Fisioterapia esportiva vai além do tratamento de lesões e pode ajudar a prevenir problemas, explica especialista

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 21/09/2026, 04:00h

A prática esportiva ganhou espaço na rotina de pessoas que buscam saúde, lazer e qualidade de vida. Mas o aumento da intensidade dos treinos e a participação cada vez mais frequente em competições também exige atenção aos limites do corpo. Para o fisioterapeuta Fabrício Espinola, profissional com 17 anos de atuação na área de traumato-ortopedia, a fisioterapia esportiva não deve ser associada apenas ao tratamento de quem já sofreu uma lesão.

Em entrevista ao Giro Esportivo, Fabrício destacou a importância do acompanhamento preventivo, principalmente entre adultos que iniciam uma nova modalidade esportiva ou aumentam rapidamente a intensidade dos exercícios.

Segundo ele, modalidades que se popularizaram nos últimos anos, como beach tennis, futevôlei, crossfit, tênis e corrida, têm levado muitas pessoas que antes não praticavam exercícios regularmente a participar também de competições. O problema, explica o fisioterapeuta, é que o corpo precisa de tempo para se adaptar às novas demandas.

“Hoje, as pessoas não estão apenas praticando atividade física. O esporte faz parte da vida delas. E, muitas vezes, o iniciante começa a competir poucas semanas depois de iniciar uma modalidade.”

Fabrício chama atenção especialmente para quem começa a praticar esportes já na idade adulta. Segundo ele, limitações adquiridas ao longo da vida podem permanecer sem sintomas durante anos e aparecer quando o organismo passa a ser submetido a cargas maiores.

Dor durante o exercício merece atenção

Um dos principais alertas feitos pelo fisioterapeuta está relacionado à dor durante a atividade física. Para ele, insistir no exercício diante de um sinal doloroso recorrente pode aumentar a sobrecarga sobre determinada estrutura do corpo.

“Se você apresenta um sinal repetitivo de informação dolorosa, é preciso moderar e parar. O corpo está mostrando alguma coisa”, explicou.

Ele também diferenciou uma eventual fadiga muscular de dores localizadas em articulações ou estruturas como tendões e ligamentos. Joelho, tornozelo e quadril, por exemplo, merecem atenção quando começam a apresentar dor durante ou depois do exercício.

A recomendação é não utilizar medicamentos simplesmente para mascarar a dor e continuar treinando. O sintoma pode ser um indicativo de que a carga de treinamento está acima da capacidade de recuperação do organismo.

Corrida exige progressão e adaptação

A corrida foi um dos exemplos discutidos durante a entrevista. Fabrício explicou que o aumento rápido da distância ou da intensidade pode favorecer o aparecimento de problemas, principalmente entre iniciantes ou pessoas que estão retornando à atividade depois de um período parado.

A chamada “canelite”, por exemplo, pode estar relacionada à sobrecarga e à incapacidade de determinadas estruturas musculares de acompanhar a demanda imposta pela corrida.

O fisioterapeuta ressaltou que nem sempre o local onde a dor aparece é necessariamente a origem do problema. Uma alteração no quadril ou uma deficiência muscular, por exemplo, pode repercutir sobre outras regiões do corpo.

Por isso, a avaliação individual é importante para identificar fatores que possam estar contribuindo para o surgimento dos sintomas.

Corpo precisa de tempo para se adaptar

Outro ponto destacado na entrevista foi a diferença entre o treinamento de um atleta profissional e o de uma pessoa que começa a praticar esporte na idade adulta.

Atletas de alto rendimento costumam contar com acompanhamento contínuo e histórico detalhado de treinamento, lesões, recuperação e desempenho. Já o praticante recreativo pode chegar ao esporte carregando limitações que nunca foram identificadas.

“Um adulto que começa a praticar uma atividade tem muitas lacunas, dependendo da vida pregressa. Esses déficits podem ficar adormecidos no início e aparecer depois com a atividade”, afirmou.

Fabrício também destacou a importância do fortalecimento muscular, especialmente dos músculos estabilizadores, que ajudam a manter o controle dos movimentos durante a prática esportiva.

Recuperação de lesões mudou

A evolução da fisioterapia e da medicina esportiva também transformou a forma como as lesões são tratadas. De acordo com Fabrício, durante muito tempo o tratamento esteve associado principalmente ao repouso e à tentativa de eliminar o processo inflamatório.

Hoje, segundo ele, a abordagem é mais ampla. O processo inflamatório faz parte da recuperação de determinados tecidos e, em muitas situações, o objetivo é preservar movimentos e funções enquanto o organismo se recupera, respeitando, evidentemente, as características e a gravidade de cada lesão.

O avanço tecnológico, os recursos terapêuticos, o conhecimento sobre fisiologia do exercício e a integração entre diferentes profissionais também contribuíram para acelerar e qualificar a recuperação de atletas.

Trabalho multidisciplinar

Para Fabrício Espinola, fisioterapeutas, médicos, educadores físicos, treinadores, nutricionistas e outros profissionais precisam trabalhar de forma integrada quando necessário.

No esporte de alto rendimento, essa atuação conjunta já faz parte da rotina de muitos atletas. Para os praticantes amadores, a lógica também pode ser importante, especialmente quando existe histórico de lesões ou quando a pessoa pretende aumentar significativamente a carga de treinamento.

A avaliação médica antes do início de determinadas atividades também pode identificar condições que precisam ser acompanhadas. O fisioterapeuta citou a importância de considerar aspectos cardiovasculares, metabólicos e outros fatores relacionados à condição individual de cada praticante.

Sono e alimentação também fazem parte da preparação

A prevenção de lesões, segundo o especialista, não depende apenas da fisioterapia. Sono adequado, alimentação equilibrada, preparação física e aquecimento antes da atividade também fazem parte do processo.

Fabrício alertou ainda para uma situação comum: pessoas que começam a praticar exercícios tentando compensar hábitos alimentares inadequados ou outros excessos. Para ele, saúde e desempenho dependem de equilíbrio entre diferentes aspectos da rotina.

Inspiração é importante, mas comparação pode ser perigosa

Outro ponto abordado foi a influência dos ídolos esportivos. Quem começa a correr pode se inspirar em um corredor de alto rendimento; quem entra na natação pode ter como referência um campeão olímpico. O problema surge quando o iniciante tenta reproduzir imediatamente o desempenho de alguém que levou anos para chegar àquele nível.

“Você vai ter aquele que te inspira, mas não queira começar a praticar esporte no nível dele. Ele tem uma caminhada que está fazendo”, afirmou.

A progressão gradual, portanto, é fundamental. Na corrida, por exemplo, sair de distâncias menores para percursos mais longos exige adaptação progressiva do organismo.

Orientação para quem quer começar

Para quem pretende iniciar uma atividade física, Fabrício recomenda começar com moderação e observar as respostas do próprio corpo.

Ao perceber algum sintoma, a orientação é conversar com o professor ou treinador. Quando necessário, o praticante deve procurar um fisioterapeuta ou médico ortopedista para investigar a causa do problema.

A mensagem central deixada pelo fisioterapeuta durante a entrevista é que a prática esportiva pode fazer parte de uma vida mais ativa e saudável, mas precisa respeitar o processo de adaptação do organismo.

Mais do que simplesmente tratar uma lesão depois que ela aparece, a fisioterapia esportiva pode participar da avaliação, da prevenção, do fortalecimento e da recuperação, sempre considerando as características individuais de cada praticante.

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