Uso excessivo de IA pode reduzir exercício cognitivo no trabalho, aponta pesquisa

Estudo desenvolvido na UTFPR alerta para possíveis impactos da terceirização de tarefas intelectuais e defende uso da tecnologia como apoio, não substituição do raciocínio

Foto: Reprodução
  • Ane Xavier
  • Atualizado: 18/09/2026, 04:28h

O avanço da inteligência artificial no ambiente de trabalho tem aumentado a velocidade e a eficiência de diversas atividades, mas também levanta uma questão sobre o impacto do uso excessivo dessas ferramentas nas capacidades cognitivas dos profissionais.

É nesse contexto que pesquisadores passaram a discutir o chamado “brain fry”, expressão usada para descrever um possível esgotamento ou enfraquecimento das habilidades de pensamento associado à delegação frequente de tarefas intelectuais para sistemas de inteligência artificial.

A pesquisa desenvolvida na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) pelo doutor em engenharia organizacional Rodrigo de Barros analisa a relação entre o exercício das capacidades cognitivas, criatividade e inovação no ambiente profissional. Segundo o pesquisador, habilidades como aprendizagem, reflexão e capacidade de estabelecer conexões entre diferentes conhecimentos precisam ser continuamente exercitadas.

A preocupação, portanto, não está no uso da IA em si, mas na possibilidade de que ela substitua de forma recorrente atividades que exigem raciocínio. “Quando esses processos deixam de ser exercitados, existe o risco de empobrecimento cognitivo, reduzindo justamente as competências que diferenciam pessoas das máquinas”, afirma Rodrigo.

O que acontece quando a IA faz parte do trabalho?

O pesquisador compara o fenômeno ao impacto de outras tecnologias sobre determinadas habilidades humanas. Calculadoras reduziram a necessidade de realizar operações matemáticas mentalmente, enquanto sistemas de navegação diminuíram a necessidade de memorizar trajetos e desenvolver orientação espacial.

A diferença, segundo ele, é que as ferramentas de inteligência artificial passaram a atuar diretamente sobre atividades relacionadas ao pensamento, como elaboração de textos, organização de argumentos, geração de ideias e análise de informações. “Agora, pela primeira vez, uma tecnologia começa a substituir atividades relacionadas ao pensamento complexo”, afirma.

A pesquisa analisou inicialmente 1.004 artigos científicos internacionais. A partir de critérios definidos pelo estudo, foram selecionados 101 trabalhos considerados de maior impacto para a construção do modelo utilizado na pesquisa.

O trabalho também resultou no desenvolvimento de um protótipo chamado Sistema Web MACI, destinado a realizar diagnósticos automatizados e sugerir intervenções para profissionais de recursos humanos e lideranças. De acordo com Rodrigo, quando o sistema identifica uma dimensão com pontuação inferior a 3,5, os dados são relacionados à literatura científica utilizada na pesquisa para indicar possíveis ações.

Criatividade depende de exercício

Para o pesquisador, a criatividade não é apenas uma característica individual, mas também resultado de processos que envolvem aprendizagem, memória, experimentação e combinação de conhecimentos.

Nesse sentido, recorrer constantemente à IA para elaborar respostas ou desenvolver ideias pode reduzir a participação do profissional nessas etapas. “Pensar continua sendo um exercício”, afirma.

A pesquisa defende que a capacidade de produzir soluções originais depende, entre outros fatores, da possibilidade de combinar conhecimentos acumulados, estabelecer conexões e analisar problemas por diferentes perspectivas.

Isso não significa que a inteligência artificial deva ser evitada. A proposta apresentada pelo pesquisador é utilizar essas ferramentas para ampliar o raciocínio humano, mantendo o profissional envolvido na análise, na formulação de perguntas, na verificação das informações e na tomada de decisões.

IA como ferramenta, não substituta

A discussão ganha espaço à medida que empresas incorporam ferramentas generativas a atividades como marketing, elaboração de documentos, estratégias comerciais e produção de apresentações. Para Rodrigo, o desafio está em encontrar equilíbrio entre produtividade e desenvolvimento das competências humanas.

Entre as práticas apontadas estão reuniões para resolução colaborativa de problemas, debates entre diferentes áreas, programas de aprendizagem contínua e espaços destinados à experimentação. A ideia é evitar que a facilidade de obter uma resposta pronta reduza a necessidade de questionar, analisar e construir soluções próprias.

O pesquisador também cita estudos e recomendações internacionais que apontam criatividade, aprendizagem contínua e resolução de problemas complexos entre as competências relevantes para o futuro do trabalho.

Nesse cenário, o chamado “brain fry” é apresentado na pesquisa como um alerta sobre os possíveis efeitos da dependência excessiva da inteligência artificial para tarefas cognitivas. A questão central não é deixar de utilizar a tecnologia, mas preservar o exercício das capacidades humanas enquanto ela se torna cada vez mais presente no cotidiano profissional.

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