25 anos do 11 de Setembro: o dia que mudou a política, a segurança e a vida de milhões de pessoas

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 11/09/2026, 08:39h

Um quarto de século depois dos ataques que mataram 2.977 pessoas, o 11 de Setembro continua presente na política internacional, nas guerras, nas políticas de segurança, nas relações entre povos e na memória de uma geração que cresceu sob a ideia de que o mundo havia se tornado mais perigoso

Em 11 de setembro de 2001, o mundo assistiu, praticamente em tempo real, a uma sequência de acontecimentos que alteraria profundamente a política internacional. Às 8h46, um avião atingiu a Torre Norte do World Trade Center, em Nova York. Dezessete minutos depois, às 9h03, outro avião atingiu a Torre Sul.

Às 9h37, uma terceira aeronave foi lançada contra o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Pouco depois, o quarto avião, o United Airlines 93, caiu em um campo próximo a Shanksville, na Pensilvânia, depois que passageiros e tripulantes tentaram retomar o controle da aeronave.

Os quatro aviões haviam sido sequestrados por 19 integrantes da rede extremista al-Qaeda. Os ataques mataram 2.977 pessoas, sem contar os sequestradores. As vítimas eram de diferentes nacionalidades, profissões, idades e origens. Mais de 400 socorristas morreram naquele dia, entre bombeiros, policiais e outros profissionais de emergência. Quase 3 mil crianças perderam um dos pais.

Vinte e cinco anos depois, a pergunta já não é apenas o que aconteceu naquela manhã.

É também: como foi possível que acontecesse? O que levou ao ataque? O que os Estados Unidos fizeram depois? E quanto o mundo mudou desde então?

Antes das torres caírem

O 11 de Setembro não surgiu de um vazio histórico.

A al-Qaeda havia se desenvolvido durante a década de 1980, no contexto da guerra soviética no Afeganistão, e posteriormente transformou-se em uma organização internacional liderada por Osama bin Laden.

O grupo já havia realizado ou planejado ataques contra interesses norte-americanos antes de 2001.

Em 1993, uma bomba explodiu no estacionamento subterrâneo do World Trade Center. O atentado matou seis pessoas e feriu mais de mil. O episódio demonstrava que o complexo empresarial de Nova York já era considerado um alvo por grupos extremistas.

Em 1998, ataques contra as embaixadas dos Estados Unidos no Quênia e na Tanzânia mataram mais de 200 pessoas.

Em 2000, o destróier norte-americano USS Cole foi atacado no Iêmen. Dezessete militares norte-americanos morreram.

A ameaça existia. O problema foi que ela não foi suficientemente compreendida, integrada e transformada em uma resposta capaz de impedir o ataque de 2001.

O que motivou os terroristas?

A explicação exige cuidado.

Os ataques foram praticados por uma organização extremista que defendia uma interpretação violenta e radical do islamismo. Isso não significa que o islamismo ou os muçulmanos sejam responsáveis pelo terrorismo da al-Qaeda.

Os documentos e investigações posteriores mostram que a liderança da organização apresentava como justificativas para sua luta a presença militar norte-americana na Arábia Saudita, as políticas dos Estados Unidos no Oriente Médio, o apoio norte-americano a Israel e a atuação militar e econômica dos EUA em países muçulmanos.

Esses elementos aparecem na propaganda e nos discursos de Osama bin Laden. Eles ajudam a compreender a visão política da al-Qaeda, mas não justificam os ataques nem transformam suas vítimas em responsáveis pela violência.

Essa distinção é fundamental para compreender o período sem transformar uma investigação histórica em propaganda de qualquer lado.

A própria trajetória da al-Qaeda demonstra que o objetivo era muito mais amplo do que uma reação a um único acontecimento. O grupo pretendia atacar símbolos do poder militar, político e econômico dos Estados Unidos.

As falhas que permitiram o 11 de Setembro

Talvez uma das conclusões mais importantes da investigação oficial norte-americana seja esta: os Estados Unidos receberam informações que indicavam uma ameaça crescente, mas não conseguiram transformá-las em uma ação preventiva eficaz.

A Comissão Nacional sobre os Ataques Terroristas aos Estados Unidos, conhecida como Comissão do 11 de Setembro, identificou falhas em diferentes áreas do governo.

Havia problemas de compartilhamento de informações entre órgãos de inteligência e segurança. Existiam barreiras burocráticas. Informações importantes estavam espalhadas por diferentes instituições e não foram reunidas de maneira eficiente.

Também houve falhas relacionadas ao sistema de aviação.

