Cristo de Mário Cravo: um patrimônio que precisa voltar a iluminar Vitória da Conquista

Durante muitos anos, quem subia a Serra do Periperi para contemplar Vitória da Conquista encontrava um cenário simples, improvisado e, muitas vezes, perigoso. O acesso era feito por vias de terra e o ponto de observação ficava praticamente à beira de uma ribanceira, em um terreno escorregadio, onde moradores e visitantes se arriscavam para ter alguns dos mais belos ângulos da cidade.

Agora, o cenário mudou.

A reforma do espaço do Cristo de Mário Cravo trouxe uma nova estrutura para um dos lugares mais simbólicos de Vitória da Conquista. O antigo espaço de terra deu lugar a uma área organizada, com portal, piso e estrutura preparada para receber famílias, turistas, grupos religiosos, estudantes e todos aqueles que sobem a serra em busca de uma vista privilegiada da cidade.

É um daqueles lugares em que a paisagem fala por si.

Lá do alto, Vitória da Conquista se espalha diante dos olhos. As ruas, os bairros, as luzes e o movimento da cidade ganham outra dimensão. Para quem nasceu aqui, é também uma oportunidade de olhar para a própria história. Para quem chega de fora, é uma das maneiras mais bonitas de conhecer Conquista.

Mas justamente quando esse espaço começa a ganhar uma nova vida, alguns problemas já precisam ser observados.

O primeiro deles está na iluminação.

À noite, o Cristo praticamente desaparece para quem olha para a Serra do Periperi a partir da cidade. O monumento, que poderia ser uma referência luminosa no horizonte de Vitória da Conquista, acaba escondido pela escuridão.

É uma contradição difícil de ignorar.

O Cristo está lá, no alto da serra, como sempre esteve. Mas, quando chega a noite, deixa de ser visto por grande parte da população.

E não se trata apenas de iluminação ornamental. O Cristo de Mário Cravo recentemente passou a ser reconhecido pelo município como Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e Paisagístico de Vitória da Conquista. É uma obra que pertence à memória da cidade e que deveria ocupar um lugar de destaque também na paisagem noturna.

Iluminar o monumento seria, nesse sentido, mais do que colocar luz sobre uma estrutura. Seria devolver visibilidade a um dos símbolos de Conquista.

Há ainda outro problema, talvez mais preocupante.

A nova estrutura foi construída para que as pessoas possam caminhar, permanecer no local e contemplar a cidade com segurança. No entanto, já existem registros de veículos sendo colocados sobre o tablado destinado aos visitantes.

O espaço que deveria receber famílias, crianças, idosos, turistas e grupos de visitantes começa a ser utilizado para uma finalidade completamente diferente.

Além de desvirtuar a função do equipamento, a presença de veículos pode provocar danos à estrutura recém-reformada e criar situações de risco.

É preciso preservar aquilo que acabou de ser construído.

A beleza de um lugar público não está apenas na obra entregue. Está também na capacidade de a cidade cuidar dela depois que as máquinas vão embora e as placas de inauguração deixam de ser novidade.

Por isso, a fiscalização se torna fundamental.

Nos períodos de maior movimento, especialmente quando grupos religiosos, turistas e estudantes visitam o local, a presença da Guarda Municipal poderia contribuir para organizar o espaço, orientar os visitantes e impedir práticas que possam comprometer a estrutura ou colocar pessoas em perigo.

O Cristo já começa a despertar esse interesse.

Grupos de igrejas, visitantes e pessoas ligadas a atividades e cursos de turismo, inclusive do Senac, têm procurado o local para conhecer a paisagem e enxergar Vitória da Conquista de uma perspectiva diferente.

É justamente esse movimento que mostra o potencial do espaço.

O Cristo de Mário Cravo pode ser muito mais do que um ponto para tirar fotografias. Pode ser um lugar de encontro, contemplação, turismo, cultura e memória. Pode receber quem chega à cidade e também quem vive aqui há décadas, mas talvez nunca tenha parado para olhar Conquista daquela maneira.

Para isso, entretanto, será preciso cuidar.

Cuidar da iluminação.
Cuidar da estrutura.
Cuidar da segurança.
Cuidar da fiscalização.
E, sobretudo, cuidar do patrimônio.

Também cabe à população entender que um espaço público pertence a todos. Preservá-lo significa respeitar o direito do outro de utilizá-lo.

O Cristo de Mário Cravo está no alto da Serra do Periperi há décadas, testemunhando o crescimento e as transformações de Vitória da Conquista.

Agora que o espaço ao seu redor ganhou uma nova estrutura, existe uma oportunidade de fazer com que aquele lugar volte a ocupar o espaço que merece na vida da cidade.

Que o Cristo possa ser visto de longe durante o dia.

E que também possa ser visto à noite.

Que seja contemplado, fotografado, visitado e respeitado.

Porque preservar o Cristo não é apenas preservar uma obra de arte.

É preservar um pedaço da memória e da paisagem de Vitória da Conquista.


Júnior Patente

Júnior Patente, profissional de comunicação desde 1984 em Rádio, Jornal, TV, Assessoria de Comunicação e Internet, professor de Geografia. Pai atípico, tem como meta hoje trabalhar pela inclusão.
Instagram: @junior_patente
Site: www.portalincluir.com.br

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