Brasil ainda empurra negros para empregos precários e dificulta acesso à liderança
Apesar dos avanços promovidos por políticas de inclusão e ações afirmativas, a população negra continua enfrentando barreiras significativas no mercado de trabalho brasileiro. A avaliação é do pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo Machado, que discutiu o tema durante entrevista ao programa Economia Direta, da Câmara dos Deputados.
Segundo o pesquisador, o racismo continua influenciando desde os processos de recrutamento e seleção até as oportunidades de promoção e ocupação de cargos de liderança. Os reflexos dessa realidade aparecem em indicadores que mostram taxas de desemprego mais elevadas entre negros, especialmente entre as mulheres negras.
Machado destacou que o Ipea possui mais de duas décadas de pesquisas voltadas à compreensão das desigualdades raciais no país. Recentemente, o instituto ampliou esse trabalho com a criação do coletivo Presença Negra, formado após o primeiro concurso público da instituição com adoção de ações afirmativas.
“O objetivo é ampliar o diálogo com intelectuais, lideranças e representantes de diferentes saberes da população negra, contribuindo para pesquisas ainda mais qualificadas sobre a questão racial no Brasil”, explicou.
Desigualdade histórica
Para o pesquisador, a persistência das diferenças entre negros e brancos no mercado de trabalho está diretamente relacionada à formação histórica do país.
“O Brasil foi construído sobre quase 400 anos de escravidão. A economia nacional e grande parte das fortunas acumuladas ao longo da história tiveram origem no trabalho escravizado. Não é possível compreender as desigualdades atuais sem considerar esse processo”, afirmou.
Ele ressaltou que as políticas de cotas no ensino superior e no serviço público representam avanços importantes ao ampliar o acesso da população negra à formação acadêmica e a profissões historicamente ocupadas por grupos mais privilegiados.
“Essas políticas ajudam a romper com a ideia de que o lugar do negro está apenas nos empregos mais precarizados e de menor remuneração”, observou.
Desafio vai além do acesso
Embora reconheça a importância das ações afirmativas, Machado avalia que elas não são suficientes para eliminar as desigualdades raciais. Segundo ele, é necessário criar condições para que profissionais negros permaneçam e avancem em suas carreiras.
O pesquisador citou dados que mostram a baixa presença de pessoas negras em cargos de alta gestão, tanto na iniciativa privada quanto na administração pública.
Além da qualificação profissional, ele apontou fatores ligados às redes de relacionamento e influência social como obstáculos à ascensão profissional.
“Muitas oportunidades surgem por meio de círculos sociais e profissionais dos quais a população negra historicamente foi excluída. Isso também contribui para a manutenção das desigualdades”, explicou.
Impactos econômicos e sociais
Durante a entrevista, Machado destacou que o racismo não afeta apenas a população negra, mas representa um problema para toda a sociedade brasileira.
“O racismo gera prejuízos sociais e econômicos. Não é uma questão restrita às pessoas negras; é um desafio nacional que precisa ser enfrentado por meio de políticas públicas e mudanças institucionais”, afirmou.
Entre os exemplos citados está a situação dos trabalhadores resgatados em condições análogas à escravidão. Dados do Observatório da Erradicação do Trabalho Escravo e do Tráfico de Pessoas indicam que cerca de 70% dessas vítimas são negras.
Novas iniciativas
Recentemente, o Ipea e o Ministério da Igualdade Racial lançaram o Guia Inclua Igualdade Racial e a Cartilha de Gestão Pública Antirracista, materiais que buscam orientar gestores públicos na implementação de práticas voltadas à promoção da igualdade racial.
Embora ainda recentes, as iniciativas são vistas como ferramentas importantes para fortalecer políticas de combate ao racismo institucional e ampliar a participação da população negra em espaços de decisão.
Para o pesquisador, o enfrentamento das desigualdades exige ações permanentes e o compromisso de toda a sociedade.
“Superar o racismo significa garantir que oportunidades sejam definidas pela capacidade e pela qualificação das pessoas, e não pela cor da pele”, concluiu.









