Dez anos de domínio: como o futebol brasileiro tomou conta da Libertadores
A Copa Libertadores viveu, entre 2016 e 2025, uma das maiores mudanças de força de sua história recente. Em dez edições, o futebol brasileiro conquistou sete títulos, contra duas conquistas de outros países: Atlético Nacional, da Colômbia, em 2016, e River Plate, da Argentina, em 2018.
O resultado significa que clubes brasileiros ficaram com 70% das taças disputadas no período. A sequência também revela uma mudança ainda mais significativa: depois de 2016, o Brasil apareceu em pelo menos um dos lados da decisão em oito das nove edições seguintes.
A lista de campeões da década é formada por Atlético Nacional (2016), Grêmio (2017), River Plate (2018), Flamengo (2019), Palmeiras (2020 e 2021), Flamengo (2022), Fluminense (2023), Botafogo (2024) e Flamengo (2025).
Sete títulos brasileiros
O domínio não ficou concentrado em apenas um clube.
O Flamengo conquistou três das dez edições analisadas: 2019, 2022 e 2025. O Palmeiras venceu duas consecutivas, em 2020 e 2021. Grêmio, Fluminense e Botafogo completam a relação, com um título cada.
Somados, esses clubes produziram sete campeonatos brasileiros em dez anos.
O Flamengo, particularmente, tornou-se um dos símbolos dessa transformação. A conquista de 2025 levou o clube ao tetracampeonato da Libertadores, com títulos em 1981, 2019, 2022 e 2025.
O Palmeiras também teve uma sequência histórica. Sob o comando de Abel Ferreira, ganhou as edições de 2020 e 2021, tornando-se o primeiro clube desde o Boca Juniors de 2000 e 2001 a conquistar duas Libertadores consecutivas.
2016: a última grande exceção
A década começou justamente com um sinal de que a história poderia seguir outro caminho.
O Atlético Nacional venceu o Independiente del Valle e conquistou a Libertadores de 2016. A decisão foi especialmente simbólica porque, pela primeira vez desde 1991, a final não teve clubes brasileiros ou argentinos.
O clube colombiano venceu a equipe equatoriana por 1 a 0 na partida de volta, depois de empate por 1 a 1 no primeiro jogo, e levantou sua segunda Libertadores.
Foi a última edição do período em que o título ficou fora do eixo Brasil-Argentina e também a última final da década sem um clube brasileiro ou argentino.
2017: Renato Gaúcho entre os protagonistas
Em 2017, o Grêmio interrompeu um jejum de 22 anos sem conquistar a Libertadores.
A equipe comandada por Renato Gaúcho derrotou o Lanús na decisão e levantou seu terceiro troféu continental.
A conquista também entrou para a história pessoal de Renato. Campeão da Libertadores como jogador pelo Grêmio em 1983, ele voltou a conquistar o torneio mais de três décadas depois, desta vez como treinador.
É uma das histórias mais curiosas da competição: Renato passou a integrar o grupo de pessoas que conquistaram a Libertadores tanto dentro quanto fora de campo.
2018: a final que saiu da América do Sul
Se o futebol brasileiro voltou a aparecer na decisão em 2017, 2018 produziu uma das finais mais incomuns da história da Libertadores.
River Plate e Boca Juniors fizeram o primeiro Superclássico argentino em uma decisão do torneio. O jogo de ida terminou empatado por 2 a 2 na Bombonera.
A partida de volta, entretanto, não aconteceu no Monumental de Núñez.
Após incidentes envolvendo o ônibus do Boca Juniors antes do segundo jogo, a Conmebol transferiu a decisão para o Santiago Bernabéu, em Madri. Foi a primeira vez que a Libertadores teve sua final decidida fora da América. O River venceu por 3 a 1 na prorrogação e conquistou o título.
A imagem do Superclássico argentino sendo decidido na casa do Real Madrid permanece como um dos episódios mais marcantes da competição.
2019: a virada histórica do Flamengo
A partir de 2019, o cenário começou a mudar de forma ainda mais evidente.
Flamengo e River Plate decidiram a Libertadores em Lima, na primeira final disputada em jogo único. O clube argentino vencia por 1 a 0 até os minutos finais, quando Gabriel Barbosa marcou duas vezes e virou a partida.
O Flamengo conquistou seu segundo título continental e iniciou uma sequência que faria do clube um dos grandes protagonistas da Libertadores na década.
A final também marcou uma mudança estrutural da competição: a partir de 2019, a decisão passou a ser disputada em partida única.
2020: uma Libertadores que terminou em 2021
A edição de 2020 foi diretamente afetada pela pandemia de Covid-19. A competição foi interrompida e retomada meses depois, fazendo com que a decisão fosse disputada somente em janeiro de 2021.
