Uefa, AFC e Concacaf ampliam pressão sobre Infantino e cobram transparência da Fifa
Confederações afirmam que crise não envolve apenas dinheiro e acusam a entidade de falhas de governança após projeto para atrair investidores privados
A crise política que envolve a Fifa ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira (10). Uefa, AFC e Concacaf divulgaram uma declaração conjunta com críticas contundentes à administração da entidade e ao presidente Gianni Infantino.
O documento foi assinado pelos presidentes e secretários-gerais das três confederações e questiona a forma como a Fifa conduziu o projeto de criação da Fifa Forward Enterprise (FFE), empresa que teria participação majoritária da entidade e poderia receber investimentos privados.
Para as confederações, o episódio ultrapassa a discussão financeira. O principal problema, segundo o comunicado, está relacionado à governança, transparência e confiança entre as instituições que comandam o futebol mundial.
Confederações contestam versão apresentada pela Fifa
A Fifa havia reconhecido que houve problemas no processo e anunciado a elaboração de um relatório sobre o episódio. A entidade também enviou uma carta às federações nacionais com um pedido de desculpas.
Uefa, AFC e Concacaf, porém, consideram insuficiente a explicação de que teria ocorrido apenas uma falha de comunicação.
Na avaliação das três confederações, a proposta foi apresentada em prazo reduzido e sem uma consulta considerada adequada às associações-membro. O grupo defende que uma investigação sobre o caso seja conduzida por uma terceira parte independente, sem participação da administração da Fifa.
As entidades também pediram a preservação dos documentos e registros relacionados às discussões sobre o projeto.
Projeto previa bilhões de dólares em investimentos
A Fifa Forward Enterprise seria responsável por concentrar operações relacionadas a algumas das principais competições organizadas pela Fifa, incluindo a Copa do Mundo e a Copa do Mundo de Clubes.
A proposta previa a possibilidade de captar até US$ 4,2 bilhões, valor estimado em cerca de R$ 21,5 bilhões na conversão mencionada na reportagem original.
A ideia provocou forte reação, principalmente na Europa. A Uefa chegou a anunciar que suas 55 associações poderiam boicotar futuras competições da Fifa enquanto a proposta não fosse abandonada.
Diante da pressão, Infantino desistiu do projeto poucos dias depois de sua divulgação. A retirada da proposta, entretanto, não encerrou a crise.
"O futebol não pertence a nenhum indivíduo"
Na manifestação conjunta, as confederações ressaltaram que o crescimento do futebol nos últimos anos não pode ser atribuído a uma única pessoa.
O argumento é que a expansão das competições, a distribuição de recursos e a definição das sedes das Copas do Mundo de 2030 e 2034 foram resultado de decisões coletivas envolvendo Fifa, confederações e associações nacionais.
O comunicado também afirma que a discussão não tem como objetivo reduzir o apoio financeiro às federações ou rever decisões já tomadas sobre competições e vagas para a Copa do Mundo.
O foco, segundo as entidades, é a forma como o futebol mundial é administrado. Uefa defende mudança no comando da Fifa.
A crise também aumentou a pressão política sobre Infantino.
A Uefa passou a defender abertamente uma mudança na presidência da Fifa e afirma ter perdido a confiança no dirigente. A Concacaf também passou a adotar uma postura crítica.
Por outro lado, Infantino ainda conta com importantes aliados dentro do futebol internacional. A Conmebol e a Confederação Africana de Futebol (CAF), por exemplo, não aderiram à ofensiva contra o presidente da Fifa.
Em abril, Infantino havia anunciado sua intenção de disputar novamente a presidência da entidade. A eleição está prevista para março do próximo ano.
Com a nova divisão política entre as confederações, a possibilidade de uma candidatura de oposição ganhou força. Um dos nomes mencionados é o canadense Victor Montagliani, presidente da Concacaf.
Crise pode chegar ao Conselho da Fifa
O Conselho da Fifa é formado por 37 integrantes, distribuídos entre as diferentes confederações. Para convocar uma reunião extraordinária com o objetivo de discutir a saída do presidente, seria necessária a solicitação de 19 membros.
A composição inclui nove representantes da Uefa, sete da AFC, seis da CAF, cinco da Concacaf, cinco da Conmebol e três da Oceania, além do próprio Infantino e do secretário-geral da Fifa, Mattias Grafström.
A atual correlação de forças, portanto, será determinante para definir se a crise permanecerá como uma disputa política entre as confederações ou avançará para uma discussão formal sobre o comando da entidade.
"Há silêncio onde deveria haver prestação de contas"
A declaração conjunta termina com um apelo pela unidade do futebol, mas também com uma cobrança direta à liderança da Fifa.
Uefa, AFC e Concacaf afirmam que o futebol precisa de uma administração voltada ao serviço das instituições e não à concentração de poder.
A frase que sintetiza a posição das três confederações resume o tom da crise: "Há silêncio onde deveria haver prestação de contas, distância onde deveria haver transparência."
O conflito, que começou com a tentativa de estruturar uma nova empresa para administrar e financiar competições da Fifa, agora ameaça se transformar em uma disputa mais ampla pelo futuro da entidade e pela permanência de Gianni Infantino na presidência.



