Por que Quênia e Etiópia dominam a corrida de longa distância? - Parte 3
A supremacia africana no fundo e na maratona não pode ser explicada por um único fator genético; pesquisas apontam para uma combinação de altitude, economia de corrida, treinamento, ambiente, cultura esportiva e fatores socioeconômicos
Quem acompanha uma grande maratona internacional já percebeu um padrão.
Os nomes quenianos e etíopes aparecem repetidamente entre os primeiros colocados.
A Maratona de Londres de 2026 oferece um retrato impressionante desse domínio. O queniano Sabastian Sawe venceu com 1h59min30s. O segundo colocado foi o etíope Yomif Kejelcha, com 1h59min41s. O ugandês Jacob Kiplimo terminou em terceiro, com 2h00min28s.
Dos oito primeiros colocados, três eram quenianos e quatro etíopes, além do ugandês Kiplimo.
No feminino, a mesma prova teve vitória da etíope Tigst Assefa, com 2h15min41s, seguida pelas quenianas Hellen Obiri e Joyciline Jepkosgei.
Os números ajudam a entender por que Quênia e Etiópia são referências mundiais na longa distância.
Mas existe uma pergunta que acompanha pesquisadores e treinadores há décadas: por quê?
A resposta científica não é simples.
Um estudo publicado no Sports Medicine e indexado no PubMed analisou os fatores associados ao sucesso dos corredores quenianos e etíopes e concluiu que o fenômeno não pode ser atribuído a uma característica genética ou fisiológica única.
Entre os fatores investigados estão genética, consumo máximo de oxigênio, economia de corrida, composição corporal, características biomecânicas, treinamento, alimentação, altitude e motivação socioeconômica. A conclusão aponta para uma combinação de elementos.
A altitude é um dos componentes mais conhecidos.
Diversas regiões de treinamento no Quênia e na Etiópia estão localizadas em grandes altitudes. A exposição prolongada a ambientes com menor disponibilidade de oxigênio provoca adaptações fisiológicas relacionadas ao transporte e à utilização de oxigênio.
Mas altitude, sozinha, não explica o fenômeno.
Outro elemento importante é a economia de corrida.
O conceito mede a quantidade de energia necessária para correr em determinada velocidade. Quanto menor o custo energético para manter um ritmo, maior pode ser a vantagem do corredor em provas longas.
Um estudo publicado em 2025 analisou corredores etíopes de alto nível e encontrou desempenho particularmente elevado em economia de corrida. Os pesquisadores observaram que essa característica pode contribuir para compensar diferenças de VO2 máximo entre atletas.
Pesquisas anteriores com corredores quenianos também encontraram baixos custos energéticos durante a corrida. Uma revisão sistemática publicada em 2018 destacou que a economia de corrida é uma característica multifatorial, envolvendo componentes biomecânicos, neuromusculares, metabólicos e cardiorrespiratórios.
Há ainda o fator cultural.
Em algumas regiões do Quênia e da Etiópia, a corrida de longa distância possui uma tradição muito forte. O sucesso de atletas anteriores criou referências para as novas gerações.
Essa tradição também pode produzir um ambiente competitivo no qual muitos jovens experimentam a modalidade e alguns acabam chegando ao alto rendimento.
Outro aspecto apontado pela literatura é a possibilidade de o atletismo representar uma importante oportunidade de ascensão econômica e social para determinados atletas. O fator financeiro não explica sozinho o sucesso, mas aparece entre as variáveis estudadas pela ciência do esporte.
Por isso, a explicação mais responsável é rejeitar respostas simplistas.
Não existe evidência científica suficiente para afirmar que quenianos ou etíopes dominam a maratona simplesmente por possuírem "genes para correr".
O que existe é uma combinação de fatores fisiológicos, ambientais, biomecânicos, culturais, de treinamento e socioeconômicos.
E onde entra o Brasil nessa história?
O país possui uma tradição importante e uma enorme base de praticantes, mas ainda não alcançou o mesmo nível de domínio internacional no alto rendimento.
O Brasil já produziu corredores de destaque mundial.
Ronaldo da Costa entrou para a história em 1998, quando estabeleceu em Berlim o então recorde mundial da maratona, com 2h06min05s.
Marílson Gomes dos Santos também construiu uma carreira internacional de alto nível. O brasileiro venceu a Maratona de Nova York duas vezes e foi tricampeão da São Silvestre, em 2003, 2005 e 2010.
A geração atual também apresenta nomes competitivos.
Na São Silvestre de 2025, Johnatas de Oliveira foi o brasileiro mais bem colocado nas duas edições anteriores da prova. Núbia de Oliveira, outra representante brasileira de destaque, vinha de resultados importantes nos 5.000 e 10.000 metros, além de marcas pessoais em provas de rua.
O contraste é evidente.
Enquanto o Brasil possui uma estimativa de mais de 14 milhões de praticantes de corrida de rua, a elite mundial masculina alcançou em 2026 uma realidade completamente diferente: os três primeiros colocados da Maratona de Londres correram abaixo de 2h01min.
O recorde mundial atual pertence a Sabastian Sawe, com 1h59min30s. Yomif Kejelcha, da Etiópia, fez 1h59min41s na mesma prova, enquanto Jacob Kiplimo, de Uganda, marcou 2h00min28s.
Esses números mostram a distância entre participação popular e alto rendimento.
Ter milhões de pessoas correndo é importante para o desenvolvimento da modalidade, mas não significa automaticamente produzir atletas capazes de disputar recordes mundiais.
Para isso, são necessários sistemas de formação de talentos, treinamento de longo prazo, técnicos qualificados, competições, estrutura médica e científica, financiamento e oportunidades para que jovens atletas permaneçam no esporte.
O Brasil possui uma das maiores comunidades de corredores do mundo e uma história centenária de provas de rua.
O desafio agora é transformar parte dessa enorme participação em uma estrutura capaz de formar mais atletas de elite.
A corrida brasileira já conquistou as ruas.
O próximo passo é voltar a conquistar espaço entre os melhores do mundo.



