Da São Silvestre à febre das ruas: como a corrida se tornou um fenômeno no Brasil - Parte 2

Com uma tradição que começou em 1925, a corrida de rua deixou de ser atividade restrita a atletas e passou a movimentar milhões de praticantes e milhares de eventos pelo país

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 12/08/2026, 05:26h

Poucas provas representam tão bem a história da corrida de rua no Brasil quanto a Corrida Internacional de São Silvestre.

Criada pelo jornalista Cásper Líbero, a prova teve sua primeira edição em 1925, em São Paulo. Desde então, atravessou diferentes períodos da história brasileira e se transformou em uma das competições esportivas mais tradicionais do país.

A São Silvestre ajudou a construir uma cultura nacional em torno da corrida de rua. O evento reúne atletas profissionais e corredores amadores e transformou as ruas de São Paulo em cenário de uma das principais festas esportivas do calendário brasileiro.

Em 2025, a prova chegou à sua 100ª edição com 55 mil inscritos. O percurso foi de 15 quilômetros e contou com participantes de 44 países.

Os números da centésima edição mostram a dimensão alcançada pela corrida.

Dos 55 mil inscritos, 47,02% eram mulheres e 52,98%, homens. A organização registrou 4.600 participantes internacionais e 5.500 corredores com mais de 60 anos. A prova mobilizou ainda cerca de 2.200 pessoas na organização, além de estrutura médica com 35 ambulâncias e aproximadamente 100 profissionais entre médicos, enfermeiros e condutores.

A São Silvestre também desempenhou papel importante na participação feminina. As mulheres passaram a disputar oficialmente a prova em 1975. Em 1995, Carmem de Oliveira tornou-se a primeira brasileira a vencer a corrida depois da internacionalização da competição.

O crescimento, porém, vai muito além da tradicional prova paulista.

A Confederação Brasileira de Atletismo informou, em 2025, uma estimativa de mais de 14 milhões de praticantes de corrida de rua no Brasil. O número foi apresentado durante o Summit ABRACEO-CBAt e representa uma estimativa do setor, não um censo individual de corredores.

Outro indicador mostra a expansão dos eventos.

Segundo levantamento apresentado no Summit de 2025, foram realizadas 2.186 corridas no Brasil em 2023. Em 2024, o número chegou a 2.827, crescimento de 29%. Para 2025, havia 2.437 eventos abertos programados no calendário apresentado pela Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor.

O crescimento trouxe também desafios para o setor.

A CBAt informou que 66% dos eventos analisados não possuíam Permit, sistema utilizado pela entidade e pelas federações estaduais para enquadramento e regulamentação das corridas. Em 2025, a CBAt emitiu 40 Permits.

A discussão sobre regulamentação está diretamente relacionada à segurança dos participantes. Uma corrida de rua envolve muito mais do que a montagem de um pórtico de largada e a marcação de um percurso. São necessários planejamento viário, atendimento médico, hidratação, controle do percurso, equipes de apoio e protocolos de emergência.

A dimensão econômica também cresceu junto com a popularização.

O setor passou a envolver organizadores especializados, assessorias esportivas, fabricantes de equipamentos, lojas, patrocinadores, profissionais de educação física, nutricionistas, fisiologistas, médicos e produtores de eventos.

A corrida deixou, portanto, de ser apenas uma competição esportiva.

Transformou-se em uma cadeia de serviços e experiências.

Mas talvez a principal mudança esteja no comportamento de quem participa.

O corredor que chega à largada de uma prova de 10 quilômetros pode estar ao lado de alguém que disputa pódio, de um atleta que busca índice, de uma pessoa que está fazendo sua primeira prova ou de alguém que simplesmente quer completar o percurso.

Essa convivência entre alto rendimento e participação popular é uma das características mais marcantes da corrida de rua.

A São Silvestre é o maior exemplo brasileiro dessa transformação. Em 1925, a ideia era criar uma competição. Um século depois, a prova reúne dezenas de milhares de pessoas e simboliza um fenômeno que se espalhou pelas cidades brasileiras.

A corrida conquistou as ruas. E, pelos números disponíveis, continua crescendo.

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