Diagnóstico de autismo ainda é visto como doença por muitas famílias e exige mudança na forma de acolhimento, alerta especialista

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 08/04/2026, 03:46h

O momento em que uma família recebe o diagnóstico de autismo de um filho ainda é marcado por dúvidas, insegurança e, muitas vezes, por uma compreensão equivocada sobre o que significa o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Para o professor doutor Geraldo Peçanha de Almeida, especialista em educação e desenvolvimento infantil, essa percepção distorcida começa no próprio ambiente onde a notícia é comunicada.

Segundo ele, há uma dificuldade histórica em dissociar o autismo da ideia de doença. Isso ocorre, principalmente, porque o diagnóstico costuma ser feito em consultórios médicos, por profissionais de saúde, em um contexto que naturalmente remete ao tratamento de enfermidades.

"Quando os pais estão diante de um médico, recebem um laudo e, muitas vezes, uma receita, isso chega de forma direta como um diagnóstico de doença. E, se é doença, surge automaticamente uma ideia de cura", explica.

Esse entendimento, no entanto, pode gerar impactos duradouros. De acordo com o especialista, a fragilidade emocional das famílias neste momento contribui para que essa interpretação se cristalize, dificultando posteriormente o trabalho de conscientização realizado por educadores, psicólogos e outros profissionais.

Falta de preparo no acolhimento inicial

Para o professor, o Brasil ainda precisa avançar na forma como acolhe essas famílias no primeiro contato com o diagnóstico. Ele defende a criação de um modelo semelhante ao já adotado em políticas públicas relacionadas a outras condições de saúde, em que há uma preparação prévia antes da comunicação do resultado.

"A família deveria receber informações, orientações e acolhimento antes mesmo de ter acesso ao laudo. Isso ajudaria a evitar o desespero e a ideia imediata de que é preciso buscar uma cura", afirma.

Escola como ponto central da inclusão

Outro ponto destacado é o papel da escola no processo de inclusão. Muitas vezes, é no ambiente escolar que surgem os primeiros sinais de que uma criança pode apresentar características da espectro autista.

No entanto, o especialista chama atenção para um problema recorrente: o atraso na identificação. Embora sinais possam ser percebidos a partir dos dois anos de idade, há casos em que a criança só é encaminhada para avaliação aos quatro ou cinco anos, o que representa perda de tempo importante para intervenções.

Após o diagnóstico, ele orienta que um dos primeiros passos seja a reorganização da vida escolar da criança. Isso inclui a atualização da matrícula com as novas necessidades, adaptação de conteúdos, avaliações e, quando necessário, acesso ao Atendimento Educacional Especializado (AEE).

“É fundamental que a escola tenha conhecimento do diagnóstico para garantir os direitos da criança. A inclusão começa ali, na organização do ambiente escolar”, ressalta.

Ele ainda alerta para um erro comum entre as famílias: priorizar terapias antes de estruturar a rotina escolar. “A escola precisa ser o primeiro eixo. Só depois é que se organiza a parte terapêutica.”

Grupos de apoio podem causar mais danos que benefícios

Em um cenário de insegurança, muitos pais recorrem a grupos de apoio, especialmente em aplicativos de mensagens. No entanto, o especialista faz um alerta importante: nem todos esses espaços são, de fato, acolhedores.

Sem mediação profissional, esses grupos podem gerar sobrecarga emocional, desinformação e até conflitos. Entre os principais riscos apontados estão:

Diferença de experiência entre os participantes, o que pode intimidar quem acabou de receber o diagnóstico;
Excesso de cobranças e discussões jurídicas, pouco adequadas para quem ainda está em fase de aceitação;
Uso dos grupos para disputas e críticas a instituições;
Grande volume de opiniões, muitas vezes sem embasamento técnico.

“A família precisa de acolhimento, não de uma avalanche de opiniões. Sem mediação, esses espaços podem mais atrapalhar do que ajudar”, afirma.

Mercado explora vulnerabilidade das famílias

Outro ponto crítico destacado pelo professor é a existência de um mercado que se aproveita da vulnerabilidade emocional das famílias. Ele denuncia a oferta de produtos, terapias e até soluções milagrosas sem comprovação científica.

“Hoje se vende de tudo para autistas, desde objetos até tratamentos sem evidência. É um mercado que não tem piedade e que cresce em cima da dor das famílias”, alerta.

Ele reforça a importância de buscar sempre orientação de profissionais qualificados e desconfiar de promessas de cura ou resultados rápidos.

Papel da família ampliada exige cautela

Embora o apoio de avós, tios e outros parentes seja importante, o especialista orienta que esse contato seja feito com cuidado e no momento certo.

Isso porque o excesso de opiniões pode interferir negativamente nas decisões dos pais, especialmente quando há divergência em relação a tratamentos ou uso de medicação.

“Opinião não é ciência. E, muitas vezes, a família acaba influenciando decisões importantes sem ter conhecimento técnico”, pontua.

Há casos, segundo ele, em que uma criança deixa de receber o tratamento indicado por contato da interferência de familiares, o que pode comprometer seu desenvolvimento.

Um novo começo para a família

Por fim, o professor destaca que o diagnóstico de autismo exige uma reorganização profunda da dinâmica familiar. Ele compara o processo a um “novo nascimento”, tanto para a criança quanto para os pais.

Isso inclui a necessidade de lidar com a frustração de expectativas e construir uma nova forma de relacionamento, baseada na realidade e nas necessidades do filho.

Além disso, ele chama atenção para o impacto no casamento. Estudos apontam um aumento no número de separações após o diagnóstico, muitas vezes devido à sobrecarga e à falta de divisão equilibrada das responsabilidades.

"É preciso cuidar de quem cuida. O casal precisa se reorganizar, dividir tarefas e manter o vínculo. Só assim será possível garantir um ambiente saudável para a criança", conclui.

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