Moto virou protagonista da tragédia no trânsito
Os acidentes envolvendo motocicletas deixaram de ser um problema isolado para se transformar em um dos maiores desafios da mobilidade urbana e da saúde pública em Vitória da Conquista e em diversas cidades do sudoeste da Bahia. O crescimento da frota de motos, aliado ao aumento da utilização desses veículos para o trabalho e para o deslocamento diário, ajuda a explicar parte do cenário. No entanto, especialistas apontam que o problema é resultado de um conjunto de fatores e exige uma resposta igualmente ampla.
Dados apresentados ontem, no programa Redação Brasil, indicam que, somente neste ano, 28 pessoas morreram em acidentes envolvendo motocicletas em Vitória da Conquista. Outro dado que chama a atenção é a informação de que aproximadamente 73% dos leitos ortopédicos destinados a pacientes com trauma no Complexo Hospitalar de Vitória da Conquista estariam ocupados por vítimas de acidentes envolvendo motocicletas, incluindo também bicicletas motorizadas e patinetes elétricos. Embora esses números mereçam confirmação por meio de dados oficiais da rede hospitalar, eles reforçam a percepção de que o impacto sobre o sistema de saúde é significativo.
O cenário observado em Vitória da Conquista acompanha uma tendência nacional. O Brasil vive uma verdadeira transformação na mobilidade urbana nas últimas décadas. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a frota de motocicletas passou de cerca de 2,7 milhões no fim da década de 1990 para mais de 34 milhões de unidades atualmente. Esse crescimento foi impulsionado pelo menor custo de aquisição e manutenção, facilidade de deslocamento e, principalmente, pela expansão dos serviços de entrega e transporte por aplicativos.
O aumento da frota, entretanto, não explica sozinho o crescimento dos acidentes.
Pesquisas sobre segurança viária apontam que a motocicleta é, por natureza, um veículo muito mais vulnerável do que um automóvel. Sem uma estrutura de proteção, qualquer colisão ou queda pode provocar lesões graves ou fatais.
Entre os principais fatores apontados por especialistas estão o excesso de velocidade, ultrapassagens em locais proibidos, desrespeito à sinalização, uso do telefone celular durante a condução, consumo de bebidas alcoólicas, além da falta de equipamentos de proteção adequados e da condução por pessoas com pouca experiência.
Há ainda fatores externos que contribuem para o problema. Buracos, pavimentação irregular, sinalização deficiente, iluminação insuficiente e cruzamentos considerados perigosos aumentam significativamente o risco de acidentes, principalmente durante a noite ou em períodos chuvosos.
Outro aspecto importante é a mudança no perfil do motociclista brasileiro. Se antes a motocicleta era utilizada principalmente para deslocamentos pessoais, hoje ela representa ferramenta de trabalho para milhares de pessoas. Motoboys, entregadores e profissionais que trabalham por aplicativos permanecem muitas horas por dia no trânsito, aumentando naturalmente sua exposição ao risco.
Especialistas em mobilidade afirmam que quanto maior o tempo de circulação, maior a probabilidade de envolvimento em acidentes, independentemente da habilidade do condutor.
O impacto vai muito além das estatísticas.
Cada acidente grave mobiliza equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, agentes de trânsito, médicos, enfermeiros e toda a estrutura hospitalar. Em muitos casos, as vítimas necessitam de cirurgias complexas, longos períodos de internação e meses de reabilitação, gerando custos elevados para o Sistema Único de Saúde (SUS) e profundas consequências para as famílias.
Diante desse cenário, especialistas defendem que a redução dos acidentes depende de um conjunto de medidas permanentes.
Entre elas estão investimentos em educação para o trânsito desde as escolas, campanhas contínuas de conscientização, fiscalização eficiente, melhoria da infraestrutura viária, manutenção da sinalização, engenharia de tráfego voltada aos pontos críticos e programas específicos de capacitação para motociclistas profissionais.
Também ganha força a discussão sobre o uso de tecnologias capazes de identificar automaticamente excesso de velocidade, avanço de sinal vermelho e outras infrações de maior risco, sempre acompanhadas de ações educativas.
Mais do que buscar um único responsável, o desafio consiste em compreender que os acidentes são resultado da combinação entre comportamento humano, condições das vias, crescimento acelerado da frota e aumento da circulação de motocicletas.
Vitória da Conquista, assim como outras cidades brasileiras, enfrenta um problema que acompanha a evolução da mobilidade urbana. Reduzir esse número de acidentes exigirá planejamento, investimentos, conscientização e participação conjunta do poder público, dos órgãos de trânsito, dos profissionais que utilizam motocicletas para trabalhar e de toda a sociedade.
Afinal, cada vida preservada representa menos sofrimento para famílias, menor pressão sobre os hospitais e um trânsito mais seguro para todos.









