Educação não diagnostica, mas pode identificar sinais: especialistas discutem papel das escolas diante do aumento de suspeitas de TEA
Durante participação no programa Roda Viva, o neuropediatra José Salomão Schwartzman fez uma análise crítica sobre o aumento dos diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e destacou o papel das escolas, os limites da inclusão e os desafios científicos ainda presentes na área.
Papel da escola: identificação, não diagnóstico
Segundo o especialista, o ambiente escolar tem função relevante na identificação precoce de sinais atípicos no desenvolvimento infantil, mas não deve assumir responsabilidades clínicas. Professores podem observar comportamentos fora do esperado para a faixa etária e orientar as famílias a buscarem avaliação especializada. No entanto, ele alerta que o diagnóstico é atribuição exclusiva de profissionais da saúde qualificados.
Schwartzman também criticou a banalização de diagnósticos no ambiente educacional, especialmente em relação ao autismo e ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Para ele, a ausência de marcadores biológicos claros contribui para interpretações subjetivas e, consequentemente, para o aumento de diagnósticos divergentes.
Crescimento dos diagnósticos e críticas ao “espectro”
O médico questionou o conceito amplo de espectro, afirmando que ele reúne perfis muito distintos sob uma mesma classificação. De acordo com Schwartzman, o crescimento expressivo dos casos está concentrado nos níveis mais leves de suporte, o que, na avaliação dele, pode incluir indivíduos com características comportamentais que não configurariam necessariamente autismo.
Ele também apontou a influência do mercado, mencionando a proliferação de cursos e especializações sobre TEA e TDAH, muitos deles, segundo o especialista, sem rigor científico adequado.
Comorbidades e associação com síndromes genéticas
O neuropediatra destacou que o autismo pode estar associado a outras condições, como a Síndrome de Down e a síndrome do X frágil. Nesses casos, é fundamental diferenciar os sintomas para evitar interpretações equivocadas, já que déficits de comunicação e socialização podem ter origens distintas.
Inclusão escolar sob questionamento
Outro ponto sensível abordado foi o modelo de inclusão adotado no Brasil. Schwartzman afirmou que nem todos os alunos com TEA se beneficiam automaticamente da inserção em escolas regulares, especialmente quando não há estrutura adequada. Para ele, a inclusão, da forma como vem sendo aplicada, pode resultar em exclusão disfarçada.
O especialista defende que a preparação da escola — com infraestrutura, capacitação docente e adaptação curricular — deveria anteceder a inclusão. Como exemplo, citou modelos internacionais, como o da Alemanha, onde escolas especializadas oferecem ensino individualizado, baseado nas habilidades e limitações de cada aluno.
Desafios científicos e futuro do diagnóstico
Na área de pesquisa, Schwartzman foi enfático ao apontar a necessidade de desenvolvimento de critérios diagnósticos mais objetivos. Ele defende investimentos em exames genéticos e de neuroimagem que possam funcionar como marcadores confiáveis para o autismo.
Atualmente, classificações como o DSM e a Organização Mundial da Saúde utilizam critérios clínicos baseados em comportamento, o que, segundo ele, contribui para a heterogeneidade dos diagnósticos.
Síntese
A entrevista reforça um cenário complexo: enquanto há maior conscientização e busca por diagnóstico, persistem lacunas importantes na definição clínica do autismo, na formação de profissionais e na estrutura educacional. Para Schwartzman, sem avanços científicos que delimitem melhor o quadro, o debate sobre o aumento de casos tende a permanecer aberto.







