Luis de la Fuente: o arquiteto da Espanha que transformou um projeto em potência e conduziu a Fúria à final da Copa
Quando se fala na seleção espanhola, os primeiros nomes que vêm à cabeça são Lamine Yamal, Pedri, Nico Williams ou Fabián Ruiz. Mas a campanha da Espanha na Copa do Mundo deixa claro que o principal responsável pelo sucesso da equipe está fora das quatro linhas. O treinador Luis de la Fuente consolidou um projeto de longo prazo que transformou a Espanha na seleção mais consistente do futebol mundial.
A classificação para a final e a vitória convincente sobre a França reforçaram uma ideia que já vinha sendo construída ao longo dos últimos anos: a força da Espanha não depende de um único craque. O grande diferencial está na organização coletiva, na identidade de jogo e na continuidade de um trabalho iniciado muito antes da atual geração chegar à seleção principal.
Enquanto muitas equipes dependem de atuações inspiradas de suas estrelas, a Espanha chegou à decisão do Mundial sem que seus jogadores mais badalados, como Lamine Yamal e Pedri, precisassem assumir todo o protagonismo. O desempenho coletivo compensou eventuais atuações discretas das principais estrelas, demonstrando a profundidade e o equilíbrio do elenco.
Um projeto iniciado nas categorias de base
O sucesso de Luis de la Fuente não surgiu de forma repentina. Depois de passagens sem grande destaque por Athletic Bilbao e Alavés, o treinador recebeu da Federação Espanhola a oportunidade de comandar a seleção sub-19 em 2013.
A decisão fazia parte de um projeto estratégico da entidade, que buscava formar uma identidade única desde as categorias inferiores até a equipe principal.
O primeiro grande resultado apareceu em 2015, quando conquistou o Campeonato Europeu Sub-19. Naquele elenco já estavam jogadores que hoje são pilares da seleção principal, como Fabián Ruiz, Unai Simón, Dani Olmo, Mikel Oyarzabal e Mikel Merino.
Anos depois, De la Fuente assumiu a seleção sub-21 e levou a Espanha à final dos Jogos Olímpicos de Tóquio, conquistando a medalha de prata após derrota para o Brasil. Mais importante que o resultado foi a consolidação de uma geração inteira que, posteriormente, abasteceria a seleção principal.
Continuidade que faz diferença
O trabalho de Luis de la Fuente mostra o valor da continuidade em um esporte frequentemente marcado por mudanças constantes de treinadores.
Ao assumir a seleção principal, ele não precisou começar um novo projeto. Grande parte dos atletas já conhecia sua filosofia, os princípios táticos e o modelo de jogo desenvolvidos ao longo de quase uma década.
Essa familiaridade permitiu que a Espanha mantivesse alto nível de desempenho independentemente das peças escaladas.
A confiança construída durante anos também explica algumas decisões que surpreenderam o público, como manter jogadores considerados fundamentais para seu modelo de jogo, mesmo diante da excelente fase de outros atletas.
Um time acima das individualidades
Talvez a maior virtude da atual seleção espanhola seja justamente não depender de um único jogador.
A equipe apresenta um sistema defensivo extremamente sólido, intensa pressão na saída de bola, posse de qualidade e rápida circulação de jogo. O resultado é uma seleção capaz de controlar partidas contra qualquer adversário.
Os números defensivos ilustram essa consistência. Ao longo da Copa do Mundo, a Espanha sofreu pouquíssimos gols, confirmando um equilíbrio que começa na organização coletiva e não apenas na qualidade individual dos defensores.
Além disso, jogadores como Fabián Ruiz, Dani Olmo, Oyarzabal, Merino e Unai Simón evoluíram dentro de um ambiente que privilegia entendimento tático e entrosamento, elementos trabalhados desde as seleções de base.
O verdadeiro protagonista
Após eliminar a França na semifinal, Luis de la Fuente resumiu a confiança de seu grupo ao afirmar que os franceses enfrentariam "a melhor seleção do mundo".
A declaração, que poderia soar como excesso de confiança, encontrou respaldo dentro de campo. A Espanha dominou o confronto e confirmou o favoritismo construído ao longo do torneio.
Mais do que revelar talentos, Luis de la Fuente conseguiu algo raro no futebol moderno: criar uma identidade duradoura. Seu trabalho demonstra que conquistas consistentes não nascem apenas da geração de grandes jogadores, mas de planejamento, continuidade e convicção em um modelo de jogo.
Se a Espanha voltar ao topo do futebol mundial com o título da Copa, grande parte desse mérito deverá ser atribuída ao treinador que, durante mais de uma década, preparou silenciosamente cada etapa desse projeto. Hoje, Luis de la Fuente deixa de ser apenas o comandante da seleção espanhola para consolidar seu nome como o principal arquiteto da nova era de ouro da Fúria.



