Corrida de rua ganha força em Vitória da Conquista e transforma a cidade em palco de esporte, saúde e superação

De grupos que reuniam poucas dezenas de corredores às assessorias esportivas e provas que atraem atletas de diferentes regiões, modalidade vive uma nova fase no município

Tayrone, Junior Patente e Fábio
  • Júnior Patente
  • Atualizado: 14/08/2026, 06:06h

A corrida de rua mudou de tamanho em Vitória da Conquista. Se no passado reunir 40 ou 50 corredores para uma prova já era considerado um grande acontecimento, hoje a cidade conta com assessorias esportivas, organizadores especializados, diferentes formatos de competição e atletas conquistenses participando de provas dentro e fora do país.

A transformação foi contada no Giro Esportivo, da Mega Rádio, em entrevista com Fábio Oliveira, que acompanha a história da modalidade na cidade, e Tayrone Andrade, responsável pela Team Andrade.

Fábio Oliveira lembra que entrou no universo da corrida no início dos anos 2000, quando ainda morava em São Paulo. Ao retornar para Vitória da Conquista, encontrou uma comunidade de corredores que já começava a se organizar em torno da modalidade. Naquele período, a realidade era muito diferente da atual.

Segundo Fábio, provas com 40 ou 50 participantes eram consideradas grandes. A organização ainda era predominantemente feita por grupos de corredores, com estruturas simples e poucos recursos. A Corisco, citada na entrevista, teve papel importante nesse período, com um circuito que chegou a promover cerca de 12 corridas ao longo do ano.

Com o tempo, esse cenário começou a mudar. A organização das provas ganhou novos formatos e profissionais passaram a atuar diretamente na preparação dos corredores.

Um dos momentos lembrados na entrevista foi a atuação de Allen, que, segundo Fábio, ajudou a modificar a maneira de organizar as corridas na cidade. A realização de eventos na região da Olívia Flores trouxe uma estrutura diferente e contribuiu para ampliar a participação e atrair corredores de outras localidades.

A corrida deixou de ser apenas competição

A evolução não ocorreu somente nas provas. O crescimento das assessorias esportivas mudou também a maneira como os conquistenses treinam.

Tayrone Andrade está há 11 anos à frente da Team Andrade. Ele iniciou o trabalho com corrida em 2013 e, em 2015, criou a própria assessoria. Em 2026, o grupo completou 11 anos de atividades e promoveu uma corrida comemorativa.

Para o treinador, a profissionalização trouxe mais planejamento para uma atividade que provoca impacto repetitivo sobre o corpo.

O treinamento passou a considerar volume, intensidade, fortalecimento muscular, condicionamento físico e, principalmente, a individualidade de cada corredor. Um grupo pode reunir dezenas ou centenas de pessoas, mas isso não significa que todos devam realizar o mesmo treinamento.

A orientação profissional também ganhou importância para quem está começando.

Na entrevista, foi destacado que o iniciante não deve simplesmente comprar um tênis e sair correndo sem planejamento. A avaliação das condições físicas, a definição de objetivos e a elaboração de um treinamento adequado são etapas importantes para uma prática mais segura.

A corrida também passou a envolver outros profissionais. Nutrição, hidratação e fortalecimento aparecem como componentes complementares da preparação dos atletas.

De poucos corredores a uma comunidade

O crescimento das assessorias criou também uma nova dimensão social para a corrida em Vitória da Conquista.

Os grupos passaram a reunir centenas de pessoas de diferentes idades e perfis. Para além do treinamento, surgiram vínculos de amizade, incentivo e convivência.

Na entrevista, os convidados destacaram justamente essa característica. A corrida pode começar como uma busca individual por saúde ou condicionamento e, rapidamente, transformar-se em uma experiência coletiva.

Existe ainda o componente psicológico da modalidade. Durante a conversa, os participantes relataram a sensação de dificuldade nos primeiros quilômetros e, depois, a satisfação de perceber o corpo adaptando-se ao esforço e alcançar uma meta estabelecida.

