O verdadeiro problema não é a CazéTV. É a normalização das apostas

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 26/06/2026, 09:46h

A discussão sobre a presença de propagandas de casas de apostas durante as transmissões da Copa do Mundo ganhou força após críticas dirigidas à CazéTV. Diversos veículos de imprensa passaram a questionar a quantidade de publicidade de BETs exibida durante a cobertura do Mundial.

A crítica pode até ser válida. Mas ela levanta uma pergunta inevitável: por que a indignação parece surgir apenas quando o alvo é um concorrente que conquistou enorme audiência?

Basta ligar a televisão, acessar um portal de notícias, ouvir uma rádio esportiva ou abrir qualquer rede social para perceber que as apostas esportivas estão em toda parte. Os maiores grupos de comunicação do país exibem diariamente anúncios de BETs. Clubes são patrocinados. Campeonatos carregam nomes de casas de apostas. Influenciadores divulgam plataformas. Ex-jogadores fazem campanhas publicitárias. Narradores e comentaristas convivem naturalmente com esse mercado.

Se o problema é a propaganda, ele não está concentrado em um único canal. Está espalhado por praticamente toda a indústria da comunicação.

A discussão precisa ser muito mais profunda do que uma disputa comercial entre empresas.

Os impactos sociais das apostas já são conhecidos. Multiplicam-se relatos de famílias endividadas, trabalhadores que comprometem salários inteiros, jovens atraídos pela falsa promessa de dinheiro fácil e pessoas que desenvolvem dependência semelhante à observada em outros transtornos compulsivos.

As consequências vão muito além da perda financeira. Crescem os casos de ansiedade, depressão, rompimento de relações familiares, perda de patrimônio e, em situações extremas, suicídios associados ao desespero provocado pelas dívidas acumuladas.

É preciso perguntar: até que ponto a publicidade contribui para esse cenário?

Durante décadas, o Brasil enfrentou discussão semelhante com a indústria do tabaco. As fabricantes patrocinavam eventos esportivos, estampavam seus logotipos em carros de Fórmula 1, equipes, campeonatos e utilizavam atletas como ferramenta de marketing.

Quando o Congresso aprovou restrições severas à propaganda de cigarros, houve enorme pressão econômica e política. Argumentava-se que categorias esportivas perderiam recursos e que grandes eventos deixariam o país. A Fórmula 1, cujas equipes eram praticamente "maços de cigarro sobre rodas", também demonstrou preocupação com a legislação brasileira.

Mesmo assim, o país manteve sua posição. A publicidade foi proibida. O Grande Prêmio do Brasil continuou existindo. O esporte se adaptou. A saúde pública saiu fortalecida.

Hoje ninguém cogita permitir novamente propagandas de cigarros na televisão ou em eventos esportivos.

A pergunta é inevitável: por que não aplicar raciocínio semelhante às apostas?

Jogos de azar não são um produto qualquer. Produzem dependência em parte significativa dos usuários, geram prejuízos financeiros, afetam famílias inteiras e representam um crescente problema de saúde pública.

Isso não significa proibir a atividade — tema que pertence ao campo legislativo. Mas restringir sua publicidade talvez seja um caminho semelhante ao adotado com o cigarro.

É incoerente condenar um único veículo enquanto praticamente todo o sistema de comunicação lucra com anúncios do mesmo setor.

Hipocrisia não ajuda ninguém.

Se realmente existe preocupação com os danos causados pelas BETs, o debate precisa deixar de lado disputas comerciais e enfrentar a questão central: qual deve ser o limite da publicidade de um produto que pode gerar compulsão, destruir patrimônios, comprometer a saúde mental e transformar diversão em tragédia?

A discussão já começou. Agora resta saber se haverá coragem para enfrentar interesses bilionários ou se continuaremos criticando apenas quem está sob os holofotes, enquanto o restante do mercado permanece em silêncio.

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