A Copa de Cristiano Ronaldo — e a dívida que Portugal insiste em criar com sua maior lenda
Há jogadores que nascem gênios. Outros constroem a própria grandeza. Cristiano Ronaldo pertence ao segundo grupo. E talvez seja exatamente por isso que sua história mereça ainda mais respeito.
Cristiano transformou um talento enorme em algo muito maior através de uma obsessão quase desumana pela excelência. Estabeleceu um objetivo de vida — ser o melhor da sua posição e um dos maiores da história do futebol — e perseguiu essa meta com uma disciplina que dificilmente será repetida.
Treino. Sacrifício. Alimentação. Preparação física. Renúncias. Dor. Persistência.
Durante mais de duas décadas, Cristiano fez da rotina um instrumento de superação. Nunca abandonou sua essência. Nunca deixou de acreditar que poderia evoluir. Nunca permitiu que o sucesso diminuísse sua fome por vitórias.
É por isso que, independentemente das preferências individuais, sua carreira representa uma das maiores histórias de dedicação do esporte mundial. E é justamente por isso que o que acontece com Portugal nesta Copa do Mundo causa tanta estranheza.
Antes do torneio, tudo apontava para uma campanha histórica. Portugal chegou cercado de expectativas. Um elenco repleto de atletas protagonistas nos maiores clubes da Europa, jogadores brilhando na Inglaterra, na Espanha e França, especialmente no Paris Saint-Germain, atual referência do futebol europeu.
Havia, porém, um ingrediente ainda mais especial: a despedida de Cristiano Ronaldo.
Aos 41 anos, disputando sua última Copa do Mundo, recém-campeão da Liga Árabe, ainda marcando gols em sequência e caminhando para a impressionante marca de mil gols oficiais, parecia o cenário perfeito para uma despedida digna de um dos maiores jogadores da história. Mas bastaram poucos minutos da estreia para que algo parecesse completamente fora do lugar.
Cristiano corria.
Cristiano se movimentava.
Cristiano pedia a bola.
E simplesmente... não era servido.
O atacante aparecia livre dentro da área, fazia movimentos clássicos de centroavante e era ignorado pelos próprios companheiros. Não aconteceu uma vez. Nem duas. Tornou-se um padrão durante toda a partida. O resultado foi uma atuação decepcionante de Portugal e uma avalanche de questionamentos.
Não demoraram a surgir especulações sobre um possível desconforto interno. Falou-se em vaidades, disputas de protagonismo e na dificuldade de algumas estrelas da nova geração aceitarem que, mesmo aos 41 anos, todos os holofotes ainda apontassem para Cristiano Ronaldo. O assunto ganhou repercussão mundial.
O próprio Cristiano tratou de negar qualquer problema, numa tentativa clara de proteger o ambiente da seleção.
Veio então o segundo jogo.
E foi como trocar água por vinho. Portugal finalmente decidiu jogar futebol... e jogar com Cristiano. O resultado apareceu imediatamente. Dois gols do camisa 7., participação constante, movimentação intensa, liderança e como consequência, goleada. Parecia que Portugal havia encontrado seu caminho.
Mas a impressão durou pouco. Nos jogos seguintes, a equipe voltou a parecer desconectada. Individualista. Sem coordenação ofensiva. Um conjunto de talentos atuando como peças isoladas. A classificação veio, mas arrastada. Faltava algo.
Ou melhor, faltava entender aquilo que a Argentina compreendeu há muitos anos.
Não existe vergonha alguma em potencializar o maior jogador do elenco.
A Argentina construiu seu jogo ao redor de Lionel Messi. Os companheiros entenderam seu papel, aceitaram dividir protagonismo e transformaram talento individual em força coletiva.
O resultado está registrado na história: título mundial, liderança do ranking da FIFA e uma seleção que continua jogando um futebol envolvente.
Portugal, ao contrário, ainda parece hesitar diante da própria maior riqueza.
