votação na capital paulista, tornou-se governador, derrotando o paulistano Fernando Haddad (PT).
Em questões tão sérias como a escolha dos nossos representantes, muitos fatores precisam ser observados. Para mim, competência, compromisso e experiência sempre foram os principais critérios. Nunca me importou muito o fato de o candidato ter nascido ou não na minha cidade ou no meu estado, mas há uma diferença enorme entre não ser natural de um lugar e não saber nada sobre ele. Se um candidato escolhe disputar uma eleição por um estado com o qual não possui vínculo, desconhecendo a sua gente, a sua cultura, certamente não o faz por amor à boa política, com intenções de melhorar a vida daquele povo. Que saibamos identificar os oportunistas, pois legalidade e moralidade nem sempre andam juntas!