Naquele momento, os procedimentos da Administração Federal de Aviação, a FAA, e do Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte, o NORAD, estavam estruturados principalmente para responder a sequestros convencionais de aeronaves.

O protocolo pressupunha, em grande medida, que um avião sequestrado poderia ser identificado, acompanhado e conduzido para algum aeroporto.

Os ataques de 11 de setembro romperam completamente essa lógica: os próprios aviões foram transformados em armas.

A Comissão do 11 de Setembro concluiu que tanto a FAA quanto o NORAD estavam despreparados para aquele tipo de ataque.

Isso não significa que o ataque fosse inevitável.

Significa que o sistema de defesa norte-americano não conseguiu interpretar adequadamente os sinais existentes e responder à ameaça com a velocidade necessária.

Essa é uma das principais lições históricas do episódio: não basta possuir informações. É necessário compartilhá-las, interpretá-las corretamente e ter instituições capazes de agir a partir delas.

A manhã que mudou o mundo

Depois do primeiro impacto, muitas pessoas acreditaram que se tratava de um acidente.

O segundo avião destruiu essa hipótese.

Quando a segunda aeronave atingiu a Torre Sul, milhões de pessoas compreenderam que estavam diante de um ataque coordenado.

As imagens das torres em chamas foram transmitidas repetidamente pelas emissoras de televisão. Pela primeira vez, uma população global acompanhava um atentado dessa dimensão praticamente em tempo real.

Às 9h59, a Torre Sul desabou.

Às 10h03, o voo 93 caiu na Pensilvânia.

Às 10h28, a Torre Norte desabou.

O cenário em Nova York era de destruição.

Cerca de 1,8 milhão de toneladas de destroços seriam posteriormente retiradas do local. O trabalho de recuperação e limpeza no World Trade Center durou aproximadamente nove meses.

Mas a tragédia não terminou naquele dia.

As vítimas que continuam morrendo

Uma das consequências menos conhecidas do 11 de Setembro está relacionada à saúde.

Bombeiros, policiais, trabalhadores de emergência, voluntários e moradores foram expostos à poeira e a substâncias tóxicas produzidas pelo colapso dos edifícios e pela queima dos materiais.

Ao longo dos anos, milhares de pessoas passaram a apresentar doenças relacionadas à exposição no entorno do World Trade Center.

Em 2026, na cerimônia do 25º aniversário, o Memorial do 11 de Setembro incluiu, pela primeira vez, um sétimo momento de silêncio dedicado às pessoas que morreram posteriormente em decorrência de doenças relacionadas aos ataques e às operações de resgate, recuperação e limpeza.

É uma mudança importante na própria maneira de contar a história.

O 11 de Setembro não é apenas o número de pessoas que morreram naquela manhã.

Existe também uma segunda dimensão da tragédia: aqueles que sobreviveram ao ataque, mas tiveram suas vidas profundamente afetadas pelas consequências físicas e psicológicas da exposição e do trauma.

A resposta norte-americana

Poucas semanas depois dos ataques, os Estados Unidos aprovaram o USA PATRIOT Act, ampliando instrumentos de investigação e vigilância utilizados pelo governo no combate ao terrorismo. O Departamento de Justiça atribui à legislação papel importante na identificação e interrupção de conspirações terroristas.

A segurança dos aeroportos também mudou radicalmente.

A Transportation Security Administration, a TSA, foi criada como resposta aos ataques de 11 de Setembro. O controle de passageiros, bagagens e acesso às aeronaves passou por profundas transformações.

Em 2002, o governo norte-americano criou o Department of Homeland Security, o Departamento de Segurança Interna, reunindo diferentes estruturas relacionadas à segurança nacional.

O FBI também transformou sua estrutura e sua forma de trabalhar com outras agências.

O terrorismo passou a ocupar uma posição central na política externa e na segurança interna dos Estados Unidos.

Mas essa transformação abriu uma discussão que permanece atual:

até onde um Estado pode ampliar seus mecanismos de segurança sem comprometer direitos individuais?

O debate sobre privacidade, vigilância, liberdade de expressão e poderes estatais ganhou uma dimensão completamente nova depois de 2001.

A guerra do Afeganistão

Em outubro de 2001, os Estados Unidos iniciaram operações militares no Afeganistão contra o regime Talibã, que havia oferecido abrigo à liderança da al-Qaeda.

A guerra se prolongou por duas décadas.

Os Estados Unidos permaneceram militarmente no país até a retirada de suas tropas em 2021.

O conflito tornou-se uma das guerras mais longas da história norte-americana.

Mas a história pós-11 de Setembro não ficou restrita ao Afeganistão.

