A democracia não caiu do céu. Foi conquistada por quem se recusou a desistir do Brasil

Nasci em um país dominado por uma ditadura militar. Naquele tempo, direitos eram limitados, vozes eram silenciadas e pessoas eram perseguidas por discordar dos objetivos de um regime que não admitia ser questionado. Mas eu só comecei a compreender a dimensão daquela realidade quando, ainda adolescente, passei a perceber que havia algo profundamente errado. Não era normal viver em um país onde tínhamos tantas obrigações e tão poucos direitos. Não era normal ter medo de perguntar, de discordar, de pensar diferente.

Cresci ouvindo histórias absurdas sobre aqueles que se opunham à ditadura. Mentiras repetidas tantas vezes que acabavam sendo aceitas como verdades por muita gente. Havia quem acreditasse que comunistas percorriam as ruas em uma Kombi para sequestrar crianças e idosos e transformá-los em sabão. Sim, essa era uma das histórias que circulavam e assustavam famílias inteiras. Também nos diziam que os opositores queriam transformar o Brasil em uma União Soviética, embora a maioria de nós pouco soubesse sobre o que realmente acontecia do outro lado da chamada Cortina de Ferro.

A informação não circulava como hoje. A televisão, o rádio e os jornais estavam sujeitos a diferentes formas de censura, pressão e controle. O que não podia ser divulgado desaparecia das notícias. E o que precisava ser escondido era, muitas vezes, substituído por versões convenientes aos interesses de quem estava no poder.

Enquanto isso, pessoas desapareciam. Famílias passavam anos sem saber o destino de seus parentes. Mortes eram encobertas, denúncias de tortura eram abafadas e acusações eram utilizadas para perseguir adversários políticos. A violência de agentes do Estado era escondida por trás de versões oficiais que tentavam transformar vítimas em culpados.

Que tempos difíceis! Tempos em que a mentira servia para alimentar o medo, o medo para justificar a repressão e a repressão para manter o poder.

Foi nesse ambiente que comecei a compreender, aos poucos, uma lição que carrego comigo até hoje: quando um governo precisa silenciar a sociedade para se manter no poder, não é a sociedade que está errada por querer falar.

Mas nenhum regime consegue aprisionar para sempre a consciência de um povo.

Aos poucos, o Brasil começou a despertar. Trabalhadores, estudantes, artistas, intelectuais, lideranças políticas, movimentos sociais e cidadãos comuns passaram a se organizar. As ruas, antes marcadas pelo medo, foram ocupadas por gente que já não aceitava viver sem o direito de escolher o próprio destino.

A mobilização cresceu. A esperança ganhou voz. E o grito das Diretas Já ecoou pelo país.

Eu vi aquele movimento se transformar em um dos capítulos mais importantes da nossa história. A pressão popular mostrou que a democracia não é um presente concedido por quem governa. É uma conquista coletiva, construída com coragem, persistência e sacrifício.

As eleições diretas para presidente não foram restabelecidas imediatamente, como queríamos. Tancredo Neves foi eleito indiretamente em 1985, mas morreu antes de tomar posse. A frustração foi enorme. Eu esperava que ele pudesse conduzir o país no caminho da redemocratização. Sua morte interrompeu aquele sonho antes mesmo de ele começar a governar.

Ainda assim, a história não parou. A democracia avançou, a Constituição de 1988 consolidou direitos fundamentais e, em 1989, finalmente voltamos às urnas para escolher diretamente o presidente da República.

Foi ali que minha história pessoal com o voto ganhou um significado ainda mais profundo.

Conheci a trajetória de um metalúrgico nordestino que deixou sua terra natal em busca de melhores condições de vida, foi para São Paulo, tornou-se liderança sindical e decidiu disputar a Presidência da República. Seu nome era Luiz Inácio Lula da Silva.

Confesso que, naquele começo, não sabia se ele acreditava realmente que poderia vencer ou se sua candidatura também serviria para ampliar a voz dos trabalhadores e construir uma alternativa política para o país. O que me chamou a atenção foi a maneira firme com que defendia suas ideias, a seriedade com que tratava as questões sociais e a disposição de enfrentar estruturas de poder que pareciam intocáveis.

