A narrativa de sobrevivência enquanto artista da Charli xcx

Music, Fashion, Film é uma declaração sem direcionamento definido, consciente de sua própria contradição

  • Lucas Eduardo
  • Atualizado: 28/07/2026, 02:49h

Fonte: Capa do álbum Music, Fashion, Film / Charli xcx

Charli xcx lançou na última sexta-feira (24) o seu mais novo disco, o Music, Fashion, Film (Música, Fashion, Filme). Após o grande sucesso do trabalho anterior, brat, de 2024, a cantora britânica reconhecidamente como o maior nome atual do subgênero da música eletrônica conhecido como hyperpop e da PC music lança um disco com uma pegada diferente da qual os fãs mais recentes estão acostumados.

Music, Fashion, Film possui um direcionamento mais voltado para o rock e a cena alternativa. Também não é como se a cantora tivesse trilhando um caminho totalmente novo, mesmo para ela. No começo, enquanto uma artista que ainda não havia assinado com uma gravadora e nem havia planos de gerenciamento de carreira, Charli produzia suas músicas de forma independente com muitos usos de guitarras sobrepostas às canções e uma grande influência do punk rock em suas estéticas.

Agora, em 2026, o uso do som parece mais sofisticado, elaborado e propositalmente alinhado às discussões abordadas nas letras das músicas. Na faixa de abertura Rock Music, a artista anuncia para o ouvinte que a pista de dança está morta. Parêntese aqui para afirmar que, em época em que Madonna está lançando um trabalho rico de música dance com o Confessions II, a frase não pegou muito bem, chamando atenção da própria rainha do pop, que chegou a escrever na rede social X: “Se a sua pista de dança parece morta, talvez você esteja tocando a música errada” (tradução do autor).

O que a Charli quis dizer com essa frase, na verdade, foi anunciar um desvio de identidade sonora como proposta para esse novo disco, e não exatamente que a cultura das pistas de dança e músicas dance estivessem mortas. Algumas discussões na internet parecem maiores em escala do que realmente são, e aqui fica comprovado que o burburinho não passou de tempestade em copo d’água. Mas enfim, na mesma faixa, ela afirma que agora está fazendo música de rock.

Um detalhe sobre a artista é que grande parte de suas canções são autorreferenciais. Com isso, quero dizer que ela compõe a partir de uma perspectiva sobre si e sobre as escolhas que faz em relação a carreira e vida pessoal de uma maneira autoconsciente até de mais. Na música Wink Wink, por exemplo, ela diz que não é mais uma garota má, sendo que o verso seguinte é “piscadinha, piscadinha (wink, wink)”. Ela está basicamente dizendo que, apesar de afirmar alguma coisa, sobre quem é ou o que faz, não é possível confiar 100% nas suas palavras porque ela é uma pessoa que vive em uma eterna contradição de falas e atitudes.

Os versos seguinte provam o meu ponto: “Eu costumava dizer ‘Grite se você quiser ir mais rápido’ / Mas então eu vendi a minha Porsche”. E daí entra a autoconsciência da qual eu me referi anteriormente em versos como: “Eu não sei por que você não acredita em mim / Eu não sei por que você acha que eu não posso ser um anjinho”.

O disco é cheio de autorreflexões e tensionamentos sobre a própria existência da cantora no mundo artístico. Apesar de aparentar ser essa pessoa confiante de si e possuir uma vibe meio Regina George do filme Meninas Malvadas (2004), Charli sempre usou a composição para questionar e tornar público suas próprias inseguranças.

Em Camera, há os seguintes versos: “Eu quero mesmo fazer música, será se eu tô sendo idiota? / Se eu tentar ser uma garota diante das câmeras beirando os trinta e quatro anos?”. Em um momento onde a artista está sendo escalada para diversos papéis no cinema e na tv, Charli revela nessa música que está empolgada com essa nova forma de apresentar-se artisticamente. Ela questiona se vale a pena deixar a carreira na música para seguir na atuação porque ela gosta da forma como se sente em frente às câmeras, “porque tudo que eu sei é como eu me sinto, e me faz sentir”.

Dito isso, a cantora também sabe que nada dura para sempre, nem mesmo a sensação que sente no corpo diante de uma câmera ligada apontada para ela, como afirma em No One Lasts Forever, com participação do diretor de cinema David Cronenberg. Em diálogo com o que o cineasta vai dizer posteriormente na faixa, a cantora compreende que nenhum sentimento dura para sempre, seja o sentimento de empolgação diante das câmeras ou o sentimento de pressão de criar um disco comercialmente bem sucedido novamente. 

Existe arte que transcende temporalidade e são relembradas até os dias de hoje, mas as pessoas artistas que as produziram não estão vivas para experienciar o sentimento compartilhado que as suas obras causam, é o que afirma o diretor nos versos finais da canção. Apesar de existirem coisas e conceitos transcendentais, ninguém nasceu para viver eternamente, sendo assim, a inconstância do sentir viver torna-se a única constante e coincidência na vida das pessoas.

A forma como a Charli se expõe e expõe suas inseguranças mostra como ela leva a sério o seu papel de artista, diferenciando-a de qualquer outra figura pop da atualidade. Ela entende que não existe nada no mundo que serve como salvação a longo prazo, “nem música, moda ou cinema”. A contraposição entre os sentimentos mais vulneráveis e as batidas cruas das músicas revelam o desequilíbrio que é tentar fazer sentido e conectar ações com as palavras. Por isso, acho o disco muito bem sucedido em discurso, alinhado à forma de sua apresentação.

Particularmente, não acho que a cantora tenha feito algo diferente do brat somente para desvencilhar-se do sucesso. Acredito que o que a inspira seja sempre desafiar-se a criar algo inesperado para aqueles que acompanham a sua carreira. Nesse sentido, é uma atitude completamente brat (pirralha, em tradução para o português), mas que revela o comprometimento da britânica em ser fiel ao seu discurso. E se o papel da arte não for seguir fiel ao discurso proposto pelo seu artista, ele se torna um discurso vazio. Apesar de ser cheio de repetições de letras, Music, Fashion, Film não tem nada de vazio. Ele evoca a todo momento sentimentos de autorreflexão de sua criadora e inspira autorreflexão em seus ouvintes.

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