El Niño amplia riscos de extremos climáticos e coloca poder público diante do desafio da prevenção

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 25/09/2026, 09:27h

O fenômeno El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, voltou a ocupar o centro das discussões sobre os impactos das mudanças climáticas. Em reunião da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados, realizada nesta quinta-feira (24), especialistas alertaram para os possíveis efeitos do fenômeno sobre o clima, a produção de alimentos, os recursos hídricos, a saúde e a economia.

Entre os participantes esteve o professor Paulo Antunes Horta, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que defendeu uma resposta mais rápida do poder público diante da possibilidade de eventos climáticos extremos. A reunião teve como tema uma explanação técnico-científica sobre o El Niño.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) já havia informado, no início de setembro, que o El Niño estava estabelecido e deveria se intensificar nos meses seguintes. A entidade projetou uma probabilidade próxima de 100% de permanência do fenômeno até fevereiro de 2027 e alertou para alterações importantes nos regimes de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.

Um fenômeno natural com efeitos globais

O El Niño faz parte do sistema climático conhecido como El Niño-Oscilação Sul, ou ENSO. Em termos simples, ocorre quando as águas superficiais de uma extensa área do Pacífico equatorial ficam mais quentes do que o normal, alterando a circulação atmosférica e influenciando padrões de chuva e temperatura em várias partes do mundo.

Essas alterações não produzem exatamente os mesmos efeitos em todos os lugares. Enquanto algumas regiões podem enfrentar períodos de seca, outras ficam mais sujeitas a chuvas intensas, enchentes e tempestades. O fenômeno também pode contribuir para períodos de calor acima da média.

A OMM afirma que o episódio atual deve atingir intensidade muito forte e alcançar seu pico próximo ao fim de 2026. A organização ressalta ainda que os efeitos climáticos podem continuar em 2027.

O cenário brasileiro

No Brasil, a influência do El Niño costuma variar conforme a região. Para o atual episódio, as projeções mencionadas no debate apontam para maior risco de seca no centro-norte do país, enquanto áreas do centro-sul podem registrar aumento das chuvas. O calor também aparece entre os principais riscos associados ao fenômeno.

Na prática, isso significa que os impactos podem atingir diferentes setores ao mesmo tempo.

Uma estiagem prolongada pode reduzir a disponibilidade de água para consumo humano, agricultura, pecuária e geração de energia. No outro extremo, chuvas concentradas em pouco tempo podem provocar alagamentos, deslizamentos, perdas agrícolas, danos à infraestrutura e deslocamento de famílias.

É justamente essa combinação de ameaças que preocupa os especialistas.

Durante a audiência, Paulo Antunes Horta relacionou os possíveis efeitos climáticos a riscos econômicos. Segundo ele, eventos extremos podem provocar perdas na agricultura, na pecuária, na produção de alimentos, na pesca e na maricultura, com consequências para as economias locais e nacionais.

O professor também defendeu que estados e municípios identifiquem previamente suas áreas e populações mais vulneráveis.

A diferença entre desastre e prevenção

Um dos pontos centrais do debate foi a necessidade de mudar a lógica de resposta aos desastres. Em vez de concentrar esforços apenas depois de uma enchente, seca severa ou onda de calor, a proposta apresentada aos parlamentares é fortalecer as medidas preventivas.

Isso envolve conhecer as áreas de risco, manter sistemas de alerta funcionando, preparar rotas de evacuação, estabelecer locais seguros para abrigamento e capacitar as equipes municipais de proteção e defesa civil.

A consultora legislativa da Câmara na área ambiental, Kênia Simões, afirmou durante a reunião que o país já possui instrumentos legais para estruturar esse trabalho. Segundo ela, a legislação prevê mecanismos que incluem planos de contingência, cadastramento da população em áreas de risco, sistemas de alerta, evacuação, abrigos, simulados e definição de rotas e pontos seguros.

O problema apontado pela consultora está na execução dessas políticas.

Entre os instrumentos citados estão a Política Nacional sobre Mudança do Clima, a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil e as normas relacionadas à transferência de recursos federais para ações de prevenção, resposta e recuperação diante de desastres.

O que muda para a população

Para quem vive em uma área sujeita a enchentes, deslizamentos, estiagens ou temperaturas extremas, prevenção não é apenas uma questão administrativa. Ela pode determinar a diferença entre receber um alerta com antecedência ou ser surpreendido por um evento extremo.

Sistemas de sirenes, mensagens de emergência, mapas de risco, rotas de fuga e abrigos previamente definidos são ferramentas que precisam ser conhecidas pela população antes de uma emergência.

Da mesma forma, municípios precisam saber quais regiões podem ser atingidas primeiro, quais serviços públicos são mais vulneráveis e como garantir o abastecimento de água, alimentos e energia em situações críticas.

O debate na Câmara também chamou atenção para a necessidade de preservar e aperfeiçoar a legislação ambiental e as políticas de adaptação às mudanças climáticas. Segundo informações apresentadas na audiência, o Executivo publicou, em fevereiro de 2026, o Plano Clima Adaptação e planos setoriais relacionados a riscos e desastres.

El Niño não é sinônimo de desastre

É importante separar duas questões. O El Niño é um fenômeno climático natural. Ele não é provocado pelas mudanças climáticas.

O que pesquisadores discutem é como o aquecimento global pode alterar o contexto em que esses fenômenos acontecem e ampliar determinados riscos associados ao calor extremo, às secas, às chuvas intensas e a outros eventos climáticos.

Por isso, acompanhar o El Niño não significa prever que determinada cidade necessariamente enfrentará uma catástrofe. Significa identificar tendências e preparar estruturas públicas e comunidades para cenários de maior risco.

A própria Organização Meteorológica Mundial destaca que os efeitos regionais do fenômeno variam e dependem também de outros fatores climáticos.

A mensagem que saiu da audiência da Câmara, portanto, está menos relacionada a uma previsão isolada e mais à necessidade de preparação.

Quanto maior a capacidade de antecipar riscos, emitir alertas, proteger populações vulneráveis e manter serviços essenciais, menor tende a ser a exposição das comunidades aos efeitos de eventos extremos.

Em um cenário de El Niño forte, essa preparação deixa de ser apenas uma resposta emergencial. Passa a fazer parte do planejamento de cidades, estados e do próprio país.

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