Vi naquele trabalhador alguém que representava também os meus anseios. Alguém que falava de um Brasil em que a origem social não determinasse o destino de uma pessoa, em que a fome não fosse tratada como algo natural e em que o trabalhador tivesse direito a sonhar com uma vida melhor.

Desde 1989, meu voto passou a ter uma história.

Votei em Lula em 1989 e, depois, nas disputas presidenciais de 1994, 2002 e 2006. Em 2010, votei em Dilma Rousseff, a mulher que ele apoiou para sucedê-lo e que tive a honra de escolher novamente em 2014. Em 2018, votei em Fernando Haddad, diante de uma eleição marcada pela ausência de Lula da disputa, depois de sua prisão e de sua inelegibilidade naquele pleito. Em 2022, pude voltar a digitar o número 13 e acompanhar, pela tela da urna, a confirmação de um voto que carregava muito mais do que uma preferência partidária: carregava uma história de esperança.

Não conto essa trajetória para afirmar que um político esteja acima de críticas. Nenhum governante está. A democracia exige fiscalização, transparência, cobrança e responsabilidade. Apoiar alguém não significa fechar os olhos para os erros, assim como discordar de alguém não transforma ninguém em inimigo.

Conto porque, para mim, o voto nunca foi apenas o cumprimento de uma obrigação eleitoral. É a possibilidade de participar da construção do país em que quero viver. É a lembrança de que houve um tempo em que essa escolha nos foi negada e de que muita gente lutou para que pudéssemos recuperá-la.

Ao longo dos anos, reconheci avanços sociais e econômicos nos governos que apoiei, especialmente nas políticas voltadas à redução da pobreza, à ampliação de oportunidades e à inclusão de pessoas historicamente marginalizadas. Também testemunhei crises, conflitos e retrocessos. A história brasileira não é uma linha reta de conquistas, e nenhum projeto político está livre de contradições.

O impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e os acontecimentos que se seguiram aprofundaram divisões que já existiam no país. A intolerância ganhou espaço, o debate público se tornou mais agressivo e diferenças políticas passaram, muitas vezes, a ser tratadas como razões para o ódio. O Brasil se transformou em um ambiente de tensão, no qual tantas pessoas passaram a enxergar adversários políticos como inimigos a serem destruídos.

Isso me preocupa profundamente. Não porque todos precisem pensar da mesma maneira, mas justamente porque a democracia depende do direito de pensar diferente.

Uma nação não se fortalece quando seus cidadãos se odeiam. Não se torna mais justa quando a mentira substitui os fatos. Não avança quando a violência ocupa o lugar do diálogo e quando o respeito às instituições depende de quem venceu a eleição.

Democracia não é apenas poder votar. É poder votar, discordar, fiscalizar, protestar, cobrar e continuar vivendo com liberdade depois que as urnas são apuradas.

É também compreender que nenhum presidente é dono do país, que nenhuma corrente política tem o direito de eliminar as outras e que o poder pertence ao povo, dentro das regras estabelecidas pela Constituição.

É por isso que continuo acreditando na importância da participação popular. Não podemos permitir que o cansaço, o desencanto ou a desinformação nos afastem das decisões que determinam o futuro de milhões de brasileiros. A democracia não sobrevive apenas porque está escrita na Constituição. Ela precisa ser defendida diariamente, inclusive quando os resultados eleitorais não correspondem às nossas expectativas.

Como cidadão, jornalista e professor, aprendi que a informação é uma ferramenta de liberdade. A acredito que as palavras podem ajudar a preservar a memória. E, como alguém que viveu a transição de um país sem eleições presidenciais diretas para uma democracia em que podemos escolher nossos governantes, sei que a liberdade política tem um valor que não pode ser medido apenas pelos resultados de uma gestão.

É preciso lembrar o passado para não permitir que suas páginas mais sombrias sejam apagadas ou romantizadas. É preciso mostrar às novas gerações que a ditadura não foi um tempo de liberdade, que a censura não foi um detalhe e que a tortura não pode ser relativizada por conveniências políticas. Conhecer a história é uma forma de proteger o futuro.