Em 2003, os Estados Unidos invadiram o Iraque.

Aqui é necessário fazer uma distinção histórica importante: a invasão do Iraque não foi uma resposta militar direta ao ataque de 11 de Setembro no sentido de que o Iraque não foi o país responsável pelo atentado.

O debate sobre armas de destruição em massa, terrorismo e segurança nacional foi utilizado pelo governo de George W. Bush para sustentar a invasão, mas posteriormente não foram encontradas as armas de destruição em massa que haviam sido apresentadas como justificativa central para a guerra.

A guerra do Iraque ampliou ainda mais a instabilidade no Oriente Médio e teve consequências políticas e humanas que se estenderam por muitos anos.

A guerra contra o terrorismo ficou maior que os Estados Unidos

Depois de 2001, a chamada "guerra ao terror" deixou de ser apenas uma campanha contra a al-Qaeda.

Operações militares e de inteligência passaram a ocorrer em diferentes países.

Afeganistão, Iraque, Paquistão, Síria, Iêmen, Somália, Líbia e outros territórios foram envolvidos, em diferentes momentos, nas guerras e operações militares associadas ao período pós-11 de Setembro.

O projeto Costs of War, da Universidade Brown, estima que as guerras pós-11 de Setembro tenham produzido aproximadamente US$ 8 trilhões em custos, considerando conflitos no Afeganistão, Iraque, Paquistão, Síria e outros países. O mesmo projeto estima cerca de 38 milhões de pessoas deslocadas pelas guerras pós-11 de Setembro.

São números que ajudam a dimensionar uma consequência frequentemente esquecida.

O ataque matou milhares de pessoas em poucas horas.

A resposta militar produziu consequências que atingiram milhões de pessoas durante décadas.

O crescimento da xenofobia e da islamofobia

Outro legado sombrio foi social.

Depois dos ataques, pessoas de origem árabe, muçulmanos e integrantes de outras comunidades passaram a enfrentar episódios de discriminação e violência nos Estados Unidos e em outros países.

O problema não atingiu somente muçulmanos.

Sikhs, por exemplo, também foram vítimas de agressões porque parte dos autores de ataques passou a associar aparência, turbante ou barba a uma identidade que nada tinha a ver com os terroristas.

O FBI registra crimes motivados por preconceito religioso, étnico e racial e mantém categorias específicas para crimes anti-islâmicos, antiárabes e antissikh.

A consequência cultural foi profunda.

Em muitos lugares, a palavra "muçulmano" passou a ser associada, injustamente, à palavra "terrorismo".

Foi uma das grandes distorções produzidas pelo período.

A al-Qaeda era uma organização extremista.

Os muçulmanos não.

Essa diferença, que parece elementar, tornou-se uma questão política e social importante nas décadas seguintes.

Um mundo mais vigiado

Antes de 2001, atravessar um aeroporto era uma experiência muito diferente.

Depois do 11 de Setembro, controles de segurança tornaram-se parte da rotina.

Passaportes passaram a ser examinados com maior rigor. Sistemas de inteligência foram ampliados. Bancos e instituições financeiras receberam novas obrigações de monitoramento. Governos passaram a compartilhar mais informações sobre suspeitos.

O terrorismo também acelerou a cooperação internacional entre serviços de inteligência.

Ao mesmo tempo, surgiram debates sobre vigilância em massa, coleta de dados, interrogatórios, detenções sem julgamento e limites do poder estatal.

O episódio revelou uma contradição que continua presente:

sociedades democráticas precisam se proteger do terrorismo sem abandonar os princípios democráticos que pretendem defender.

E então veio a internet

Existe outro aspecto da história que costuma passar despercebido.

Em 2001, a internet ainda estava longe da dimensão que teria nas décadas seguintes.

Não havia redes sociais como Facebook, Instagram, YouTube ou TikTok.

Não havia smartphones.

A comunicação global era dominada pela televisão, pelo rádio, pelos jornais e pelos primeiros portais de internet.

O 11 de Setembro foi, portanto, um acontecimento de transição.

As imagens foram transmitidas pela televisão, mas a memória do evento seria posteriormente reconstruída pela internet e, mais tarde, pelas redes sociais.

A forma de consumir informação mudou.

A velocidade da circulação de imagens mudou.

E também mudou a velocidade com que informações falsas, teorias conspiratórias e discursos de ódio poderiam alcançar milhões de pessoas.

Uma geração nasceu depois do 11 de Setembro

Talvez essa seja uma das consequências mais profundas.

Milhões de pessoas que hoje são adultas não se lembram dos ataques.

