Licença-paternidade: por que ampliar o tempo de afastamento é um investimento social e econômico

  • Da Mega
  • Atualizado: 13/04/2026, 09:16h

A ampliação da licença-paternidade no Brasil voltou ao centro do debate público ao ser aprovada, na Câmara dos Deputados, a proposta que aumenta gradualmente o período de afastamento dos pais de 5 para até 20 dias. Mais do que uma mudança trabalhista, especialistas apontam que a medida tem impacto direto no desenvolvimento infantil, na organização familiar e até na economia do país.

Estudos internacionais ajudam a dimensionar essa relevância. O economista norte-americano James Heckman, vencedor do Prêmio Nobel, demonstrou que cada dólar investido na primeira infância pode gerar retorno de até sete dólares ao longo do tempo. Esse resultado está associado à melhoria de indicadores como educação, saúde e produtividade. Nesse contexto, políticas que ampliam o cuidado nos primeiros dias de vida — como a licença-paternidade — passam a ser vistas como estratégicas.

O que muda com a nova proposta

O projeto aprovado prevê a ampliação gradual da licença-paternidade. Inicialmente, o período passa para 10 dias, evoluindo para 15 dias após dois anos e chegando a 20 dias ao final de quatro anos, desde que respeitadas as metas fiscais. A medida também cria o chamado salário-paternidade, com regras semelhantes às do salário-maternidade, incluindo estabilidade no emprego durante o período.

Outro ponto relevante é a ampliação do prazo em casos específicos: quando a criança nasce ou é adotada com deficiência ou doença grave, o tempo de licença poderá ser aumentado em um terço.

Impactos no desenvolvimento infantil

Especialistas em saúde infantil são unânimes ao afirmar que a presença do pai nos primeiros dias de vida do bebê contribui significativamente para o desenvolvimento da criança. O contato direto, as interações e os cuidados cotidianos estimulam habilidades cognitivas, sociais e linguísticas.

Além disso, há evidências biológicas desse vínculo. Durante o convívio com o recém-nascido, o pai também passa a produzir ocitocina, hormônio associado ao afeto e à formação de laços emocionais. Esse processo fortalece a relação entre pai e filho e tende a gerar efeitos duradouros ao longo da vida.

Apoio à mãe e divisão de responsabilidades

A licença-paternidade também desempenha papel fundamental no suporte à mãe, especialmente no período pós-parto, que exige atenção física e emocional intensiva. A presença do pai contribui para reduzir a sobrecarga feminina e favorece uma divisão mais equilibrada das responsabilidades familiares.

Pesquisadores apontam que políticas desse tipo podem ajudar a reduzir desigualdades de gênero no mercado de trabalho. Isso porque, ao ampliar o envolvimento dos homens nos cuidados com os filhos, diminui-se a percepção de que apenas as mulheres se afastam do trabalho por questões familiares.

Apesar dos avanços, a proposta enfrenta resistência de parte do setor produtivo. Empresários, especialmente de micro e pequenas empresas, apontam preocupações com custos e impactos na produtividade.

Embora o benefício seja compensado posteriormente via sistema tributário, há críticas em relação ao tempo de ressarcimento, que pode levar anos. Esse intervalo pode afetar o fluxo de caixa das empresas, sobretudo as de menor porte.

Ainda assim, pesquisas indicam que boa parte dos pequenos empresários não vê grandes dificuldades na concessão da licença, o que sugere espaço para ajustes na legislação que conciliem os interesses econômicos com os sociais.

Para além dos números e da legislação, a ampliação da licença-paternidade é vista como um instrumento de transformação cultural. No Brasil, ainda é comum que o cuidado com os filhos recaia majoritariamente sobre as mulheres. A medida busca incentivar uma participação mais ativa dos pais desde o início da vida da criança.

Especialistas destacam, no entanto, que o tempo de licença por si só não garante essa mudança. É necessário também avançar na educação e na conscientização dos homens sobre o papel do cuidado, para evitar a terceirização dessas responsabilidades.

Embora considerada insuficiente por parte dos especialistas, a ampliação para até 20 dias representa um avanço em relação ao modelo atual de apenas 5 dias. A expectativa é que a medida contribua para fortalecer os vínculos familiares, melhorar o desenvolvimento infantil e promover maior equilíbrio nas relações de trabalho e de gênero.

No debate público, a licença-paternidade deixa de ser vista apenas como um direito individual e passa a ser compreendida como uma política de impacto coletivo — com efeitos que se estendem da família à economia.

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