Hoje, continuo vendo em Lula um líder político que representa o projeto de Brasil no qual acredito. Considero sua trajetória e sua experiência elementos importantes para enfrentar os desafios nacionais, combater a fome, ampliar oportunidades e reduzir desigualdades. Tenho minhas convicções e não tenho vergonha de defendê-las. Mas sei que a força de uma democracia não está na unanimidade, e sim na capacidade de convivermos com nossas diferenças sem abrir mão dos direitos de ninguém.

É com essa convicção que expresso meu desejo de ver Lula continuar conduzindo o país, caso essa seja a decisão soberana dos eleitores, manifestada nas urnas e respeitada por todos. Quero um Brasil que avance na justiça social, que respeite as instituições democráticas, que combata a pobreza e que não abandone aqueles que mais precisam da presença do Estado.

Quero um país em que uma criança não tenha seu futuro condenado pela pobreza em que nasceu. Em que a pessoa com deficiência encontre oportunidades, acessibilidade e respeito. Em que o trabalhador possa viver com dignidade. Em que a educação abra portas, a ciência seja valorizada e a liberdade de imprensa seja protegida. Um Brasil em que ninguém precise esconder suas convicções por medo de perseguição.

É esse país que me faz continuar acreditando.

E é por isso que meu voto tem história, tem memória e tem convicção.

Aos que pensam diferente de mim, deixo um convite à reflexão. Não peço que abandonem suas opiniões nem que concordem com todas as minhas escolhas. Peço apenas que não permitamos que nossas divergências destruam aquilo que temos de mais precioso: o direito de decidir livremente os rumos do Brasil.

Aos mais jovens, digo que não considerem a democracia uma herança garantida para sempre. Aos mais velhos, peço que não esqueçam o preço que já pagamos pela ausência de liberdade. E a todos nós, deixo uma responsabilidade: não entregar o futuro à mentira, ao ódio ou à indiferença.

O voto é individual, mas suas consequências alcançam toda a sociedade. Por isso, cada eleição exige consciência, informação e compromisso com o país que desejamos construir.

Tenho orgulho da minha trajetória política, das escolhas que fiz e da liberdade de poder declará-las publicamente. Tenho orgulho de poder defender minhas ideias sem precisar pedir autorização a um governo. E tenho esperança de que o Brasil continue avançando, corrigindo seus erros e ampliando os direitos conquistados.

Se há algo que aprendi desde aqueles anos sombrios da ditadura é que a esperança não pode ser confundida com passividade. Esperar por um futuro melhor também significa trabalhar por ele, cobrar de quem governa, defender as instituições e não abandonar a luta quando os obstáculos aparecem.

A democracia precisa de cidadãos atentos, não de espectadores. Precisa de pessoas dispostas a defender seus direitos e, principalmente, os direitos daqueles que pensam de maneira diferente.

Não arrefeçamos a luta. Não esqueçamos a história. Não tratemos a liberdade como algo banal.

Que cada voto seja dado com consciência, que cada escolha respeite a democracia e que o resultado das urnas seja acolhido dentro das regras democráticas.

Quanto a mim, sigo com minhas convicções. Sigo acreditando na possibilidade de um Brasil mais justo, menos desigual e mais humano. Sigo defendendo o direito de escolhermos nossos representantes e de substituí-los quando assim decidirmos, sem ameaças, sem golpes e sem violência.

E sigo agradecido por viver em um tempo no qual posso expressar publicamente minhas escolhas, defender minhas ideias e alimentar a esperança de um futuro melhor.

Porque a democracia não é obra de um único homem, de um partido ou de uma geração. É uma construção coletiva, feita por milhões de brasileiros que se recusam a aceitar que o destino do país seja decidido sem a participação do seu povo.

O Brasil pertence aos brasileiros. A soberania pertence ao povo. E a democracia, para continuar viva, precisa de todos nós.


Júnior Patente

Júnior Patente, profissional de comunicação desde 1984 em Rádio, Jornal, TV, Assessoria de Comunicação e Internet, professor de Geografia. Pai atípico, tem como meta hoje trabalhar pela inclusão.
Instagram: @junior_patente
Site: www.portalincluir.com.br

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