Imprensa tem papel decisivo no combate à violência política contra mulheres, defendem especialistas

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 01/06/2026, 09:22h

A violência política contra as mulheres continua sendo um dos principais obstáculos para a ampliação da participação feminina nos espaços de poder no Brasil. Além dos ataques diretos sofridos por candidatas, vereadoras, deputadas e senadoras, especialistas alertam que a forma como esses episódios são retratados pela imprensa pode contribuir tanto para o enfrentamento quanto para a perpetuação desse tipo de violência.

O tema foi debatido durante uma oficina realizada na Escola da Câmara dos Deputados, reunindo jornalistas e influenciadores digitais de diversos estados brasileiros e do Distrito Federal. A atividade integrou a campanha “Políticas Seguras nas Redes”, promovida pelo Observatório Nacional da Mulher na Política, em parceria com a Delegação da União Europeia no Brasil e com apoio institucional da ONU Mulheres.

De acordo com a coordenadora do Observatório Nacional da Mulher na Política, Christiane Bernardes, a iniciativa busca ampliar o conhecimento dos profissionais da comunicação sobre a violência política de gênero e fortalecer estratégias de prevenção e enfrentamento.

Segundo ela, muitas situações de violência sofridas por parlamentares ainda não são identificadas pelas próprias vítimas como atos criminosos. Por isso, a informação e a educação têm papel fundamental para tornar o problema mais visível e ampliar o debate público.

A jornalista e pesquisadora Thaís Facina destacou que a violência política contra as mulheres é um tema relativamente recente no debate público brasileiro, ganhando maior repercussão a partir de episódios marcantes da vida política nacional. Para ela, a imprensa possui responsabilidade central na forma como esses casos são apresentados à sociedade.

Entre os desafios apontados está a necessidade de evitar a revitimização das mulheres atingidas. Muitas vezes, segundo a pesquisadora, a cobertura jornalística acaba expondo mais a vítima do que o agressor ou tratando denúncias de violência política apenas como versões pessoais, sem reconhecer que se trata de uma conduta tipificada pela legislação brasileira.

Outro aspecto ressaltado durante a discussão é que os ataques contra mulheres na política não afetam apenas uma pessoa específica. Na avaliação das especialistas, cada caso transmite uma mensagem de intimidação para todas as mulheres que desejam ingressar ou permanecer na vida pública.

A pesquisadora destacou ainda que a violência política baseada em gênero se manifesta de diversas formas, incluindo tentativas de desqualificação da capacidade intelectual das mulheres, interrupções constantes, ameaças, assédio moral, violência psicológica e até ameaças de morte e estupro.

Os dados sobre representação feminina reforçam a preocupação. Embora as mulheres representem a maioria da população brasileira, elas ocupam menos de 20% das cadeiras do Congresso Nacional. Para as especialistas, a baixa participação feminina nos espaços de decisão compromete a qualidade da democracia e reduz a diversidade de perspectivas na elaboração de políticas públicas.

Durante o encontro também foi lançado um e-book com orientações voltadas a jornalistas, comunicadores e influenciadores digitais. O material apresenta boas práticas para a cobertura de casos de violência política contra mulheres, além de recomendações para evitar a reprodução de estereótipos e ampliar a compreensão do fenômeno.

A campanha “Políticas Seguras nas Redes” prevê ainda a disponibilização de materiais educativos para redes sociais, notas técnicas e outras ações voltadas à conscientização da sociedade. Entre as iniciativas futuras está a realização de um seminário internacional na Câmara dos Deputados para discutir experiências e estratégias de prevenção da violência política de gênero.

O assunto foi tema de entrevista no programa Mulheres de Palavra, produzido pela Câmara dos Deputados em parceria com o Observatório Nacional da Mulher na Política, com participação da colunista Christiane Bernardes e da jornalista e pesquisadora Thaís Facina.

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