Palmeiras e Santos fizeram uma final brasileira no Maracanã. Sem venda de ingressos ao público, a Conmebol estabeleceu um limite de aproximadamente 5 mil pessoas credenciadas, dentro dos protocolos sanitários da época.
Em campo, o Palmeiras venceu por 1 a 0 com um gol de Breno Lopes nos acréscimos.
Foi também a primeira final entre dois clubes paulistas disputada no Maracanã.
2021: Palmeiras repete o feito
A edição seguinte terminou novamente com o Palmeiras campeão.
O adversário foi o Flamengo, e a decisão aconteceu no Estádio Centenário, em Montevidéu. O jogo terminou 2 a 1 para o clube paulista na prorrogação.
Deyverson marcou o gol do título depois de uma falha de Andreas Pereira e garantiu ao Palmeiras o bicampeonato consecutivo.
A sequência colocou Abel Ferreira em um grupo restrito de treinadores que conquistaram duas Libertadores consecutivas.
2022: Flamengo novamente no topo
Em 2022, o Flamengo voltou à decisão e enfrentou o Athletico-PR em Guayaquil, no Equador.
O time carioca venceu por 1 a 0 e conquistou sua terceira Libertadores. A campanha teve uma particularidade: o Flamengo terminou o torneio invicto.
Foi a segunda vez, em apenas quatro anos, que o clube carioca conquistou a América.
2023: o primeiro título do Fluminense
O Fluminense chegou à sua primeira final de Libertadores em 2008 e precisou esperar 15 anos para retornar à decisão.
Em 2023, novamente no Maracanã, o adversário foi o Boca Juniors.
A partida terminou empatada em 1 a 1 no tempo regulamentar. Na prorrogação, John Kennedy marcou o gol que deu ao Fluminense seu primeiro título da Libertadores.
O título também teve um personagem curioso: Fernando Diniz, treinador do Fluminense, apostou na recuperação de John Kennedy, que havia retornado de empréstimo à Ferroviária no início daquela temporada. O atacante acabou marcando o gol decisivo da final.
2024: Botafogo entra para a história
A final de 2024 colocou frente a frente dois clubes brasileiros: Botafogo e Atlético-MG.
O jogo foi disputado no Monumental de Buenos Aires e terminou 3 a 1 para o Botafogo.
A partida teve uma particularidade: o clube carioca jogou praticamente toda a decisão com um jogador a menos, depois de uma expulsão ainda nos primeiros minutos. Mesmo assim, venceu e conquistou sua primeira Libertadores.
O título completou uma temporada histórica para o Botafogo, que também conquistou o Campeonato Brasileiro.
2025: Flamengo alcança o tetra
A década terminou com outra final brasileira.
Flamengo e Palmeiras decidiram a Libertadores de 2025, e o clube carioca venceu por 1 a 0, com gol de Danilo.
Com o resultado, o Flamengo chegou ao quarto título de sua história e tornou-se o primeiro clube brasileiro tetracampeão da Libertadores.
A conquista também teve um significado especial para Filipe Luís. Depois de ter sido campeão da Libertadores como jogador do Flamengo em 2019 e 2022, ele voltou a levantar o troféu em 2025 como treinador. A Conmebol registra o feito como o caso mais recente de alguém campeão da competição nas duas funções.
O que os números mostram
Considerando exclusivamente as dez edições de 2016 a 2025:
Brasil: 7 títulos — 70%
Argentina: 1 título — 10%
Colômbia: 1 título — 10%
Equador: 1 título — 10%
Além dos sete títulos, clubes brasileiros estiveram em 11 das 20 vagas de finalistas dessas dez decisões. E, de 2017 a 2025, apenas a final de 2018 não teve um representante brasileiro.
A concentração fica ainda mais evidente quando se observa o período mais recente. Desde 2017, segundo levantamento publicado em 2026, nenhuma equipe de fora de Brasil e Argentina chegou à final da Libertadores. Nesse intervalo, brasileiros foram finalistas 13 vezes e conquistaram oito títulos; argentinos tiveram cinco participações e um título.
Há, portanto, uma mudança que vai além da quantidade de troféus. O futebol brasileiro passou a ocupar com frequência as fases decisivas, levou diferentes clubes ao título e conseguiu manter presença constante mesmo com mudanças de treinadores, formatos e gerações de jogadores.
A Libertadores que começou a década com uma final entre Atlético Nacional e Independiente del Valle terminou 2025 com uma decisão brasileira entre Flamengo e Palmeiras. Em dez anos, o centro de gravidade da competição mudou — e os números ajudam a explicar por quê.