Para elas, o 11 de Setembro é história.

Não existe memória pessoal das imagens das torres queimando. Não existe lembrança da interrupção das programações de televisão. Não existe a sensação de medo que tomou conta de Nova York e de outras cidades.

Em 2026, o próprio Memorial do 11 de Setembro estima que cerca de 100 milhões de norte-americanos são jovens demais para terem memória do acontecimento.

Isso cria uma responsabilidade histórica.

A nova geração precisa aprender sobre o 11 de Setembro sem transformar o episódio em uma narrativa simplificada de "bons contra maus".

É preciso entender terrorismo, radicalização, geopolítica, guerras, direitos humanos, xenofobia, segurança e democracia como partes de uma mesma história.

O mundo mudou, mas não necessariamente ficou mais seguro

Essa talvez seja a questão mais difícil.

Depois do 11 de Setembro, governos criaram novas estruturas de segurança. Serviços de inteligência passaram a compartilhar mais informações. Aeroportos foram transformados. O combate ao financiamento do terrorismo ganhou novas ferramentas. Organizações terroristas foram perseguidas internacionalmente.

Osama bin Laden foi localizado e morto por forças norte-americanas no Paquistão em 2011.

A al-Qaeda deixou de possuir a mesma capacidade operacional que tinha em 2001.

Mas o terrorismo não desapareceu.

Outros grupos surgiram ou cresceram.

O Estado Islâmico tornou-se uma das organizações extremistas mais poderosas da década de 2010 e controlou extensos territórios no Iraque e na Síria antes de perder esse domínio territorial.

O fenômeno da radicalização também mudou de natureza, com maior utilização da internet e das redes sociais.

O mundo de 2026, portanto, não é simplesmente o mundo de 2001 com mais tecnologia.

É um mundo moldado por duas décadas e meia de guerras, vigilância, terrorismo, migrações, crises políticas, transformações tecnológicas e disputas geopolíticas.

O custo que não aparece nas fotografias

As fotografias do 11 de Setembro mostram prédios destruídos, fumaça, bombeiros, pessoas correndo e uma cidade coberta de poeira.

Mas a história é maior do que aquelas imagens.

Há os filhos que cresceram sem pai ou mãe.

Há os sobreviventes que carregaram traumas.

Há os bombeiros e policiais que adoeceram anos depois.

Há os soldados enviados para guerras que ainda não haviam nascido quando os aviões atingiram as torres.

Há famílias afegãs e iraquianas que perderam parentes.

Há milhões de pessoas deslocadas por conflitos associados ao período.

Há muçulmanos, árabes e sikhs que enfrentaram preconceito.

Há crianças que cresceram em um mundo no qual aeroportos, fronteiras e sistemas de vigilância passaram a funcionar sob outra lógica.

E há uma geração inteira que recebeu como herança uma pergunta difícil:

como construir segurança sem transformar medo em política permanente?

Vinte e cinco anos depois

O 11 de Setembro não pode ser reduzido às imagens das Torres Gêmeas.

Foi um ataque terrorista planejado pela al-Qaeda.

Foi também uma demonstração de falhas de inteligência e de segurança.

Foi o início de uma transformação profunda da política externa dos Estados Unidos.

Foi o marco de duas décadas de guerras.

Foi responsável por mudanças na aviação, nas fronteiras e nos sistemas de inteligência.

Foi acompanhado pelo crescimento de discursos xenofóbicos e islamofóbicos.

E produziu consequências humanas que ultrapassaram muito as fronteiras norte-americanas.

A história também mostra que nenhuma sociedade sai de um trauma dessa dimensão exatamente como entrou.

Em 2001, o mundo descobriu que uma organização não estatal podia provocar uma crise internacional de proporções extraordinárias.

Nos anos seguintes, descobriu também que a resposta a um ataque pode produzir novas guerras, novos deslocamentos, novas disputas políticas e novas formas de violência.

Por isso, lembrar o 11 de Setembro não deveria significar apenas repetir "nunca esquecer".

Significa estudar.

Significa compreender como o extremismo é produzido, como governos falham, como sociedades reagem ao medo e como decisões tomadas em poucas semanas podem produzir consequências durante décadas.

Vinte e cinco anos depois, talvez a maior lição daquele dia seja justamente essa:

o terrorismo não mudou apenas os edifícios que atingiu. Mudou leis, governos, guerras, fronteiras, relações entre povos e a infância de milhões de pessoas.

E compreender essa história é uma forma de impedir que as novas gerações recebam apenas o medo como herança.

Por Júnior Patente

 

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