Deficiência não define: inclusão começa quando oportunidades se transformam em direitos
A deficiência não define quem uma pessoa é, o que ela pode fazer ou até onde pode chegar. O que muitas vezes limita sua participação na sociedade são as barreiras construídas ao redor dela: físicas, comunicacionais, pedagógicas, sociais e, principalmente, atitudinais.
Essa é uma das principais reflexões apresentadas pela professora Maria Dolores Fortes Alves durante entrevista ao programa Inclusão em Foco. Doutora e mestre em Educação, professora da Universidade Federal de Alagoas e escritora, Maria Dolores conhece de perto os desafios impostos pelas limitações físicas e pelas dificuldades de acesso à educação. Na infância, passou longos períodos internada e precisou encontrar caminhos próprios para continuar estudando.
Sua trajetória ajuda a compreender uma questão fundamental: o problema não está apenas na deficiência, mas nas barreiras que impedem a pessoa de participar plenamente da sociedade.
Durante a entrevista, Maria Dolores destacou o tema da Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla: “Deficiência não define, oportunidade transforma, inclua a nossa voz”. Para ela, ainda é necessário combater a associação equivocada entre deficiência e incapacidade. O preconceito, segundo a professora, também nasce da falta de informação e do desconhecimento sobre as potencialidades das pessoas com deficiência.
Inclusão não é apenas acesso
Ter uma vaga na escola, entrar em uma empresa, frequentar um teatro ou participar de uma atividade esportiva não significa, por si só, estar incluído.
É preciso garantir condições para que a pessoa possa participar com autonomia, segurança e dignidade.
Na educação, isso envolve acessibilidade pedagógica e curricular, profissionais preparados e recursos de tecnologia assistiva. No trabalho, significa combater o capacitismo, adaptar condições e promover relações baseadas no respeito. Na cultura, é necessário pensar em acessibilidade física e também em recursos de comunicação e informação. No esporte e no lazer, os espaços e equipamentos precisam permitir a participação de diferentes pessoas.
A inclusão, portanto, não pode ser tratada como favor, concessão ou gesto de solidariedade. Ela está relacionada ao direito de participar da vida em sociedade.
“Nada sobre nós sem nós”
Um dos pontos centrais da entrevista é o protagonismo das próprias pessoas com deficiência.
Maria Dolores reforça o princípio conhecido como “Nada sobre nós sem nós”: decisões, políticas públicas e iniciativas que afetam diretamente a vida das pessoas com deficiência precisam contar com a participação delas.
Não basta falar sobre inclusão. É preciso ouvir quem vivencia as barreiras diariamente.
Participar das decisões significa reconhecer que a pessoa com deficiência é sujeito de direitos, capaz de expressar desejos, necessidades, opiniões e escolhas sobre a própria vida.
Proteção não pode significar isolamento
A família também tem papel importante nesse processo. Diante do preconceito e das dificuldades enfrentadas no cotidiano, é compreensível que pais e responsáveis tentem proteger seus filhos de situações que possam causar sofrimento.
Mas proteção excessiva pode acabar restringindo experiências importantes para o desenvolvimento da autonomia.
Maria Dolores chama atenção para a necessidade de equilíbrio entre proteção e independência. Com apoio adequado, a pessoa pode enfrentar barreiras, desenvolver autonomia e ocupar espaços sociais com participação e segurança.
A pergunta que fica para as famílias é simples, mas profunda: estamos protegendo para preparar para a vida ou protegendo de tal maneira que estamos impedindo a pessoa de vivê-la?
A responsabilidade é de todos
Construir uma sociedade inclusiva não é tarefa exclusiva das famílias ou das instituições especializadas. Poder público, escolas, empresas, espaços culturais, organizações esportivas e toda a sociedade têm responsabilidades nesse processo.
O direito de ir e vir, estudar, trabalhar, praticar esportes, participar da cultura e ocupar os espaços públicos precisa ser acompanhado da eliminação das barreiras que impedem esse exercício de cidadania.
Isso exige mais do que leis. Exige mudança de comportamento, planejamento, acessibilidade e disposição para ouvir.
Uma escola inclusiva precisa pensar em todos os alunos. Uma empresa inclusiva precisa criar condições reais de participação. Um espaço cultural precisa considerar diferentes formas de acesso. Um evento esportivo precisa garantir que pessoas com diferentes necessidades possam participar.
Inclusão começa pelo reconhecimento do outro
A mensagem deixada por Maria Dolores no encerramento da entrevista aponta para uma transformação que depende de cada pessoa: reconhecer que o outro tem os mesmos direitos e precisa ter oportunidades para exercer esses direitos.
Incluir é permitir que a pessoa pertença. É garantir voz. É respeitar escolhas. É abrir caminhos para que talentos e capacidades possam se desenvolver.
A história da própria professora mostra que oportunidades podem mudar trajetórias. Mesmo diante de limitações físicas, internações frequentes e dificuldades financeiras, ela continuou estudando e construiu uma carreira acadêmica como pedagoga, mestre e doutora em Educação, professora e escritora.
A reflexão, portanto, ultrapassa a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla.
Que barreira você pode ajudar a remover?
Pode ser uma barreira física, quando um espaço não oferece acessibilidade. Pode ser comunicacional, quando uma informação não está disponível de forma acessível. Pode ser atitudinal, quando alguém é subestimado por causa de sua deficiência.
Inclusão acontece quando deixamos de perguntar apenas se a pessoa consegue se adaptar e começamos a perguntar: o que a sociedade precisa mudar para que todos possam participar?
Porque inclusão não é colocar pessoas diferentes dentro de espaços que continuam inacessíveis. É transformar os espaços, as relações e as oportunidades para que todos tenham o direito de pertencer.
Incluir é mais do que falar. É ouvir, respeitar e agir.