Na semifinal contra a Croácia surgiu o capítulo mais dramático desta história. Era impossível não enxergar o simbolismo daquele confronto. Cristiano Ronaldo, Luka Modric, dois gigantes, dois ídolos. Dois jogadores que ajudaram a definir uma geração inteira e apenas um deles seguiria vivo na luta pelo título mundial.
Foi uma partida emocionante. Cristiano novamente buscava o jogo, participava, tentava acelerar as jogadas, mas voltava a encontrar pouca conexão com o restante da equipe. Até que aconteceu, recebeu um lançamento, invadiu a área e finalizou como sempre fez, com maestria: gol. Mas um impedimento anulou o lance. Pouco depois, veio o pênalti.
Cristiano assumiu a responsabilidade e converteu com a frieza de quem passou a vida convivendo com esse tipo de pressão.
Quando a arbitragem analisava o lance no VAR, o técnico português decidiu promover quatro substituições de uma só vez: reforçou ataque e defesa, mas desmontou completamente o meio-campo.
A Croácia percebeu imediatamente o espaço. Cresceu. Pressionou. Chegou a marcar, também em posição irregular. Então veio a decisão que talvez simbolize toda a contradição desta campanha portuguesa: Cristiano Ronaldo foi substituído. Retirar de campo um jogador dessa dimensão em uma semifinal de Copa sempre será uma decisão que exige resultados para ser plenamente justificada.
Naquele instante, Portugal perdeu sua principal referência emocional dentro das quatro linhas. O jogo caminhava para o caos. Até que um cruzamento encontrou uma cabeçada certeira e Portugal virou a partida. Parecia decidido, mas a Croácia voltou a reagir. Já depois dos dez minutos de acréscimos, encontrou o empate. Novamente o impedimento salvou os portugueses. O apito final classificou Portugal.
Cristiano comemorou. Terá mais um capítulo. Mas permanece a pergunta que acompanha esta seleção desde o início do Mundial: Portugal realmente compreendeu quem veste a camisa 7?
Não se trata de jogar por gratidão. Não se trata de idolatria. Muito menos de transformar o futebol em homenagem. Trata-se de inteligência esportiva. Cristiano continua sendo um dos atacantes mais decisivos do planeta. Sua leitura de jogo, posicionamento, capacidade de definição e liderança permanecem capazes de decidir partidas. Ignorar isso, seja por questões táticas, seja por disputas de ego, significa desperdiçar um patrimônio que nenhuma outra geração portuguesa teve. Estamos falando do maior jogador da história de Portugal.
Um atleta que saiu de origem humilde na Ilha da Madeira, enfrentou dificuldades desde a infância, deixou sua casa ainda adolescente para perseguir um sonho e transformou esse sonho numa carreira que beira os mil gols oficiais, dezenas de títulos nacionais e internacionais, conquistas continentais por clubes e pela seleção e uma influência que ultrapassa fronteiras. Nenhum outro jogador português reúne tamanho legado. E talvez nenhum volte a reunir.
Agora não há mais espaço para erros. O próximo adversário é a Espanha. Um clássico carregado de rivalidade, história e pressão. E Na Copa do Mundo não existe segunda chance: quem perde, volta para casa. Mas, Portugal ainda pode escrever sua maior página na história do futenol. Mas, para isso, talvez precise compreender aquilo que milhões de apaixonados pelo futebol já entenderam há muito tempo. Esta pode até ser a Copa da seleção portuguesa.
Mas, acima de tudo, é a última Copa de Cristiano Ronaldo. E algumas histórias são grandes demais para terminarem sem o respeito que merecem.
Júnior Patente
Júnior Patente, profissional de comunicação desde 1984 em Rádio, Jornal, TV, Assessoria de Comunicação e Internet, professor de Geografia. Pai atípico, tem como meta hoje trabalhar pela inclusão.Instagram: @junior_patente
Site: www.portalincluir.com.br



