Corrida de rua: de uma tradição milenar ao esporte que conquistou o mundo - Parte 1
Das antigas competições gregas à maratona olímpica, ao atual fenômeno das provas de rua, a corrida atravessou séculos sem perder uma de suas características mais básicas: colocar o corpo humano diante do desafio de percorrer distância no menor tempo.
Correr é uma das manifestações esportivas mais antigas da humanidade. Muito antes de existirem cronômetros digitais, tênis de alta tecnologia ou grandes eventos internacionais, as corridas já fizeram parte das competições atléticas da Grécia Antiga.
Mas existe uma diferença importante entre a tradição antiga e a corrida moderna. A maratona que frequentamos atualmente não fazia parte dos Jogos Olímpicos da Antiguidade. Segundo a World Athletics, a ideia da prova surgiu na preparação para os primeiros Jogos Olímpicos modernos, realizados em Atenas, em 1896.
A proposta foi apresentada pelo francês Michel Bréal durante um congresso realizado em Paris, em 1894. A inspiração veio da conhecida história do mensageiro que teria percorrido o caminho entre Maratona e Atenas depois da batalha contra as pessoas. A própria World Athletics ressalta, porém, que essa narrativa pertence ao campo da tradição e da lenda e não tinha relação com as corridas dos Jogos Olímpicos antigos.
A primeira maratona olímpica foi disputada em 10 de abril de 1896. O vencedor foi o grego Spyridon Louis, que completou o percurso em 2h58min50s e se transformou em herói nacional.
A prova, entretanto, ainda não tinha a distância de 42.195 quilômetros que hoje caracteriza uma maratona. Nos primeiros anos do esporte moderno, as distâncias variavam. A padronização da distância ocorreu posteriormente.
A corrida também passou por uma transformação importante ao longo do século XX. Durante décadas, as provas de longa distância eram principalmente competições para atletas especializados. A partir da segunda metade do século, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, a corrida começou a ganhar uma dimensão diferente: deixou de ser apenas esporte de alto rendimento e passou a ser praticada por grandes contingentes de pessoas.
Esse processo ficou conhecido como running boom , ou "boom da corrida". A modalidade passou a ocupar espaços urbanos, parques e estradas e ganhou novos participantes específicos não apenas em competição, mas também em atividades físicas e desafios pessoais.
A transformação alterou profundamente o perfil das provas de rua.
Uma corrida de 5 km, 10 km, meia maratona ou maratona passou a reunir, num mesmo evento, atletas profissionais e pessoas que simplesmente desejam completar o percurso.
Essa característica explica parte da força que a corrida alcançou no século XXI. Diferentemente de modalidades que excluem equipamentos específicos, instalações esportivas ou equipes, a corrida pode ser praticada individualmente e em diferentes ambientes.
Nenhum alto rendimento, entretanto, a evolução foi extraordinária.
Em 1998, o brasileiro Ronaldo da Costa alcançou Berlim o então recorde mundial da maratona, com 2h06min05s. A marca aparece registrada no perfil oficial do atleta na World Athletics.
Mais de duas décadas depois, os limites foram novamente deslocados.
Em 2023, o queniano Kelvin Kiptum alcançou o recorde mundial em Chicago, com 2h00min35s. Em 2026, a marca foi superada pelo compatriota Sabastian Sawe.
Em 26 de abril de 2026, Sawe venceu a Maratona de Londres em 1h59min30s. A World Athletics ratificou posteriormente o resultado como recorde mundial. Ele se tornou o primeiro homem a completar oficialmente uma maratona em menos de duas horas em uma prova elegível para recorde.
A evolução masculina é acompanhada por uma disputa igualmente impressionante no feminino. Na mesma Maratona de Londres de 2026, o etíope Tigst Assefa venceu em 2h15min41s, estabelecendo o recorde mundial em uma prova exclusivamente feminina.
O cenário atual mostra duas faces da corrida de rua.
De um lado, milhões de pessoas participam das provas simplesmente para correr.
Do outro, os melhores atletas do planeta disputam segundos em distâncias de 42,195 milhas.
A história da corrida de rua, portanto, é também a história da evolução dos limites humanos. Da vitória de Spyridon Louis, em 1896, aos 1h59min30s de Sabastian Sawe, a distância ocorreu praticamente a mesma. O que mudou radicalmente foi a velocidade com que os melhores corredores conseguiram percorrê-la.



