Deficiência não define: inclusão começa quando oportunidades se transformam em direitos

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 27/08/2026, 10:53h

A deficiência não define quem é uma pessoa, o que ela pode fazer ou até onde pode chegar. O que muitas vezes limita sua participação na sociedade são as barreiras construídas ao redor dela: físicas, comunicacionais, pedagógicas, sociais e, principalmente, atitudinais.

Essa é uma das principais reflexões da professora Maria Dolores Fortes Alves durante entrevista ao programa Inclusão em Foco . Doutora e mestre em Educação, professora da Universidade Federal de Alagoas e escritora, Maria Dolores conhece de perto os desafios impostos pelas limitações físicas e pelas dificuldades de acesso à educação. Na infância, passei longos períodos internados e precisou encontrar caminhos próprios para continuar estudando.

Sua trajetória ajuda a compreender uma questão fundamental: o problema não é apenas deficiência, mas há barreiras que impedem uma pessoa de participar plenamente da sociedade .

Durante uma entrevista, Maria Dolores destacou o tema da Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla: “Deficiência não define, oportunidade transforma, incluindo a nossa voz”. Para ela, ainda é necessário combater a associação equivocada entre deficiência e incapacidade. O preconceito, segundo a professora, também nasce da falta de informação e do desconhecimento sobre as potencialidades das pessoas com deficiência.

Inclusão não é apenas acesso

Ter uma vaga na escola, entrar em uma empresa, frequentar um teatro ou participar de uma atividade esportiva não significativa, por si só, estar incluído.

É preciso garantir condições para que uma pessoa possa participar com autonomia, segurança e dignidade.

Na educação, isso envolve acessibilidade pedagógica e curricular, profissionais preparados e recursos de tecnologia assistiva. No trabalho, significa combater o capacitismo, adaptar condições e promover relações alternativas no respeito. Na cultura, é necessário pensar em acessibilidade física e também em recursos de comunicação e informação. No esporte e no lazer, os espaços e equipamentos precisam permitir a participação de diferentes pessoas.

A inclusão, portanto, não pode ser tratada como favor, concessão ou gesto de solidariedade. Ela está relacionada ao direito de participar da vida em sociedade.

“Nada sobre nós sem nós”

Um dos pontos centrais da entrevista é o protagonismo das próprias pessoas com deficiência.

Maria Dolores reforça o princípio conhecido como “Nada sobre nós sem nós” : decisões, políticas públicas e iniciativas que afetam diretamente a vida das pessoas com deficiência precisam contar com a participação delas.

Não basta falar sobre inclusão. É preciso ouvir quem vivencia as barreiras diariamente.

Participar das decisões significa considerar que uma pessoa com deficiência está sujeita a direitos, capaz de expressar desejos, necessidades, opiniões e escolhas sobre a própria vida.

Proteção não pode significar isolamento

A família também tem papel importante nesse processo. Diante do preconceito e das situações enfrentadas no cotidiano, é resolvido que pais e responsáveis ​​tentem proteger seus filhos de situações que possam causar dificuldades.

Mas a proteção excessiva pode acabar restringindo experiências importantes para o desenvolvimento da autonomia.

Maria Dolores chama atenção para a necessidade de equilíbrio entre proteção e independência. Com o apoio adequado, uma pessoa pode superar barreiras, desenvolver autonomia e ocupar espaços sociais com participação e segurança.

A pergunta que fica para as famílias é simples, mas profunda: estamos protegendo para nos preparar para a vida ou protegendo de tal maneira que estamos impedindo uma pessoa de viver?

A responsabilidade é de todos

Construir uma sociedade inclusiva não é tarefa exclusiva de famílias ou de instituições especializadas. Poder público, escolas, empresas, espaços culturais, organizações esportivas e toda a sociedade têm responsabilidades nesse processo.

O direito de ir e vir, estudar, trabalhar, praticar esportes, participar da cultura e ocupar os espaços públicos precisa ser acompanhado da eliminação das barreiras que impedem esse exercício da cidadania.

Isso exige mais do que leis. Exige mudança de comportamento, planejamento, acessibilidade e disposição para ouvir.

Uma escola inclusiva precisa pensar em todos os alunos. Uma empresa inclusiva precisa criar condições reais de participação. Um espaço cultural precisa considerar diferentes formas de acesso. Um evento esportivo precisa garantir que pessoas com diferentes necessidades possam participar.

Inclusão começa pelo reconhecimento do outro

A mensagem deixada por Maria Dolores no encerramento da entrevista aponta para uma transformação que depende de cada pessoa: consideração de que o outro tem os mesmos direitos e precisa ter oportunidades para exercer esses direitos.

Incluir é permitir que uma pessoa pertença. É garantir a voz. É conformidade com as escolhas. É abrir caminhos para que talentos e capacidades possam se desenvolver.

A história da própria professora mostra que oportunidades podem mudar trajetórias. Mesmo diante de especificações físicas, dificuldades e dificuldades financeiras internacionais, ela continuou estudando e completando uma carreira acadêmica como pedagoga, mestre e doutora em Educação, professora e escritora.

A reflexão, portanto, ultrapassa a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla.

Que barreira você pode ajudar a remover?

Pode ser uma barreira física, quando um espaço não oferece acessibilidade. Pode ser comunicacional, quando uma informação não está disponível de forma acessível. Pode ser atitudinal, quando alguém é subestimado por causa de sua deficiência.

A inclusão acontece quando deixamos de perguntar apenas se a pessoa consegue se adaptar e começamos a perguntar: o que a sociedade precisa mudar para que todos possam participar?

Porque inclusão não é colocar pessoas diferentes dentro de espaços que continuam inacessíveis. É transformar os espaços, as relações e as oportunidades para que todos tenham o direito de pertencer.

Incluir é mais do que falar. É ouvir, respeitar e agir.

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