Autismo e inclusão pautam debate entre profissionais de saúde e pessoas que vivenciam o transtorno
Diagnóstico precoce, uso adequado de medicação e necessidade de apoio psicológico para cuidadores são destacados em entrevistas
Nesta quinta-feira (02), Dia Mundial de Conscientização do Autismo, o programa UP Notícias, da rádio parceira UP FM (100.1), promoveu um debate amplo sobre os desafios e vivências do Transtorno do Espectro Autista (TEA). A discussão reuniu a neuropsicóloga Aline Bispo, a enfermeira psiquiátrica Juliana Medrado e a jornalista e mãe atípica Carla Simões. Para somar à pauta sobre vivência e inclusão, a Mega Rádio também ouviu Danilo Souza, estudante que hoje tem sua carreira dedicada ao jornalismo musical e que recebeu o diagnóstico na vida adulta.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a forma como o cérebro funciona e processa as informações, impactando principalmente a comunicação, a interação social e gerando a presença de comportamentos repetitivos ou interesses restritos. A classificação como um "espectro" ocorre justamente por ser uma condição muito ampla, com manifestações variadas em cada indivíduo. Enquanto algumas pessoas necessitam de níveis mais altos de suporte devido a atrasos no desenvolvimento, outras apresentam características mais sutis e vivem com total independência, demonstrando que cada pessoa no espectro vivencia o mundo de forma única.
O impacto do diagnóstico em diferentes fases da vida
A neuropsicóloga Aline Bispo ressaltou que a busca precoce por ajuda é essencial para aproveitar a plasticidade cerebral da criança, o que viabiliza ganhos mais rápidos no desenvolvimento. A jornalista Carla Simões vivenciou essa realidade ao notar os primeiros sinais na filha, Mariana, de oito anos, antes dos dois anos de idade. "O autismo é o tempo, quanto mais rápido, quanto melhor, quanto mais você for em busca daquilo, quanto antes, mais resultado você consegue atingir", explicou a mãe, que iniciou rapidamente intervenções terapêuticas. "Foi uma noite de choro e a chave foi virada no outro dia".
Em contrapartida, o diagnóstico tardio traz uma perspectiva diferente. Danilo Souza descobriu estar no espectro apenas aos 22 anos, após passar por toda a educação básica acreditando que suas dificuldades eram falhas de personalidade. O estudante relatou que a hipersensibilidade ao barulho e a dificuldade com interações frequentemente eram interpretadas como "birra" ou "frescura".
Para ele, o laudo oficial trouxe alívio. "O que mudou na minha vida, agora com um diagnóstico e laudo, é que eu sei o que está acontecendo e que isso não é um 'defeito', mas sim uma forma diferente de viver e sentir o mundo", pontuou Danilo. O futuro jornalista também descreveu o alívio emocional após o diagnóstico: "Antes, eu sentia que estava caminhando numa estrada escura e sem saber para onde estou indo, e agora é como se eu ainda estivesse lá, mas com uma luz que me deixa com menos medo de seguir".
Comorbidades, medicação e o manejo de crises
O tratamento medicamentoso costuma gerar receios nas famílias de pessoas neurodivergentes. A enfermeira psiquiátrica Juliana Medrado esclareceu as dúvidas comuns dos pais. "Nós não tratamos o autismo com medicação. A medicação vem como um suporte", orientou a profissional. Os remédios são indicados para tratar comorbidades que podem acompanhá-lo, como ansiedade severa, distúrbios do sono e problemas gastrointestinais. "Eu costumo dizer que a medicação é como uma bengala, ela não vai resolver sozinha", servindo para que a criança consiga se acalmar e adquirir habilidades básicas.
Juliana também destacou a diferença clínica entre birras e crises de sobrecarga sensorial. "A birra sempre vai ter uma causa, ela sempre vai ter o querer da criança", afirmou. Já a crise é mais complexa e não possui uma "função do querer", impedindo o indivíduo de voltar ao seu estado normal de regulação mesmo após a remoção do gatilho inicial.
Inclusão profissional, hiperfoco e sensibilidade
A vivência de Danilo Souza ilustra como as características do espectro podem interagir com o mercado de trabalho. A música sempre foi o seu grande hiperfoco. "Quando estou ouvindo, trabalhando ou tocando algum instrumento, fico tão concentrado que até esqueço de ir ao banheiro ou parar para comer", detalhou.
Hoje, ele atua ativamente no jornalismo musical, mas precisa lidar com severa hipersensibilidade auditiva durante a cobertura de eventos. "Eu sinto dor física ao ficar muito tempo exposto a barulho, isso é um desafio principalmente em festivais e shows", revelou o estudante. Sobre a inclusão no mercado, ele orienta que as redações ofereçam suporte direcionado. "É essencial entender as características e os limites de cada pessoa, já que o autismo é um espectro. O que funciona para um, pode não funcionar para outro".
Rede de apoio e mobilização social
Os especialistas reforçaram a urgência de olhar também para os cuidadores. Juliana Medrado orientou mães e pais a não esperarem chegar ao limite da exaustão para buscar suporte. "É como se você estivesse em um avião, o avião vai cair, se tiver qualquer turbulência, vão cair as máscaras na sua frente, primeiro você tem que colocar [a máscara] em você para depois ajudar os outros", exemplificou a enfermeira, frisando que "se a mãe não estiver regulada, a criança não vai estar regulada".
Para a neuropsicóloga Aline Bispo, a empatia da comunidade é o pilar fundamental. "Eu acredito que a principal mudança precisa partir da sociedade, de nós, em aceitar as diferenças, as singularidades das pessoas", defendeu. Com o objetivo de ampliar essa conscientização e levar informação às ruas, o município realizará no próximo dia 12 a 5ª Caminhada de Conscientização do Autismo, que este ano carrega o tema de que a "autonomia se constrói com apoio".