Vitória da Conquista ganhou calendário diversificado

A cidade também passou a receber provas com diferentes propostas.

Na entrevista foram citadas competições como a Meia Maratona do Sertão, a Meia Maratona de Vitória da Conquista, além de corridas temáticas e eventos que combinam corrida com outras modalidades esportivas.

Também foram lembradas provas realizadas em áreas rurais e eventos com características festivas, como uma corrida associada ao forró. A variedade de formatos mostra que a corrida de rua deixou de depender de um único modelo de competição.

Esse calendário ajuda a criar objetivos para diferentes tipos de corredores. Para alguns, a meta é completar 5 ou 10 quilômetros. Outros buscam uma meia maratona. Há ainda conquistenses que passaram a disputar maratonas e provas de maior dificuldade em diferentes partes do Brasil e no exterior.

Segundo os participantes do programa, atletas da cidade já aparecem em competições nacionais e internacionais, levando para outros lugares a experiência construída nos treinos realizados em Vitória da Conquista.

A pandemia interrompeu o ritmo, mas não a corrida

Como ocorreu com praticamente todas as modalidades esportivas, a pandemia de Covid-19 provocou uma interrupção importante.

Na Team Andrade, por exemplo, o centro de treinamento ficou parado durante quatro meses. O retorno ocorreu de forma gradual, enquanto as corridas presenciais estavam suspensas.

Foi nesse período que surgiram alternativas como as corridas virtuais. Os participantes recebiam um percurso ou uma distância e realizavam a atividade individualmente, utilizando aplicativos e relógios esportivos para registrar o desempenho.

A experiência ajudou a manter parte dos corredores ligados à modalidade durante o período de restrições.

Depois da retomada das atividades presenciais, os convidados perceberam uma aceleração no movimento da corrida. A sensação relatada foi de que muitos praticantes voltaram às ruas com ainda mais disposição para treinar e participar de provas.

Uma cidade que também produz corredores

Vitória da Conquista não aparece apenas como sede de provas. A cidade também possui uma história de formação de atletas.

Durante a entrevista, Fábio e Tayrone lembraram nomes que fizeram parte dessa trajetória, entre eles Florindo e Luiz Cláudio, citado como uma referência viva da corrida local. Também foi lembrado o atleta Leandro, que teve passagem pelo alto rendimento e chegou a conquistar título continental.

Essa memória ajuda a explicar outro aspecto do crescimento da modalidade: corredores de diferentes gerações passaram a servir de referência para quem está começando.

O atleta que disputa uma prova nacional ou uma maratona internacional acaba se tornando inspiração para quem ainda está dando os primeiros passos.

Mais do que correr

Ao final da conversa no Giro Esportivo, uma ideia ficou evidente: a corrida de rua em Vitória da Conquista não pode ser analisada apenas pelo número de provas ou pela quantidade de participantes.

Ela representa uma transformação cultural na maneira como parte da população se relaciona com o esporte.

Há quem corra para competir. Há quem busque saúde. Há quem queira completar uma distância que parecia impossível. E há quem tenha começado caminhando e, algum tempo depois, descoberto que também poderia correr.

A história contada por Fábio Oliveira e Tayrone Andrade mostra uma modalidade que saiu de grupos pequenos, passou pela organização comunitária, ganhou profissionais, assessorias e eventos estruturados e chegou a um cenário em que corredores conquistenses passaram a mirar provas cada vez maiores.

A corrida também ensinou que o resultado não está necessariamente na medalha.

Às vezes, está no primeiro quilômetro. Depois, nos cinco. Nos dez. Na primeira meia maratona. Na primeira viagem para competir.

E, em uma cidade que já construiu uma história própria dentro da modalidade, cada novo corredor que coloca o tênis e ganha as ruas ajuda a escrever o próximo capítulo dessa trajetória.

A corrida de rua conquistou Vitória da Conquista. E, ao que tudo indica, a cidade também aprendeu a correr atrás dos próprios limites.

Assista a entrevista em vídeo:

Comentários


Instagram

Facebook